REIS, Jonan de Castro[1]— Olha que classe! — disse um moço ao seu companheiro.
— Parece comandante de tropa militar! — foi o comentário do outro. Era o bastante para que ninguém se arriscasse a flertar com aquela fera indomável.
Eve era muito determinada. Ao longo daqueles cinco dias, muitos cochichavam à meia voz como ela fazia sexo, ou mesmo se o fazia. A verdade era que a moça dificilmente era vista em companhia dos vários rapazes que faziam parte daquele evento, muito menos enturmada com aquelas garotas barulhentas que pareciam se divertir, insinuando para os homens casados. Elas diziam que preferiam os homens casados a rapazes solteiros, pois aqueles eram mais discretos, enquanto estes gostavam de contar vantagem.
Vários quilômetros de rodovia esburacada separavam aqueles sofredores de seus pares, tais como cônjuges e namorados. Poucos ali eram conhecidos uns dos outros, o que os deixavam vulneráveis à tentação de um flerte. Qual é!... Terminado aquele evento, cada um voltaria para o seu mundo e ninguém jamais tocaria no assunto. Tudo era uma questão de momento. Eve não pensava assim. Especulavam se a falha estava nela ou nos homens que não sabiam lidar com pessoas temperamentais. Ou será que ela calçava 44? — insinuavam maldosamente. O público era composto especificamente por vendedores autônomos e supervisores de vendas, galhofeiros por força do ofício.
Mas até hoje há quem se lembre daquele episódio: Eve estava sentada entre dois colegas de curso e o palestrante se arrastava monotonamente, esforçando-se para angariar a atenção do auditório. O dia tinha sido muito puxado, mas agora já se encontrava nos minutos finais do curso. A turma decidiu esticar até mais tarde para folgarem na manhã seguinte. Só mais um pouco e todos poderiam tomar um merecido banho ou então, quem quisesse poderia ir a um barzinho. As luzes do auditório foram apagadas, somente a luz do datashow se mantinha acesa, o que dava a falsa ideia de um cinema. Dois jovens cochichavam na cadeira logo atrás. Pela forma que riam e o jeito que se tocavam, dava a impressão de que eram “flex”, como se diz na gíria moderna. Outro colega flertava com a vizinha do lado, como forma de driblar o tédio. O orador se esforçava para manter a platéia interessada:
— “Como se sabe, a crise de 1929 foi um dos maiores choques que a economia mundial já atravessou. Após a quebra da Bolsa de Valores, o governo assumiu uma postura intervencionista na Economia, regulando a produção e fixando limites para preços e salários”. Era demais para Eve que acabara de defender dissertação de mestrado em Administração e Comércio Exterior. Ela remexeu-se na poltrona, inquieta e inclinou-se para trás no sentido de aliviar a tensão do pescoço. Isto fez com que baixasse a guarda, ao que um de seus companheiros de assento passou a mão, deliberadamente em sua coxa. Afinal, ele estava excitado demais vendo o casal ao lado se tocar. Eve se levantou de um salto, chamando a atenção de todo o auditório. O próprio orador parara a explanação e agora observava a cena com muito interesse. A moça fitou os olhos do descarado e, plantando a mão espalmada com toda a força em seu rosto, ela disse simplesmente:
— Você pediu cavalheiro! — e passou por ele com o queixo aprumado. O auditório prorrompeu em gostosas gargalhadas. Ele chegou a olhar para o chão e para os lados procurando, talvez, um buraco onde pudesse se esconder. Eve desfilou valentemente pelo longo corredor do salão, como se estivesse passando a tropa em revista; ora fixava o olhar numa ala, ora na outra, sem demonstrar nenhuma expressão. Mas agora, ao sair do lado de fora da sala ela precisava de uma bebida forte para se recompor, senão derreteria em lágrimas. Mas chorar estava fora de cogitação. A lanchonete situada do outro lado da avenida chamou-lhe a atenção. Era um local tranquilo e bem arejado. Ela sentou-se à mesa do canto e chamou o garçom com a urgência que lhe era peculiar.
— Uísque duplo com soda e gelo — ela ordenou. Ele saiu apressadamente para voltar logo depois com o pedido.
— Mais alguma coisa, senhorita?
— Não. Agora só quero ficar sozinha. O homem abandonou a mesa, amaldiçoando o dia em que fora chamado para fazer teste de garçom naquela lanchonete. Mas, apesar das inconveniências ele gostava do que fazia. O difícil mesmo era entender as atitudes de certas pessoas, mas que se ferrassem! Ele nunca se preocupou em entender psicologia, mesmo!... Não seria agora que iria se preocupar, não? Sua mente foi suavizada com os atendimentos a outros clientes menos problemáticos, principalmente as duas lindas moças da mesa 20.
Mas, ao passar por uma mesa perto da porta de entrada ele percebeu que não seria tão fácil para um garçom se livrar dos problemas alheios. O cliente o chamou e pediu-lhe que entregasse uma encomenda na mesa daquela moça arrogante. Ele relutou consigo mesmo, mas acabou sucumbindo. A gorjeta valia a pena. Momentos depois ele reaparecia à mesa de Eve, trazendo na bandeja um suco de açaí com polpa de morango e um pequeno cartão feito às pressas com guardanapo.
— Cortesia do cavalheiro da mesa 5, senhorita. Ele aguarda resposta. Ela leu: “Você não precisa de farda para ser uma autêntica generala. Há espaço para você no meu Regimento”.
