REIS, Jonan de Castro
Até mesmo para os falantes inatos, a língua tem os seus humores, mas também os seus horrores. Não é de se admirar que em várias situações os adjetivos, os substantivos e, principalmente os verbos adquirem sentidos até então escusáveis e passam a fazer parte da vida dos falantes como tempero ou dose letal caprichosamente preparados para darem um sabor exótico à linguagem. Talvez por isto a língua seja a mais pura manifestação do pensamento de seus adeptos. Cada falante com sua linguagem, cada qual com sua particularidade, cada fala com sua riqueza de sentido fazem da língua um veículo de comunicação e entretenimento.
Entreter ou entre ter alguém pode ser uma proposta inocente. No entanto, deve-se observar o que se espera em troca desse favor. (In)felizmente, a língua tem os seus reveses, mas também os seus vieses. Questionado pela esposa ciumenta sobre o motivo que o levou a dar carona àquela loura assanhada, Ruff sentiu-se insultado em sua boa índole e justificou:
— Não, meu anjo! Só dei carona pra ela porque ela disse que depois ia dar pra mim. Um dia eu dou pra ela, outro dia ela dá pra mim. Os tempos são difíceis! Envergonhada, Raiana o beijou e choramingou no seu ombro:
— Desculpa Ruff! É que existe tanta piriguete solta por aí que fica até difícil reconhecer as pessoas bem intencionadas.
— Tem problema não — disse o moço e afagou os cabelos dela. No entanto, o episódio que inspirou esta narrativa deu margem na loja de artigos para presentes, na quarta-feira depois do Natal.
O ano de 2009 claudicava penosamente rumo ao patíbulo. O estande para o fuzilamento já estava montado na praia de Copacabana, esperando apenas o cruzar dos ponteiros do relógio. O tempo de reflexão passou-se como o Natal, num relâmpago. Mas agora era chegado o Ano Novo. Logo chegaria o Carnaval e, como geralmente acontece por esta ocasião, vários casais costumam até trocar de parceiros, aproveitando a empolgação que a maior festa popular proporciona. Depois vem a Quaresma, como oportunidade para travar um dedo de prosa com o Chefe Supremo. É sempre assim: uma festa sublime, outra mundana. Mas o homem tem livre arbítrio até em suas ações. Agora era véspera de Ano Novo e Raiana queria fazer algo diferente. Começou a flertar com o gerente da loja onde trabalhava. O moço era bonito, atencioso e discreto, bem ao estilo de grande parte das moças e, principalmente de mulheres casadas. Nem é preciso ser inteligente para saber que discrição é a palavra de ordem de um romance ilícito.
O que o marido sabia até o momento é que Raiana era o petisco e o gerente era a fome personificada, pois na terça-feira, ao chegar à porta de sua casa, ele havia dado a volta no carro para abrir a porta do carona para ela descer. A loja ficara aberta até mais tarde e o gerente a levou em casa.
Sei não!...
Alguém pode achar absurda essa analogia, mas a filosofia popular defende que quando um homem abre a porta para uma mulher é porque ainda não comeu. Daí pode-se extrair dessa proposição quatro sentenças dignas de Aristóteles: Ricardo era homem. Ele abriu a porta do carona para Raiana descer. Raiana era mulher. Logo, Ricardo ainda não comeu. É... Mas Ricardo estava com muita fome. Via-se no modo como ele olhava para ela, com um olhar de gato pedinte. Ruff fazia essa análise, preocupado com a esposa. Por outro lado, Raiana parecia muito à vontade andando de carona com Ricardinho. Na verdade, ela queria provocar o marido para ver se ele também sentia fome. Mas será que Ruff precisava de um enfeite na cabeça para sentir o que Ricardinho sentia? — especulava.
Dizem alguns praticantes da língua que um homem enfeitado sente mais fome, fica mais atencioso, mais carinhoso e tende a relaxar as mãos com o cartão de crédito. É tudo o que uma mulher precisa e Raiana decidiu tirar a limpo esse mistério. Afinal, ela estava precisando renovar o guarda-roupa. Além do mais, ela estava cansada de ser tratada como objeto sexual, daqueles que se usa, lava e guarda para o outro dia. Ela queria ser vista como mulher, como pessoa. Parece que deu certo. Não demorou muito para que os presentes começassem a aparecer: um lingerie, um perfume novo, um baton ou mesmo uma flor. Ruff se desdobrava em mimos, apesar de desconfiado do affair entre sua mulher e o gerente. Ele só não tinha certeza se ambos já tinham ficado — motivo pelo qual ele ficou macio como filé. No entanto, todos os seus instintos de caçador estavam em alerta.
