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quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

DESPEDIDA


J. Castro[1]

Parta! Não é isto o que quer?
Se não for pedir demais
Peço-te para não chorar
Tuas lágrimas não me comovem mais
Sei que o juramento foi quebrado
Em prol de uma sentença que era somente tua
Cessaram-se os beijos ardentes
Os abraços outrora calorosos não aquecem jamais
O cheiro almiscarado de tua pele
Esvaiu-se como vapor ao calor do sol da manhã
Tributou-se o riso espontâneo
E alforriou-se o pranto
Meu coração de Jônatas, tão apegado a Davi
Despedaçou-se como cristal
Mas não lhe guardo rancor
Apenas a lembrança do quanto
Significou em minha vida.
Vá!











[1] REIS, Jonan de Castro. Poeta, contista e romancista. Membro da Academia de Letras do Brasil – ALB, membro da Academia de Letras do Extremo Sudoeste de Goiás - ALESG, Cônsul Poetas del Mundo, Entorno de Quirinópolis.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

DESILUSÃO!


Danúbia Rodrigues[1]


O ar frio da noite
Calmo e sereno
Fere-me como um açoite
Tua lembrança me envenena
Tuas palavras outra hora ditas,
Hoje tão longe
Fez-me pessimista
Chego a acreditar que esconde
A verdade fria e cruel
Daquilo que para mim foi real
Tu me prometeste o céu
Mas foste apenas banal
Há quanto tempo venho sorrindo
Já sem nenhum brilho no olhar!
Venho-me sentindo assim
Simplesmente por te amar.




[1] RODRIGUES,  Danúbia. Poema criado em 2002.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

