Eu vi, mas se me perguntarem eu nego até a morte. Corria a década de 90 e o povo de Muamba se preparava para eleger o prefeito, seus vereadores e seus representantes no Parlamento. A cidade fervilhava de cabos eleitorais de todos os partidos, mas como acontece em cidades interioranas, havia dois grupos que se destacavam, inclusive pela cor das camisetas. A rivalidade entre os dois partidos era notória e construiu, ao longo do tempo, a marca tradicional da cidade de Muamba: discussões, brigas, mortes, atraso econômico, desemprego, perseguição política e muitas outras inconsistências, dignas de paixão partidária. A oposição era tão grande que a cidade possuía duas datas de aniversário. Tudo dependia do partido que estava no poder. Era possível assistir até brigas entre casais por antagonismo partidário. Uma bobagem! Pior mesmo era para um cidadão considerado livre pela Constituição ser obrigado pela própria Constituição a participar dessa farofa em nome de uma falsa democracia.
Para Téo, a contradição da Carta Magna se consolidou numa certa manhã em forma de convocação da Justiça Eleitoral para servir como escrutinador na Mesa Apuradora de Votos. Ele especulou o que seria escrutinador, mas, como haveria uma reunião para esclarecimentos, ele preferiu esperar. Seus colegas de trabalho lhe perguntavam interessados se ele havia sido convocado para as eleições, e ele dizia que ia ser escrutinador.
— Escruti o quê? — perguntavam entre divertidos e ignorantes.
— Es-cru-ti-na-dor — soletrou, separando bem as sílabas. Mas, só depois da reunião de esclarecimentos é que ele ficou sabendo que o personagem agraciado pela Justiça Eleitoral não passava de um mero digitador. Afinal, estávamos vivendo o início da era tecnológica. É que os juízes eleitorais têm mania de colocar apelido nas funções menores, uns termos técnicos, estranhos, talvez até inventados na hora. Téo até hoje defende que isto é uma forma de ludibriar ou mesmo de atrair o coitado do eleitor para ele sentir-se envaidecido e trabalhar de graça, sem se queixar. É uma estratégia que “massageia o ego”, enquanto a tropa vai sendo explorada, feliz da vida...
Já existia uma central eletrônica nas capitais para apuração de votos, mas em algumas cidades do interior do Estado (como era o caso de Muamba) utilizavam-se urnas semi-eletrônicas, em outras ainda prevalecia a contagem manual. Embora a apuração tivesse de ser feita voto a voto, cédula por cédula, pelo menos o escrutinador podia contar com a máquina eletrônica para ter direito a um boletim por candidato. Era o chamado Sistema Cantado, em que se fazia a contagem manual dos votos e “cantava” a quantidade para o escrutinador que, por sua vez, digitava na máquina eletrônica sob o olhar de águia dos delegados de partidos, dos fiscais encrenqueiros, dos candidatos inescrupulosos, dos repórteres e de um sem-número de outros curiosos e técnicos, todos identificados com crachás que pendiam de suas camisas ou ternos suados. A sala de apuração parecia o pandemônio da bolsa de valores. Todos falando ao mesmo tempo. O trabalho do escrutinador consistia em receber a “cantada” do voto e digitalizá-lo na máquina eletrônica.
Por determinação da Justiça Eleitoral foram instaladas vinte mesas apuradoras, compostas por quatro pessoas: o presidente, o primeiro secretário, segundo secretário e o escrutinador. Dessas vinte equipes fragmentava outra equipe com poderes especiais para dirimirem as dúvidas oriundas dos votos impugnados, suspeitos, composta por quatro presidentes — dos quais um era o presidente da mesa em que Téo trabalhava —, mais o meritíssimo Juiz Eleitoral, que tinha a nobre função de definir a questão, em caso de empate. Era a Suprema Corte Eleitoral.
Era um ambiente estritamente seguro e sigiloso. Quando o presidente levantava para apanhar a sacola de votos, este era acompanhado por um policial e um fiscal de cada partido. E olha que a distância entre a mesa e o local das sacolas era de pouco mais de três metros. Quando se conversava com o colega de mesa, tinha de fazê-lo em voz alta para que os fiscais pudessem saber do que se tratava. Não tinha como fazer fraude, pois a segurança era absoluta. Um dos candidatos a prefeito chamava-se João Fernandes, apelidado “Branco”, e o outro se chamava Nélio. Eram inimigos cordiais: publicamente, chegavam a tomar cerveja na mesma mesa, mas em plenário eram arquiinimigos políticos.
