(REIS, Jonan de Castro[1])
Desde os primórdios da humanidade os seres se confrontam ferrenhamente, buscando sua hegemonia frente ao universo até então considerado machista. O Espírito luta contra a carne, a Luz arranca faísca das trevas, o Dia procura suplantar a noite, numa luta sem tréguas. É uma guerra constante, em que não se sabe se quem vence é mesmo o vencedor. Se em Camões o amor é chama que arde sem se ver —, na cama, chifre é uma ferida que dói e não se sente. Esse paradoxo se explica porque o homem é de fogo, mas a mulher é de estopa; o tinhoso só faz assoprar o seu hálito inflamável.
Mas foi com a Revolução Francesa que a mulher se libertou das amarras que a prendiam ao bicho-homem e a competição se ampliou em todos os níveis sociais. Não é de se admirar que a competição comece logo na zona rural e se alastre como pólvora para as grandes metrópoles: Se no campo o sapo vira príncipe, na cidade a mulher logo vira perereca para pular em cima dele. Se o homem mostra uma cobra, mais que depressa a mulher já segura o pau. Com isso, as mulheres ganham mais e mais espaço entre si.
No comércio, a situação ainda é mais intrigante: Se a mulher dá um troço, logo o homem dá o troco, numa competição desenfreada. E essa competição é tamanha que se embrenha para o ramo do esporte. Enquanto o homem se esforça para fazer cooper, a mulher parece ter nascido de cooper feito. Na arena o homem é cavaleiro, mas a mulher amazona. Enquanto o cowboy desfila seu puro sangue na pista, a cowgirl esbanja seu puro encanto na passarela. O homem arregaça as mangas no ringue, a mulher arreganha as pernas no ar e o nocaute é inevitável. No entanto, é no âmbito social que a mulher faz mesmo a diferença: Se entre os homens há no caminho uns desviados, entre as mulheres é a reta que se disputa. Sem contar que na política, o homem sonha em virar senador, mas a mulher já nasce deputada.
Ora, ora! Mas estamos em pleno século XXI e todos os preconceitos foram lançados por terra. Por força dessa nova visão idealista, o papel social foi invertido de forma extremamente lúdico. O que de dia era João, de noite virou Maria; até a filha de Julieta ficou noiva da filha de Beth. Porém, a revolução parece que aconteceu ontem. A Cortina de Ferro acaba de ser rompida: agora o homem pode circular livremente além da fronteira com a Tcheca.
Mas, para quem ainda não sabe, guarde este segredo: No salão de beleza a mulher é sempre rainha. Ela prefere escova de cabelos curtos, mas há homens que adoram fazer um penteado.
[1] REIS, Jonan de Castro. Romancista, poeta e contista. É autor de Arremedo: Contos & Lorotas (Kelps, Goiânia, 2009, 122 pp.) e Marcas do Infortúnio (Kelps, Goiânia: 2010, 322 pp.).
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