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quarta-feira, 24 de novembro de 2010

A LIÇÃO DO MESTRE


J. Castro[1]

Do alto de seu galho ensebado
Uma ave de rapina provoca o mestre sabiá:
Veja lá as pernas finas daquele “beija-flor”.
Haja flor, haja flor!
O maestro pára a batuta diante de tão grande pequenez
E, do fundo da alma,
Beethoven busca na partitura a voz que faz o louco pensar:
Eu quisera ser abelha pra pousar de flor em flor
Haja flor, aja amor!
Da pureza de seu néctar, os deuses evocam o seu sabor,
Haja amor, aja amor!
Vivo cada momento como se fosse o último.
Canto para os náufragos do Titanic,
Canto por cada semente que germina,
Mas choro por cada árvore que cai.
Sinto as pessoas que amo como se há muito não as sentisse,
Digo-lhes adeus como se jamais as fosse ver.
E, fazendo um trinado em sol maior, o mestre completou:
Viva em paz, pois a nenhum abutre guardo rancor.
Haja amor, aja amor!
Oh! — Tentou se redimir, esticando o pescoço.
Eu devia ter...
— Cala-te, não quero ouvir as lamúrias do seu epitáfio.


[1] REIS, Jonan de Castro. Poeta, contista e romancista. Membro da Academia de Letras do Extremo Sudoeste de Goiás - ALESG, membro da Academia de Letras do Brasil – ALB, membro da Associação Internacional de Poetas del Mundo e Cônsul Poetas del Mundo, Entorno de Quirinópolis. Autor de Arremedo: Contos & Lorotas (122 pp) e do romance Marcas do Infortúnio (322 pp).

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