A MISSÃO DE GABRIEL


J. Castro[1]

— Gabriel! — chamou.
— Sim. Gabriel estava em pé, de cabeça baixa, em sinal de respeito. O ancião continuou:
— Chegou a hora. Lembra daquele pacote?
— Sim.
— Vá! Encontrará tudo o que precisa num envelope pardo por fora da caixa. Ele aquiesceu. Ao virar as costas para partir, o ancião o advertiu:
— Leve também a sua capa.
— Sim, senhor — ele respondeu e partiu.
A noite não estava de todo fria, porém chovera torrencialmente desde o anoitecer. A cidade de São Paulo sugeria a arca de Noé em proporções gigantescas, aguardando o momento certo para flutuar em sua base e deslizar serenamente rumo ao monte de Ararat. Mas agora a chuva cessara quase por completo, o bastante para que o condutor do veículo parado em frente à garagem de Emma abrisse a porta do carro e saísse. Possuía uma compleição avantajada para os seus trinta e oito anos, aproximado. A pele negra se fundia com o terno que ele usava sobre uma camisa de cor palha. A gravata de poliéster possuía listras transversais nas cores vermelha e palha que, em conjunto com a vestimenta e os sapatos transmitiam ao observador atento a segura impressão de fino gosto. O homem e a roupa formavam uma combinação de beleza e muito bom gosto na escolha dos acessórios.
Emma trabalhara até mais tarde no jornal e só agora, quase meia noite é que ela conseguia chegar à sua casa, desviando-se das ruas alagadas pela enxurrada que descia dos morros violentamente, em busca dos bueiros transbordantes de espuma e entulhos. Sua filha, Florisbela (como grande parte dos filhos das mulheres independentes), tinha ficado com a avó materna, até que ela voltasse do trabalho com um abraço de muita saudade pelo dia todo fora de casa. Era uma compensação ansiosamente esperada por ambas. Emma virara a esquina da sua casa, uma música clássica no som de seu carro. Mas, ao ver outro veículo parado do outro lado da rua ela passara direto, como medida de precaução. Aliás, esta é uma prática fundamental para sobreviver em grandes centros urbanos onde grassa a violência. Ao notar algo estranho ou alguém desconhecido em atitude suspeita, a prudência ensina a dar a volta ao quarteirão. Porém, se desconfiar de algo é melhor ligar para a polícia a correr o risco de cair em uma emboscada. A cidade de São Paulo não deixava nada a desejar em se tratando de violência.
Vendo aquele veículo parado, o primeiro pensamento que lhe viera à mente foi se sua filha estaria bem. Seria isto um mau pressentimento, ou apenas fantasia da sua cabeça? Ela admitiu que estivesse necessitando de umas férias. Pensando assim, ela dera a volta ao quarteirão e, ao chegar à mesma esquina ela viu que o homem havia descido do carro e já abria a porta traseira do furgão. O coração da moça disparou, na medida em que ela tirava o pé do acelerador, pronta para saltar. Era um negro de ombros largos, alto e forte. Algo não estava certo.
Emma ficou dividida entre passar devagarzinho espiando ou enfrentar o perigo para se certificar que sua filha não corria perigo. Mas a prudência a fez parar a uma distância segura e aguardar. Fosse o que fosse ela ainda tinha a segurança do seu carro. No entanto, como não havia mais ninguém por ali, não era sensato ficar esperando por não se sabe o quê. Ela precisava se movimentar.
Quando ela ia engrenar a marcha, algo lhe chamou a atenção. O homem ergueu em seu ombro um pequenino ataúde de madeira, revestido com uma mortalha branca. A brancura do tecido contrastava com a cor da cútis do homem que conduzia o pequeno caixão. Todos os pensamentos de Emma se voltaram agora para a cena tétrica que se descortinava ali, bem à sua frente. Na incerteza de sua própria existência, a moça especulou para quem seria aquele pequeno ataúde, se para um menino ou menina. Quem seria a mãe daquela flor ainda em tenro botão.  Ela nem sequer sabia se havia alguma mulher grávida por ali. Emma deixou de lado esses questionamentos, ao constatar que em cidades grandes, como São Paulo, ninguém tinha tempo de conhecer o vizinho do mesmo lote, ou apartamento, muito menos de outra quadra. No entanto, ela se lembrou que do outro lado do campinho de futebol havia uns casebres improvisados, que ela chegara a duvidar se resistiria a mais uma chuva daquelas, ou se ainda morava alguém dentro deles. O personagem do furgão fechara a tampa traseira e saiu andando com passos firmes rumo àquele amontoado de casas, levando aos ombros o pequeno caixão. Emma correu a abraçar a sua filha e voltou a espiar pela janela. Em momento algum ela vira o homem fazer muxoxo, ou rezar algum impropério devido ao mau tempo. Ao contrário, sua boca insinuava um leve sorriso. Apesar do caixão, notava-se que ele não era agente funerário, pois muitos agentes possuem cara de coiote. A chuva havia engrossado sobremaneira, como que querendo impor sua presença, mas ele tinha um olhar determinado, como o olhar de quem tem uma missão muito importante a cumprir e o faz com o devido respeito para com aquele que o ordenou. O homem desapareceu por detrás de uma das traves do campo de futebol. Parecia que carregava nos braços musculosos um valioso presente.
A porta da casa era feita de plástico grosso para impedir a passagem do vento úmido. Era a embalagem aberta de ração para cães, pregada num portal rústico de madeira. No centro da porta de plástico havia a cara feliz de um cão, com certeza de uma família rica. O quase sorriso do cão contrastava com a miséria estampada na face dos habitantes daquele casebre. O homem estava em pé, em atitude de respeito quando a porta de plástico foi aberta para um lado. Bem vestido, o negro meneou a cabeça em cumprimento e entrou agachado naquela choça, carregando nos braços o pequeno caixão. Todos se levantaram.
Em volta de uma pequena mesa jazia o corpo minúsculo e nu de uma menina recém-nascida. A mãe tinha em volta dos olhos e nos braços as marcas da violência que sofrera do brutamonte que ela chamava de marido e que aquela menina chamaria de pai. Não fosse a fatalidade, aquela desafortunada menina não poderia jamais escapar dessa dura realidade. Por certo o tempo curaria também essa chaga.
— Posso? — perguntou o homem à guisa de permissão.
As poucas pessoas que se encontrava ali se afastaram para que o homem fizesse o seu trabalho. Do pequeno caixão, ele tirou um macaquinho cor-de-rosa, uma carapuça e um par de sapatinhos impecavelmente limpos. Vestiu a roupinha no bebê com uma perícia digna de uma supermãe e o depositou carinhosamente no pequeno caixão, como se temesse despertá-lo do sono. Passou sua enorme mão no rosto daquele pequeno anjo e sorriu, afastando-se para que os familiares pudessem se aproximar. Alguns minutos depois, o homem perguntou com muito tato:
— Já posso fechar? Os familiares assentiram. Ele colocou a tampa no pequeno ataúde e levantou-o aos ombros. A chuva caía com vigor, inundando as ruas, o campo de futebol, tudo. Gabriel não se importava. Afinal, ele havia cumprido a missão que lhe foi determinada.
Emma ainda se lembra como se fosse hoje. É só ela fechar os olhos que ela vê um anjo negro, de ombros largos e um sorriso desenhado nos lábios, segurando pela mão uma menina de cabelos cacheados que ele chamava de Rafaela.


[1] REIS, Jonan de Castro. Poeta, contista e romancista. É autor de Arremedo: Contos & Lorotas (122 pp.) e de Marcas do Infortúnio (332 pp.). Membro da Academia de Letras do Brasil – ALB, membro fundador da Academia de Letras do Extremo Sudoeste de Goiás, membro da Associação Internacional dos Poetas del Mundo e Cônsul dos Poetas del Mundo, Entorno de Quirinópolis.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

CASTELO DE ROMA

Uma...
Duas...
Três...
Quatro
pedras
preciosas:
Um castelo.

       Rubi — é o cintilar ambicioso dos olhos da águia;
       Ouro — caviar deglutido pelos astros da política;
      [Es] Meralda — lente dos olhos da meretriz;
        Ametista — mortalha que encobre a sua nudez.

Quatro rajadas,
Quatro ventos,
Quatro pedras se desprendem;
Ei-lo com o telhado onde se assentam os pés:

Ambição — alicerce que fundamenta o poder;
Mentira — a semente que fecunda a falsa democracia;
Orgulho — a couraça que protege os soberbos;
Raiva — néctar que fomenta as serpentes aladas.