Agora ali estavam todos atentos para a abertura da primeira urna, especulando-se de quem seria o primeiro voto. O secretário apanhou a cédula, olhou-a cuidadosamente, depois a repassou para o presidente, que a examinou sob os olhares de, no mínimo, cinco pessoas. Só então ele ‘cantou’ o voto:
— João Fernandes — um voto. Téo digitou: zero um e teclou no verde para confirmar. A imprensa informou aos curiosos do lado de fora e, lá de dentro, ouviu-se um tremendo espocar de fogos de artifício. E a apuração transcorreu sem novidades. A mesa estava apurando a segunda urna e, nela havia quatorze votos brancos. O presidente “cantou”:
— Branco — quatorze votos. Téo apertou a tecla branca e aguardou a confirmação do presidente para finalizar. Foi então que o fiscal simpatizante do candidato atacou:
— Tão votando no Branco. — Quatorze votos para o Branco. O escrutinador ficou indeciso, esperando ordem do presidente da mesa. Ele repetiu:
— Quatorze votos brancos — enfatizou. Téo finalizou.
— Eu impuguíno — gritou o fiscal, levantando o braço e acentuando bem a sílaba gui. Houve muito alvoroço. O juiz foi chamado e viera apressado para se inteirar do assunto.
— Na verdade, parece haver certa ambiguidade — admitiu. Subtende-se que os eleitores quiseram votar no candidato “Branco”, mas para que não haja nenhuma suspeita quanto à seriedade da eleição, vou recorrer à votação da questão pela Corte.
Ninguém contestava o que a Corte decidia. João Fernandes registrara o apelido, talvez pensando nessa possibilidade — Téo refletiu. Inclusive, na reta final da campanha, ele lançara um panfleto com um apelo bem sugestivo: — “Não vote nulo. Vote em Branco”. E agora estava colhendo os frutos de seu “maravilhoso” e “limpo” trabalho.
O adversário ficara muito preocupado, pois a incidência de votos brancos era muito grande. Téo viu quando o delegado do partido, os fiscais e o outro candidato se reuniram, cochichando. O contra-ataque foi articulado enquanto a decisão ainda estava sendo votada pela Corte. O juiz aproximou-se de uma mesa, as cédulas presas em uma pequena prancheta e recitou a questão:
— Para quem é o seu voto? — perguntou. O presidente examinou as cédulas, piscou miúdo, olhou novamente as cédulas, uma a uma. O juiz estava em pé, esperando. De repente, o olhar do presidente cruzou com o do fiscal que levantara a questão. Foi apenas um gesto sutil. Com dois dedos.
— Para o Branco — disse. O juiz anotou o voto e caminhou para outra mesa.
— Seu voto? — perguntou, após recitar o motivo da impugnação.
— Branco — respondeu o presidente.
— Votos em branco ou para o Branco? — insistiu o juiz. Eleição é coisa séria e a responsabilidade de um juiz é muito grande; por isso, o cuidado com a ambiguidade — Téo ponderou.
— Votos brancos — confirmou. O juiz anotou e passou para outra mesa, até que chegou à mesa de Téo com a decisão democrática do Colegiado:
— Quatorze votos para o “Branco” — sentenciou o juiz. Uma vez dado o veredicto, não se falava mais naquilo. Se o juiz batera o martelo, acabara a discussão. Só restava preencher uma ocorrência e consertar o erro. Todos na mesa, o juiz e os fiscais assinavam, dando autenticidade ao documento. Téo sentia asco daquilo, mas afinal, estava cumprindo apenas um dever cívico.
Mas, após esse incidente tudo passou a valer. Os candidatos e os fiscais perderam o senso de cidadania e ética, cada qual procurando uma melhor oportunidade para nocautear o adversário. E a revanche veio mais cedo do que Téo imaginava — fruto da reunião de emergência da oposição.