Nem é preciso dizer que o marido também emplacou: começou a comprar roupas caras para a mulher, mas como ela gostava também de uma amiga, ela dava para ela. Ruff comprava pizza de boa qualidade para Raiana três vezes por semana, mas era o gerente que a comia todos os dias. Aquilo não estava direito — o marido ponderou. Por essas e outras razões ele ficou enciumado e resolveu derrubar o barraco. Mas Raiana já havia encomendado uma bicicleta para o filho Di Kem, ao que o gerente prometeu entregar em sua casa ao final daquela tarde. No entanto, Ruff ainda era o homem da casa e foi tirar satisfação com a mulher. Vasculhou no arquivo de ligações não atendidas o número do celular dela e aguardou impaciente, batendo os nós dos dedos na mesa. O diálogo foi repleto de revelações ácidas:
— Alô! — Raiana? Via-se que dificilmente ele ligava para ela.
— Fala Ruff, o que você quer?
— Soube que você comprou uma bicicleta para o Di Kem — era uma afirmação.
— Sim, por quê? — ela o enfrentou.
— Onde?
— Ora, onde!... Claro que foi aqui na loja!
— De quem comprou?
— Já disse, eu comprei seu tonto. Di Kem nem sabe disso.
— Eu sei que foi você, espertinha! Eu quero saber com quem você negociou.
— Com o Ricardinho. Ruff quase sofreu um infarto.
— Quanto custou? — Eu não disse que estava apertado? — Ele gritava ao telefone.
— Relaxa amor! — Raiana tentava apaziguar. O Ricardinho me fez uma proposta irrecusável. Eu dei pra ele uma coisa que você não está mais usando em troca da bicicleta. Ruff queria morrer... Ele ficava mais irritado porque a mulher tratava o gerente pelo diminutivo.
— O quê? Por acaso você já pegou? Foi aí que Raiana explodiu:
— Você tá achando o que, seu cachorro?
— Acha que sou sem-vergonha igual a você, que fica pegando qualquer uma que vê? — Fique sabendo que sou uma mulher direita, não fico pegando qualquer um que aparece na minha frente, não! Basta o traste imprestável que tenho em casa. Ruff estava de queixo caído, sem saber direito o motivo de sua mulher estar lhe atirando tantas pedras. De caçador Ruff virou caça.
Ele pressionara a mulher e agora estava se sentindo o pior dos miseráveis. Amaldiçoou o dia em que dera carona para a loura, mas no outro dia ele foi divinamente recompensado, pois a loura esperou ele sair do trabalho e deu pra ele também. Já era noite, ele estava tão cansado!... Mas foi como um bálsamo relaxante!... Afinal, que mal havia nisto?
Hmmm... É isso ai "J"
ResponderExcluirParabéns pelo sucesso!
Continue brilhando...
Ass: Allen Gleiser Alves de Castro (filho do escritô)
Estou muito contente pelo material recebido para leitura e me sinto honrado em ser participante destes resultados.
ResponderExcluirEscrever não é apenas organizar letras para formar palavras e frases: primeiramente é um Dom de Deus.
E esse, por sua vez, possui um nível de excelencia de difícil alcance pela capacidade humana.
Quando você escreve, é como Leonardo Da Vinci com seu pincel enpunhado, como Beethoven preparando suas obras, é como um simples dedilhar de um instrumento por esses dedos que te escrevem. Essa é sua essência de vida, sua realização plena.
Como me faltam palavras para lhe parabenizar por este lindo trabalho que vens desenvolvendo, resta-me simplismente lhe agradecer por fazer parte de sua história e desejar-lhe de todo meu coração, toda a benção de Deus na sua vida e que todos os seus sonhos se tornem "contos", na mais pura realidade.
Um grande abraço e, espero ve-lo em breve.
Seu sobrinho Jefferson