Monstros que planam ao sabor do vento
Ventos que assopram
Pedras que caem
Edifícios que se desmoronam.
Ruínas...
Restos do que foi
Castelo de um grande amor!


REIS, Jonan de Castro. Poeta, contista e romancista. Autor de Arremedo: Contos & Lorotas (2009, 122 pp.) e Marcas do Infortúnio (2010, 322 pp.) (romance).

domingo, 28 de novembro de 2010

OLHANDO NOS OLHOS

J. Castro[1]


Seus olhos sublimes
Estão fitos nos meus:
Indecifráveis enigmas
Se ocultam em suas pupilas.
Tenho o pressentimento de que
O céu foi inspirado
Nesse oceano de pura magia e sedução. 
As nuvens baças que encobrem
O seu rosto ousado
Foram dissipadas por encanto;
Os olhos fulgentes
Refletem o rubor de suas faces.
Afago os seus cabelos,
Mordisco o lóbulo de suas orelhas.
Os arrepios de seu corpo fazem
Renovar a minha juventude.
[...]?
Os céticos têm razão:
“O céu não é real”.


[1] REIS, Jonan de Castro. Poeta, Contista e Romancista. Membro da ALESG – Academia de Letras do Extremo Sudoeste de Goiás, membro da ALB – Academia de Letras do Brasil, membro de Poetas del Mundo e Cônsul de Poetas Del Mundo, Entorno de Quirinópolis. Autor de Arremedo: Contos & Lorotas (122 pp.) e do romance Marcas do Infortúnio (322 pp.).

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

A LIÇÃO DO MESTRE


J. Castro[1]

Do alto de seu galho ensebado
Uma ave de rapina provoca o mestre sabiá:
Veja lá as pernas finas daquele “beija-flor”.
Haja flor, haja flor!
O maestro pára a batuta diante de tão grande pequenez
E, do fundo da alma,
Beethoven busca na partitura a voz que faz o louco pensar:
Eu quisera ser abelha pra pousar de flor em flor
Haja flor, aja amor!
Da pureza de seu néctar, os deuses evocam o seu sabor,
Haja amor, aja amor!
Vivo cada momento como se fosse o último.
Canto para os náufragos do Titanic,
Canto por cada semente que germina,
Mas choro por cada árvore que cai.
Sinto as pessoas que amo como se há muito não as sentisse,
Digo-lhes adeus como se jamais as fosse ver.
E, fazendo um trinado em sol maior, o mestre completou:
Viva em paz, pois a nenhum abutre guardo rancor.
Haja amor, aja amor!
Oh! — Tentou se redimir, esticando o pescoço.
Eu devia ter...
— Cala-te, não quero ouvir as lamúrias do seu epitáfio.


[1] REIS, Jonan de Castro. Poeta, contista e romancista. Membro da Academia de Letras do Extremo Sudoeste de Goiás - ALESG, membro da Academia de Letras do Brasil – ALB, membro da Associação Internacional de Poetas del Mundo e Cônsul Poetas del Mundo, Entorno de Quirinópolis. Autor de Arremedo: Contos & Lorotas (122 pp) e do romance Marcas do Infortúnio (322 pp).

terça-feira, 23 de novembro de 2010

GENERAL DE SAIA


REIS, Jonan de Castro[1]