Inconformados com o partidarismo apaixonado e com a falta de proposta dos candidatos majoritários, muitos eleitores haviam protestado, escrevendo nas cédulas: Nulo. Mais de cinco urnas haviam sido apuradas quando o outro candidato a prefeito percebeu que estava sendo lesado e orientou a sua equipe de mesa em mesa para ficarem atentos. Só então ele voltou para perto da mesa de Téo. Foi ali onde tudo começou. Parecia que sua sorte estava ali. Os votos foram contados e o presidente cantou para o escrutinador:
— Oitenta votos para o Branco. Téo Digitou rapidamente e olhou para ele interrogativamente. Ele continuou:
— Setenta e nove para Nélio. Téo percebeu quando Nélio franziu o cenho, preocupado. Nas outras mesas, a realidade não estava muito diferente disto. A vitória, fosse de quem fosse, ia ser conquistada praticamente voto por voto e o Branco já havia encontrado uma forma de conseguir votos extras. Nova cantada:
— Vinte e sete nulos. Nélio sentiu um clique, um insight. E, partindo do espanto à ação, ele foi à forra:
— É Nélio — disse o candidato em pessoa.
— É Nulo — atestava o presidente.
— É Nélio — agora recitavam os fiscais em coro. O delegado do partido viera juntar-se ao movimento e sustentou a tese:
— Está evidente que o eleitor queria votar em Nélio. — Vocês não podem contrariar a vontade democrática do eleitor — dizia o delegado com paixão diplomática. Continuaram a bater boca, sem que ninguém conseguisse convencer um ao outro.
— Então chame o juiz — disse o presidente da mesa a Téo. O moço transmitiu o recado, pois ele mesmo não podia abandonar o posto. O magistrado viera imediatamente, uma vez que o processo não poderia atrasar por negligência de sua parte.
— O que está havendo? — perguntou ao acercar-se da mesa. O presidente fez a exposição. O juiz pegou as cédulas, uma a uma e as examinou.
— Senhor Nélio, aqui está mais para Nulo — disse ele com cara de riso. Téo viu que até o juiz, acostumado com todo o tipo de muamba achou aquilo de caráter muito criativo.
— Meritíssimo, está muito claro que o eleitor quis votar em Nélio. Observe direitinho — insistiu o candidato. O juiz olhou novamente.
— É... Parece que uma perninha do “u” está mais gordinha do que a outra — admitiu.
— Então!...
— Mas, para que não haja nenhuma dúvida, vou ver com o Colegiado.
— Seu voto? — perguntou o juiz.
— Nulo — disse um dos presidentes com poder de voto.
— Seu voto? — perguntou ao aproximar-se do presidente da segunda mesa.
— Nélio, meritíssimo.
— Seu voto? O presidente pegou as cédulas e examinou-as disfarçadamente, procurando com o olhar o candidato que levantara a questão. Nélio estava atento e fez um leve sinal com o dedo “maior de todos” e o de fazer “jóia”, esfregando um no outro. O presidente baixou as vistas para as cédulas e, num arremedo de sorriso, emitiu seu parecer:
— É Nélio, Meritíssimo. — Está evidente. O juiz continuou a peregrinação. No entanto, ao passar por todas as mesas da Suprema Corte havia dado empate. Ele franziu o cenho e olhou para o candidato. Havia chegado à mesa de Téo e analisava as cédulas novamente.
— É Nélio meritíssimo! — quase implorava agora o candidato, ao perceber que a decisão dependia única e exclusivamente do Juiz. O delegado e os fiscais acudiram, confirmando. O juiz olhou mais uma vez o candidato, avaliando-o, perscrutando-o, depois sentenciou:
— Está certo — bateu o martelo. O candidato sorriu pedindo licença às orelhas, enquanto Branco rilhava os dentes, vermelho de raiva. Foi dessa forma que Nélio conquistou as chaves da Prefeitura.
Téo avaliava toda aquela trama, com um misto de repulsa e de pena. Nojo por descobrir que a política no Brasil era tão suja; e pena dos eleitores que, embora não o sabendo estavam beneficiando políticos inescrupulosos e favorecendo a indústria da corrupção.
— Que pena! — ele suspirou profundamente. Será que algum dia o eleitor vai aprender a utilizar a única arma que tem ao alcance das mãos?...
REIS, Jonan de Castro. Romancista, poeta e contista. Membro-fundador da Alesg - Academia de Letras do Extremo Sudoeste de Goiás, membro da Academia de Letras do Brasil, membro da Associação Internacional de Poetas del Mundo e Cônsul de Poetas del Mundo para o Entorno de Quirinópolis. É autor de Arremedo: Contos & Lorotas (Goiânia: Kelps, 2009, 122 pp.) e do romance Marcas do Infortúnio (Goiânia: Kelps, 2010, 322 pp.).
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