A moça pensou em ignorar, mas seria pouco educado de sua parte. Afinal, que mal havia em se conhecerem? — perguntou-se. Talvez ele não fosse tão pretensioso. Já um pouco animada pelo efeito do uísque ela respondeu:
— Muito obrigada. Mas, queira se identificar pessoalmente. Não costumo tratar com estranhos — foi a resposta. Ela não podia se descuidar novamente. Quando o garçom se retirou a moça pegou o cartão outra vez. Um observador “antenado” teria notado que a sombra de um sorriso insinuara em sua boca. Eve era durona, mas se devidamente conquistada ela se transformava em gelatina. Como ela mesma dizia, “quando gosto de uma pessoa sou capaz de carregar água no jacá”. Ela dobrou o guardanapo novamente. Foi o tempo preciso para se recompor.
— Posso? — fez o moço, apontando o assento da cadeira. Ele tinha o crachá pendurado ao pescoço por um fino cordão de nylon.
— Posso recusar? — ela contra-argumentou.
— É um direito seu. Ele já ia se retirar, quando ela disse: você tem apenas um minuto para me convencer: tic-tac... tic-tac... tic-tac...
— A propósito sou Tim — ele se apresentou.
— É... estou vendo. Eve ignorou a mão que Tim lhe estendia.
— Desculpe — disse o moço meio sem jeito. Talvez não quisesse ser incomodada...
— Era esta minha intenção, até você aparecer. Tim engoliu em seco. Ele começava a ficar nervoso. O pior era que o relógio não estava colaborando.
— Agora você só tem 30 segundos. Uma friagem subiu pela espinha do rapaz. Ele não podia esperar. Começou a tamborilar com os dedos sobre a mesa como se esta fosse a tarefa crucial para a qual fora chamado. Os olhos estavam fitos em Eve e no copo de bebida já quase terminado. Ele via de relance os olhos dela que brilhavam de uma forma que jamais tinha visto numa mulher. Era um brilho que denotava toda expectativa em torno de algo que talvez nem chegasse a acontecer. Ainda em pé, ele especulou se aqueles olhos inexpressivos já haviam amado alguém. Do outro lado da mesa, Eve se perguntava se aquele moço tinha sensibilidade bastante para lidar com pessoas temperamentais. Tic-tac... tic-tac... Novamente foi Eve quem deu o ultimato:
— Seu tempo está se esgotando. Veio até aqui para ficar tamborilando na mesa, é? Poderia fazer isso lá mesmo — disse a moça com determinação. Ele pareceu se assustar, mas não se ofendeu. Deu uma arrumada na camisa e respirou fundo, buscando no âmago a voz da inspiração. Olhou para Eve e começou a rir. Ela o acompanhou. De repente as risadas cristalinas ecoavam pelo salão da lanchonete. Nenhum dos dois sabia do que o outro estava rindo, simplesmente riam. Um riso adolescente. A moça já não tinha aquela atitude autoritária. Quando a crise desvaneceu, a moça concedeu:
— Sente-se. Sou Eve. Ela enxugava os olhos com a manga da blusa.
— É... eu já sabia sua boba.
— Como sabia? Por acaso eu lhe disse meu nome sem perceber?
Não. É que está escrito aí na sua identificação — ele apontou e levou a mão à boca para conter uma risadinha de escárnio. Estava vingado. Ela olhou para si e ficou com as faces apimentadas. Afinal, ela não gostaria que fosse pega de surpresa novamente. Ele riu do embaraço dela.
— Estamos quites agora — brincou. Eve achou que aquele moço poderia ser uma companhia agradável. Afinal, ela já estava cansada de usar aquela máscara de arrogância. Pensando nisto, ela relaxou um pouco a vigilância e insinuou um biquinho:
— Não acredito que está rindo às minhas custas! Não gosto disso.
— E o que vai fazer? Vai mandar me prender, generala?
— Ainda não. Penso muito antes de tomar qualquer atitude, ou dizer alguma coisa. Não gosto de me arrepender depois.
— E se o fizer?
— Se eu me arrepender de algo que fiz e que foi contrária à minha vontade... sabe... eu sofro muito, fico profundamente deprimida.
— Acha isto um defeito ou uma virtude? O moço tinha o domínio da situação agora.
— Isto é muito relativo. As pessoas que não me conhecem dizem que sou muito séria.
— E não é? — Tim era rápido na argumentação. Não lhe deu chance de concluir o pensamento.
— Claro que sou séria, mas não sou nenhum general — desabafou. Às vezes tenho atitude de um general. Aliás, toda mulher gosta de ser obedecida.
— Aaaaahhhh! — Ironizou. Ela riu e continuou. Adotamos a prática de treinar nossos parceiros para que eles obedeçam aos nossos comandos sem reclamar.
— Ah! Um homem-robô! — disse com desdém.
— Não! Um homem funcional é uma virtude rara — rebateu. Nós, mulheres não queremos mais do que isto. Só que os homens não nos entendem. Aí temos que desenhar. Eve tinha um sorriso enigmático nos lábios, enquanto o moço tamborilava na mesa. Naquela noite, na cama, Tim pôde comprovar o alcance das palavras de Eve: administrar um homem é apenas uma questão de saber o que se espera dele.
[1] Jonan de Castro Reis é poeta, contista e romancista. Membro da Alesg – Academia de Letras do Extremo Sudoeste de Goiás, membro da Associação Internacional de Poetas del Mundo, Cônsul de Poetas del Mundo (Entorno de Quirinópolis), membro da Academia de Letras do Brasil.
Autor de Arremedo: Contos & Lorotas (122 pp), Marcas do Infortúnio (322 pp).
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