— Olha que classe! — disse um moço ao seu companheiro.
— Parece comandante de tropa militar! — foi o comentário do outro. Era o bastante para que ninguém se arriscasse a flertar com aquela fera indomável.
Eve era muito determinada. Ao longo daqueles cinco dias, muitos cochichavam à meia voz como ela fazia sexo, ou mesmo se o fazia. A verdade era que a moça dificilmente era vista em companhia dos vários rapazes que faziam parte daquele evento, muito menos enturmada com aquelas garotas barulhentas que pareciam se divertir, insinuando para os homens casados. Elas diziam que preferiam os homens casados a rapazes solteiros, pois aqueles eram mais discretos, enquanto estes gostavam de contar vantagem.
Vários quilômetros de rodovia esburacada separavam aqueles sofredores de seus pares, tais como cônjuges e namorados. Poucos ali eram conhecidos uns dos outros, o que os deixavam vulneráveis à tentação de um flerte. Qual é!... Terminado aquele evento, cada um voltaria para o seu mundo e ninguém jamais tocaria no assunto. Tudo era uma questão de momento. Eve não pensava assim. Especulavam se a falha estava nela ou nos homens que não sabiam lidar com pessoas temperamentais. Ou será que ela calçava 44? — insinuavam maldosamente. O público era composto especificamente por vendedores autônomos e supervisores de vendas, galhofeiros por força do ofício.
Mas até hoje há quem se lembre daquele episódio: Eve estava sentada entre dois colegas de curso e o palestrante se arrastava monotonamente, esforçando-se para angariar a atenção do auditório. O dia tinha sido muito puxado, mas agora já se encontrava nos minutos finais do curso. A turma decidiu esticar até mais tarde para folgarem na manhã seguinte. Só mais um pouco e todos poderiam tomar um merecido banho ou então, quem quisesse poderia ir a um barzinho. As luzes do auditório foram apagadas, somente a luz do datashow se mantinha acesa, o que dava a falsa ideia de um cinema. Dois jovens cochichavam na cadeira logo atrás. Pela forma que riam e o jeito que se tocavam, dava a impressão de que eram “flex”, como se diz na gíria moderna. Outro colega flertava com a vizinha do lado, como forma de driblar o tédio.  O orador se esforçava para manter a platéia interessada:
— “Como se sabe, a crise de 1929 foi um dos maiores choques que a economia mundial já atravessou. Após a quebra da Bolsa de Valores, o governo assumiu uma postura intervencionista na Economia, regulando a produção e fixando limites para preços e salários”. Era demais para Eve que acabara de defender dissertação de mestrado em Administração e Comércio Exterior. Ela remexeu-se na poltrona, inquieta e inclinou-se para trás no sentido de aliviar a tensão do pescoço. Isto fez com que baixasse a guarda, ao que um de seus companheiros de assento passou a mão, deliberadamente em sua coxa. Afinal, ele estava excitado demais vendo o casal ao lado se tocar. Eve se levantou de um salto, chamando a atenção de todo o auditório. O próprio orador parara a explanação e agora observava a cena com muito interesse. A moça fitou os olhos do descarado e, plantando a mão espalmada com toda a força em seu rosto, ela disse simplesmente:
— Você pediu cavalheiro! — e passou por ele com o queixo aprumado. O auditório prorrompeu em gostosas gargalhadas. Ele chegou a olhar para o chão e para os lados procurando, talvez, um buraco onde pudesse se esconder. Eve desfilou valentemente pelo longo corredor do salão, como se estivesse passando a tropa em revista; ora fixava o olhar numa ala, ora na outra, sem demonstrar nenhuma expressão. Mas agora, ao sair do lado de fora da sala ela precisava de uma bebida forte para se recompor, senão derreteria em lágrimas. Mas chorar estava fora de cogitação. A lanchonete situada do outro lado da avenida chamou-lhe a atenção. Era um local tranquilo e bem arejado. Ela sentou-se à mesa do canto e chamou o garçom com a urgência que lhe era peculiar.
— Uísque duplo com soda e gelo — ela ordenou. Ele saiu apressadamente para voltar logo depois com o pedido.
— Mais alguma coisa, senhorita?
— Não. Agora só quero ficar sozinha. O homem abandonou a mesa, amaldiçoando o dia em que fora chamado para fazer teste de garçom naquela lanchonete. Mas, apesar das inconveniências ele gostava do que fazia. O difícil mesmo era entender as atitudes de certas pessoas, mas que se ferrassem! Ele nunca se preocupou em entender psicologia, mesmo!... Não seria agora que iria se preocupar, não? Sua mente foi suavizada com os atendimentos a outros clientes menos problemáticos, principalmente as duas lindas moças da mesa 20.
Mas, ao passar por uma mesa perto da porta de entrada ele percebeu que não seria tão fácil para um garçom se livrar dos problemas alheios. O cliente o chamou e pediu-lhe que entregasse uma encomenda na mesa daquela moça arrogante. Ele relutou consigo mesmo, mas acabou sucumbindo. A gorjeta valia a pena. Momentos depois ele reaparecia à mesa de Eve, trazendo na bandeja um suco de açaí com polpa de morango e um pequeno cartão feito às pressas com guardanapo.
