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quinta-feira, 18 de novembro de 2010

UMA "MARGEM" E SEUS DETRITOS

Resenha





Prof. Dr. Ravel Giordano de Lima Paz
Universidade Estadual de Goiás
Unidade Universitária de Quirinópolis – GO.



Arremedo: contos & lorotas é – afora um romance inédito – o livro de estréia de Jonan de Castro, prosador nascido e residente em Quirinópolis, município incrustado no Sudoeste goiano. Região esta, esclareça-se, de formação recente e conflituosa, e à qual nem mesmo a recentíssima (e algo jotajotaveiguiana) “invasão” da indústria sucroalcooleira – e a despeito da importância desse processo nas políticas econômica e (sic) ecológica ora em curso entre nós – deu algum relevo no mapa nacional.

Tampouco esse processo e outros fundamentais na configuração histórica e política da região ganham propriamente relevo nas histórias de Jonan. Ainda assim, cada um desses contos e/ou lorotas transpira o odor local, principalmente no que deles se desprende das relações de poder, explícita ou implicitamente tematizadas em conflitos de homens (e mulheres), crianças ou bichos.

Aprendiz dos artifícios do apólogo e da alegoria em seu conluio moderno com a ironia, Jonan explicita sua dívida com Machado de Assis em uma das histórias impagáveis do volume, “Confidências de um finado”, ao mesmo tempo que assinala sua independência de tom e visão ao transformar um conhecido e primoroso conto machadiano em algo próximo a um samba do crioulo – ou “preto véio” – doido (e, como se não bastasse, míope).

Mas o primor construtivo também marca presença no volume – o que não significa obediência a algum padrão. “Coisas do coração” e “Até onde irei com meu Poisé?” testemunham, o primeiro, um rigor “poeano” na construção do desenlace, e o segundo, inversamente, a sutileza de uma inconclusão “tchekoviana”; mas em ambos um humor cortante – de um corte peculiaríssimo, ao mesmo tempo sutil e histriônico, e particularmente afeito ao gozo linguístico – atravessa, recostura e ressignifica, digamos que muito goianisticamente, os topoi e as estruturas: num, a tensão narrativa se dilui em surpresa, noutro, se condensa em uma epifania cômico-dramática. É verdade que bons textos como esses convivem com outros menos interessantes – alguns se imiscuindo pelo terreno da “filosofia” da autoajuda, estranho extremo para um admirador de Schopenhauer –, que o leitor decidirá se deve ou não desculpar como meras lorotas.

Se toda margem comporta seus detritos, os desse lugar à margem dos centros de decisões – ainda que em pleno Centro-Oeste brasileiro – que é o Sudoeste goiano apenas agora começam a se sedimentar na forma de reflexão e criação artística. Não é desprezível, portanto, o mérito de quem se aventura, ainda que discretamente como quem colhe flores (ver o conto a respeito), a pôr o pé na lama para extrair dela a matéria impura de uma prosa invocada.

REIS, Jonan de Castro. Arremedo: contos & lorotas. Goiânia: Kelps, 2009, 120 p.

Informações: jotacastro10@yahoo.com.br.


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