— Cortesia do cavalheiro da mesa 5, senhorita. Ele aguarda resposta. Ela leu: Você não precisa de farda para ser uma autêntica generala. Há espaço para você no meu Regimento”.
A moça pensou em ignorar, mas seria pouco educado de sua parte. Afinal, que mal havia em se conhecerem? — perguntou-se. Talvez ele não fosse tão pretensioso. Já um pouco animada pelo efeito do uísque ela respondeu:
— Muito obrigada. Mas, queira se identificar pessoalmente. Não costumo tratar com estranhos — foi a resposta. Ela não podia se descuidar novamente. Quando o garçom se retirou a moça pegou o cartão outra vez. Um observador “antenado” teria notado que a sombra de um sorriso insinuara em sua boca. Eve era durona, mas se devidamente conquistada ela se transformava em gelatina. Como ela mesma dizia, “quando gosto de uma pessoa sou capaz de carregar água no jacá”. Ela dobrou o guardanapo novamente. Foi o tempo preciso para se recompor.
— Posso? — fez o moço, apontando o assento da cadeira. Ele tinha o crachá pendurado ao pescoço por um fino cordão de nylon.
— Posso recusar? — ela contra-argumentou.
— É um direito seu. Ele já ia se retirar, quando ela disse: você tem apenas um minuto para me convencer: tic-tac... tic-tac... tic-tac...
— A propósito sou Tim — ele se apresentou.
— É... estou vendo. Eve ignorou a mão que Tim lhe estendia.
— Desculpe — disse o moço meio sem jeito. Talvez não quisesse ser incomodada...
— Era esta minha intenção, até você aparecer. Tim engoliu em seco. Ele começava a ficar nervoso. O pior era que o relógio não estava colaborando.
— Agora você só tem 30 segundos. Uma friagem subiu pela espinha do rapaz. Ele não podia esperar. Começou a tamborilar com os dedos sobre a mesa como se esta fosse a tarefa crucial para a qual fora chamado. Os olhos estavam fitos em Eve e no copo de bebida já quase terminado. Ele via de relance os olhos dela que brilhavam de uma forma que jamais tinha visto numa mulher. Era um brilho que denotava toda expectativa em torno de algo que talvez nem chegasse a acontecer. Ainda em pé, ele especulou se aqueles olhos inexpressivos já haviam amado alguém. Do outro lado da mesa, Eve se perguntava se aquele moço tinha sensibilidade bastante para lidar com pessoas temperamentais. Tic-tac... tic-tac... Novamente foi Eve quem deu o ultimato:
— Seu tempo está se esgotando. Veio até aqui para ficar tamborilando na mesa, é? Poderia fazer isso lá mesmo — disse a moça com determinação. Ele pareceu se assustar, mas não se ofendeu. Deu uma arrumada na camisa e respirou fundo, buscando no âmago a voz da inspiração. Olhou para Eve e começou a rir. Ela o acompanhou. De repente as risadas cristalinas ecoavam pelo salão da lanchonete. Nenhum dos dois sabia do que o outro estava rindo, simplesmente riam. Um riso adolescente. A moça já não tinha aquela atitude autoritária. Quando a crise desvaneceu, a moça concedeu:
— Sente-se. Sou Eve. Ela enxugava os olhos com a manga da blusa.
— É... eu já sabia sua boba.
— Como sabia? Por acaso eu lhe disse meu nome sem perceber?
Não. É que está escrito aí na sua identificação — ele apontou e levou a mão à boca para conter uma risadinha de escárnio. Estava vingado. Ela olhou para si e ficou com as faces apimentadas. Afinal, ela não gostaria que fosse pega de surpresa novamente. Ele riu do embaraço dela.
— Estamos quites agora — brincou. Eve achou que aquele moço poderia ser uma companhia agradável. Afinal, ela já estava cansada de usar aquela máscara de arrogância. Pensando nisto, ela relaxou um pouco a vigilância e insinuou um biquinho:
— Não acredito que está rindo às minhas custas! Não gosto disso.
— E o que vai fazer? Vai mandar me prender, generala?
— Ainda não. Penso muito antes de tomar qualquer atitude, ou dizer alguma coisa. Não gosto de me arrepender depois.
E se o fizer?
Se eu me arrepender de algo que fiz e que foi contrária à minha vontade... sabe... eu sofro muito, fico profundamente deprimida.
Acha isto um defeito ou uma virtude? O moço tinha o domínio da situação agora.
Isto é muito relativo. As pessoas que não me conhecem dizem que sou muito séria.
— E não é? — Tim era rápido na argumentação. Não lhe deu chance de concluir o pensamento.
— Claro que sou séria, mas não sou nenhum general — desabafou. Às vezes tenho atitude de um general. Aliás, toda mulher gosta de ser obedecida.
— Aaaaahhhh! — Ironizou. Ela riu e continuou. Adotamos a prática de treinar nossos parceiros para que eles obedeçam aos nossos comandos sem reclamar.
— Ah! Um homem-robô! — disse com desdém.
— Não! Um homem funcional é uma virtude rara — rebateu. Nós, mulheres não queremos mais do que isto. Só que os homens não nos entendem. Aí temos que desenhar. Eve tinha um sorriso enigmático nos lábios, enquanto o moço tamborilava na mesa. Naquela noite, na cama, Tim pôde comprovar o alcance das palavras de Eve: administrar um homem é apenas uma questão de saber o que se espera dele.



[1] Jonan de Castro Reis é poeta, contista e romancista. Membro da Alesg – Academia de Letras do Extremo Sudoeste de Goiás, membro da Associação Internacional de Poetas del Mundo, Cônsul de Poetas del Mundo (Entorno de Quirinópolis), membro da Academia de Letras do Brasil.
Autor de Arremedo: Contos & Lorotas (122 pp), Marcas do Infortúnio (322 pp).

domingo, 21 de novembro de 2010

COMPETIÇÃO BELICOSA

(REIS, Jonan de Castro[1])

Desde os primórdios da humanidade os seres se confrontam ferrenhamente, buscando sua hegemonia frente ao universo até então considerado machista. O Espírito luta contra a carne, a Luz arranca faísca das trevas, o Dia procura suplantar a noite, numa luta sem tréguas. É uma guerra constante, em que não se sabe se quem vence é mesmo o vencedor. Se em Camões o amor é chama que arde sem se ver —, na cama, chifre é uma ferida que dói e não se sente. Esse paradoxo se explica porque o homem é de fogo, mas a mulher é de estopa; o tinhoso só faz assoprar o seu hálito inflamável.
Mas foi com a Revolução Francesa que a mulher se libertou das amarras que a prendiam ao bicho-homem e a competição se ampliou em todos os níveis sociais. Não é de se admirar que a competição comece logo na zona rural e se alastre como pólvora para as grandes metrópoles: Se no campo o sapo vira príncipe, na cidade a mulher logo vira perereca para pular em cima dele. Se o homem mostra uma cobra, mais que depressa a mulher já segura o pau. Com isso, as mulheres ganham mais e mais espaço entre si.
No comércio, a situação ainda é mais intrigante: Se a mulher dá um troço, logo o homem dá o troco, numa competição desenfreada. E essa competição é tamanha que se embrenha para o ramo do esporte. Enquanto o homem se esforça para fazer cooper, a mulher parece ter nascido de cooper feito. Na arena o homem é cavaleiro, mas a mulher amazona. Enquanto o cowboy desfila seu puro sangue na pista, a cowgirl esbanja seu puro encanto na passarela. O homem arregaça as mangas no ringue, a mulher arreganha as pernas no ar e o nocaute é inevitável. No entanto, é no âmbito social que a mulher faz mesmo a diferença: Se entre os homens há no caminho uns desviados, entre as mulheres é a reta que se disputa. Sem contar que na política, o homem sonha em virar senador, mas a mulher já nasce deputada.
Ora, ora! Mas estamos em pleno século XXI e todos os preconceitos foram lançados por terra. Por força dessa nova visão idealista, o papel social foi invertido de forma extremamente lúdico. O que de dia era João, de noite virou Maria; até a filha de Julieta ficou noiva da filha de Beth. Porém, a revolução parece que aconteceu ontem. A Cortina de Ferro acaba de ser rompida: agora o homem pode circular livremente além da fronteira com a Tcheca.
Mas, para quem ainda não sabe, guarde este segredo: No salão de beleza a mulher é sempre rainha. Ela prefere escova de cabelos curtos, mas há homens que adoram fazer um penteado.


[1] REIS, Jonan de Castro. Romancista, poeta e contista. É autor de Arremedo: Contos & Lorotas (Kelps, Goiânia, 2009, 122 pp.) e Marcas do Infortúnio (Kelps, Goiânia: 2010, 322 pp.).

POR TRÁS DOS BASTIDORES...

             Eu vi, mas se me perguntarem eu nego até a morte. Corria a década de 90 e o povo de Muamba se preparava para eleger o prefeito, seus vereadores e seus representantes no Parlamento. A cidade fervilhava de cabos eleitorais de todos os partidos, mas como acontece em cidades interioranas, havia dois grupos que se destacavam, inclusive pela cor das camisetas. A rivalidade entre os dois partidos era notória e construiu, ao longo do tempo, a marca tradicional da cidade de Muamba: discussões, brigas, mortes, atraso econômico, desemprego, perseguição política e muitas outras inconsistências, dignas de paixão partidária. A oposição era tão grande que a cidade possuía duas datas de aniversário. Tudo dependia do partido que estava no poder. Era possível assistir até brigas entre casais por antagonismo partidário. Uma bobagem! Pior mesmo era para um cidadão considerado livre pela Constituição ser obrigado pela própria Constituição a participar dessa farofa em nome de uma falsa democracia.
Para Téo, a contradição da Carta Magna se consolidou numa certa manhã em forma de convocação da Justiça Eleitoral para servir como escrutinador na Mesa Apuradora de Votos. Ele especulou o que seria escrutinador, mas, como haveria uma reunião para esclarecimentos, ele preferiu esperar. Seus colegas de trabalho lhe perguntavam interessados se ele havia sido convocado para as eleições, e ele dizia que ia ser escrutinador.
— Escruti o quê? — perguntavam entre divertidos e ignorantes.
— Es-cru-ti-na-dor — soletrou, separando bem as sílabas. Mas, só depois da reunião de esclarecimentos é que ele ficou sabendo que o personagem agraciado pela Justiça Eleitoral não passava de um mero digitador. Afinal, estávamos vivendo o início da era tecnológica. É que os juízes eleitorais têm mania de colocar apelido nas funções menores, uns termos técnicos, estranhos, talvez até inventados na hora. Téo até hoje defende que isto é uma forma de ludibriar ou mesmo de atrair o coitado do eleitor para ele sentir-se envaidecido e trabalhar de graça, sem se queixar. É uma estratégia que “massageia o ego”, enquanto a tropa vai sendo explorada, feliz da vida...
Já existia uma central eletrônica nas capitais para apuração de votos, mas em algumas cidades do interior do Estado (como era o caso de Muamba) utilizavam-se urnas semi-eletrônicas, em outras ainda prevalecia a contagem manual. Embora a apuração tivesse de ser feita voto a voto, cédula por cédula, pelo menos o escrutinador podia contar com a máquina eletrônica para ter direito a um boletim por candidato. Era o chamado Sistema Cantado, em que se fazia a contagem manual dos votos e “cantava” a quantidade para o escrutinador que, por sua vez, digitava na máquina eletrônica sob o olhar de águia dos delegados de partidos, dos fiscais encrenqueiros, dos candidatos inescrupulosos, dos repórteres e de um sem-número de outros curiosos e técnicos, todos identificados com crachás que pendiam de suas camisas ou ternos suados. A sala de apuração parecia o pandemônio da bolsa de valores. Todos falando ao mesmo tempo. O trabalho do escrutinador consistia em receber a “cantada” do voto e digitalizá-lo na máquina eletrônica.
Por determinação da Justiça Eleitoral foram instaladas vinte mesas apuradoras, compostas por quatro pessoas: o presidente, o primeiro secretário, segundo secretário e o escrutinador. Dessas vinte equipes fragmentava outra equipe com poderes especiais para dirimirem as dúvidas oriundas dos votos impugnados, suspeitos, composta por quatro presidentes — dos quais um era o presidente da mesa em que Téo trabalhava —, mais o meritíssimo Juiz Eleitoral, que tinha a nobre função de definir a questão, em caso de empate. Era a Suprema Corte Eleitoral.
Era um ambiente estritamente seguro e sigiloso. Quando o presidente levantava para apanhar a sacola de votos, este era acompanhado por um policial e um fiscal de cada partido. E olha que a distância entre a mesa e o local das sacolas era de pouco mais de três metros. Quando se conversava com o colega de mesa, tinha de fazê-lo em voz alta para que os fiscais pudessem saber do que se tratava. Não tinha como fazer fraude, pois a segurança era absoluta. Um dos candidatos a prefeito chamava-se João Fernandes, apelidado “Branco”, e o outro se chamava Nélio. Eram inimigos cordiais: publicamente, chegavam a tomar cerveja na mesma mesa, mas em plenário eram arquiinimigos políticos.
Agora ali estavam todos atentos para a abertura da primeira urna, especulando-se de quem seria o primeiro voto. O secretário apanhou a cédula, olhou-a cuidadosamente, depois a repassou para o presidente, que a examinou sob os olhares de, no mínimo, cinco pessoas. Só então ele ‘cantou’ o voto:
— João Fernandes — um voto. Téo digitou: zero um e teclou no verde para confirmar. A imprensa informou aos curiosos do lado de fora e, lá de dentro, ouviu-se um tremendo espocar de fogos de artifício. E a apuração transcorreu sem novidades. A mesa estava apurando a segunda urna e, nela havia quatorze votos brancos. O presidente “cantou”:
— Branco — quatorze votos. Téo apertou a tecla branca e aguardou a confirmação do presidente para finalizar. Foi então que o fiscal simpatizante do candidato atacou:
— Tão votando no Branco. — Quatorze votos para o Branco. O escrutinador ficou indeciso, esperando ordem do presidente da mesa. Ele repetiu:
— Quatorze votos brancos — enfatizou. Téo finalizou.
— Eu impuguíno — gritou o fiscal, levantando o braço e acentuando bem a sílaba gui. Houve muito alvoroço. O juiz foi chamado e viera apressado para se inteirar do assunto.
— Na verdade, parece haver certa ambiguidade — admitiu. Subtende-se que os eleitores quiseram votar no candidato “Branco”, mas para que não haja nenhuma suspeita quanto à seriedade da eleição, vou recorrer à votação da questão pela Corte.
Ninguém contestava o que a Corte decidia. João Fernandes registrara o apelido, talvez pensando nessa possibilidade — Téo refletiu. Inclusive, na reta final da campanha, ele lançara um panfleto com um apelo bem sugestivo: — “Não vote nulo. Vote em Branco”. E agora estava colhendo os frutos de seu “maravilhoso” e “limpo” trabalho.
O adversário ficara muito preocupado, pois a incidência de votos brancos era muito grande. Téo viu quando o delegado do partido, os fiscais e o outro candidato se reuniram, cochichando. O contra-ataque foi articulado enquanto a decisão ainda estava sendo votada pela Corte. O juiz aproximou-se de uma mesa, as cédulas presas em uma pequena prancheta e recitou a questão:
— Para quem é o seu voto? — perguntou. O presidente examinou as cédulas, piscou miúdo, olhou novamente as cédulas, uma a uma. O juiz estava em pé, esperando. De repente, o olhar do presidente cruzou com o do fiscal que levantara a questão. Foi apenas um gesto sutil. Com dois dedos.
— Para o Branco — disse. O juiz anotou o voto e caminhou para outra mesa.
— Seu voto? — perguntou, após recitar o motivo da impugnação.
— Branco — respondeu o presidente.
— Votos em branco ou para o Branco? — insistiu o juiz. Eleição é coisa séria e a responsabilidade de um juiz é muito grande; por isso, o cuidado com a ambiguidade — Téo ponderou.
— Votos brancos — confirmou. O juiz anotou e passou para outra mesa, até que chegou à mesa de Téo com a decisão democrática do Colegiado:
— Quatorze votos para o “Branco” — sentenciou o juiz. Uma vez dado o veredicto, não se falava mais naquilo. Se o juiz batera o martelo, acabara a discussão. Só restava preencher uma ocorrência e consertar o erro. Todos na mesa, o juiz e os fiscais assinavam, dando autenticidade ao documento. Téo sentia asco daquilo, mas afinal, estava cumprindo apenas um dever cívico.
Mas, após esse incidente tudo passou a valer. Os candidatos e os fiscais perderam o senso de cidadania e ética, cada qual procurando uma melhor oportunidade para nocautear o adversário. E a revanche veio mais cedo do que Téo imaginava — fruto da reunião de emergência da oposição.
Inconformados com o partidarismo apaixonado e com a falta de proposta dos candidatos majoritários, muitos eleitores haviam protestado, escrevendo nas cédulas: Nulo. Mais de cinco urnas haviam sido apuradas quando o outro candidato a prefeito percebeu que estava sendo lesado e orientou a sua equipe de mesa em mesa para ficarem atentos. Só então ele voltou para perto da mesa de Téo. Foi ali onde tudo começou. Parecia que sua sorte estava ali. Os votos foram contados e o presidente cantou para o escrutinador:
— Oitenta votos para o Branco. Téo Digitou rapidamente e olhou para ele interrogativamente. Ele continuou:
— Setenta e nove para Nélio. Téo percebeu quando Nélio franziu o cenho, preocupado. Nas outras mesas, a realidade não estava muito diferente disto. A vitória, fosse de quem fosse, ia ser conquistada praticamente voto por voto e o Branco já havia encontrado uma forma de conseguir votos extras. Nova cantada:
— Vinte e sete nulos. Nélio sentiu um clique, um insight. E, partindo do espanto à ação, ele foi à forra:
— É Nélio — disse o candidato em pessoa.
— É Nulo — atestava o presidente.
— É Nélio — agora recitavam os fiscais em coro. O delegado do partido viera juntar-se ao movimento e sustentou a tese:
— Está evidente que o eleitor queria votar em Nélio. — Vocês não podem contrariar a vontade democrática do eleitor — dizia o delegado com paixão diplomática. Continuaram a bater boca, sem que ninguém conseguisse convencer um ao outro.
— Então chame o juiz — disse o presidente da mesa a Téo. O moço transmitiu o recado, pois ele mesmo não podia abandonar o posto. O magistrado viera imediatamente, uma vez que o processo não poderia atrasar por negligência de sua parte.
— O que está havendo? — perguntou ao acercar-se da mesa. O presidente fez a exposição. O juiz pegou as cédulas, uma a uma e as examinou.
— Senhor Nélio, aqui está mais para Nulo — disse ele com cara de riso. Téo viu que até o juiz, acostumado com todo o tipo de muamba achou aquilo de caráter muito criativo.
— Meritíssimo, está muito claro que o eleitor quis votar em Nélio. Observe direitinho — insistiu o candidato. O juiz olhou novamente.
— É... Parece que uma perninha do “u” está mais gordinha do que a outra — admitiu.
— Então!...
— Mas, para que não haja nenhuma dúvida, vou ver com o Colegiado.
— Seu voto? — perguntou o juiz.
— Nulo — disse um dos presidentes com poder de voto.
— Seu voto? — perguntou ao aproximar-se do presidente da segunda mesa.
— Nélio, meritíssimo.
— Seu voto? O presidente pegou as cédulas e examinou-as disfarçadamente, procurando com o olhar o candidato que levantara a questão. Nélio estava atento e fez um leve sinal com o dedo “maior de todos” e o de fazer “jóia”, esfregando um no outro. O presidente baixou as vistas para as cédulas e, num arremedo de sorriso, emitiu seu parecer:
É Nélio, Meritíssimo. Está evidente. O juiz continuou a peregrinação. No entanto, ao passar por todas as mesas da Suprema Corte havia dado empate. Ele franziu o cenho e olhou para o candidato. Havia chegado à mesa de Téo e analisava as cédulas novamente.
— É Nélio meritíssimo! — quase implorava agora o candidato, ao perceber que a decisão dependia única e exclusivamente do Juiz. O delegado e os fiscais acudiram, confirmando. O juiz olhou mais uma vez o candidato, avaliando-o, perscrutando-o, depois sentenciou:
— Está certo — bateu o martelo. O candidato sorriu pedindo licença às orelhas, enquanto Branco rilhava os dentes, vermelho de raiva. Foi dessa forma que Nélio conquistou as chaves da Prefeitura.
Téo avaliava toda aquela trama, com um misto de repulsa e de pena. Nojo por descobrir que a política no Brasil era tão suja; e pena dos eleitores que, embora não o sabendo estavam beneficiando políticos inescrupulosos e favorecendo a indústria da corrupção.
— Que pena! — ele suspirou profundamente. Será que algum dia o eleitor vai aprender a utilizar a única arma que tem ao alcance das mãos?...


REIS, Jonan de Castro. Romancista, poeta e contista. Membro-fundador da Alesg - Academia de Letras do Extremo Sudoeste de Goiás, membro da Academia de Letras do Brasil, membro da Associação Internacional de Poetas del Mundo e Cônsul de Poetas del Mundo para o Entorno de Quirinópolis. É autor de Arremedo: Contos & Lorotas (Goiânia: Kelps, 2009, 122 pp.) e do romance Marcas do Infortúnio (Goiânia: Kelps, 2010, 322 pp.).