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quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Kseniya Simonova ganadora del Ukraine's Got Talent por animación con arena, realmente genial (gracias Hector)

Kseniya Simonova ganadora del Ukraine's Got Talent por animación con arena, realmente genial (gracias Hector)

A FILOSOFIA DO SEGREDO


REIS, Jonan de Castro

A vida em sociedade é um mar com seus mistérios
Mas a filosofia um aprendizado de valor inestimável:
Mantenhas por perto os teus amigos
Os teus inimigos sob o calor do teu abraço
Envie aos teus amigos um bocado de pão
Convide os inimigos a cear contigo à tua mesa
E saibas ao menos com que morte hás de morrer
Quando quiseres guardar algum segredo
Não o reveles a ninguém
Mas, se o fizer não imponhas silêncio sobre o tema
Para que não desperte a traição em quem confias
E não quebres, com isto, o elo de amizade entre ambos
Lembre-se que o teu amigo é também amigo de alguém
A ciranda não para de girar
Quando te despires a alguém voluntariamente
Não lhe peças para vendar os olhos
Agora ele já conhece o segredo que ocultas por sob o tecido
Se já fez alguma loucura aos olhos de alguém
Não lhe peças para apagar da memória o que viu
As imagens jamais se apagam
Elas permanecem vivas
Quais fotografias reveladas em quatro cores
Só o tempo tem permissão para deletar
Ai, meu Deus!
Calma! Não te preocupes:
Teu segredo comigo está seguro.


Reis, Jonan de Castro. Poeta, contista e romancista. Autor de Arremedo: Contos & Lorotas (Goiânia: Kelps, 2009, 122 pp), e Marcas do Infortúnio (Goiânia: Kelps, 2010, 334 pp). Membro da Academia de Letras do Brasil – ALB, membro da Academia de Letras do Extremo Sudoeste de Goiás – ALESG, membro da Associação de Poetas del Mundo, Cônsul de Poetas del Mundo – Entorno de Quirinópolis.

terça-feira, 1 de novembro de 2011

O JURAMENTO


REIS, Jonan de Castro

Os olhos expressam toda a tensão do momento:
É chegada a hora de fazer o juramento
As lágrimas deslizam silenciosamente mornas
Dos olhos esmeraldinos
E caem sobre a cruz dos dedos juvenis
— Jura?
Com as bocas separadas apenas pela Cruz
As promessas eternas foram seladas
O abraço em xis possuía a pureza da luz
E o calor do fogo que afaga
E afoga toda a magia da falsidade
Os soluços são entrecortados
Pelos gemidos provocados pelas feridas
Abertas que ardem sem fissura e sem dor
Havia urgência naquele juramento:
— Sim, eu juro que vou te amar...
— Até que a morte nos separe?
— Sim
Os olhos foram fechados para o beijo
O peito aberto pela haste traiçoeira:
— Pssss! Descanse em paz!



Reis, Jonan de Castro. Poeta, contista e romancista. Autor de Arremedo: Contos & Lorotas (Goiânia: Kelps, 2009, 122 pp), e Marcas do Infortúnio (Goiânia: Kelps, 2010, 334 pp). Membro da Academia de Letras do Brasil – ALB, membro da Academia de Letras do Extremo Sudoeste de Goiás – ALESG, membro da Associação de Poetas del Mundo, Cônsul de Poetas del Mundo – Entorno de Quirinópolis.

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

SEM BRILHO NO OLHAR


REIS, Jonan de Castro
Eram verdes
Eles possuíam o verde das esmeraldas
Com seu brilho encantador
Nas noites de luar
Os poetas subiam a montanha
E se embriagavam naquela fonte de luz e magia
Mas os faróis há muito pararam de brilhar
Sobre o espelho de suas lentes
Uma manta de lodo se formou
E o brilho das pepitas desvaneceu
Acabou-se o brilho esmeraldino
Dissipou-se o encanto juvenil
Cessaram as poesias que evocam a Primavera
Das pérolas de seus olhos erigem agora
As lavas abrasadoras de um vulcão
Onde estão os olhos que tanta poesia se fez cantar?
Os olhos rastejantes possuem o brilho do cristal
Mas suas pérolas são perigosas e letais
Os olhos das musas selvagens
Têm o verde felino que suscita inspiração
Mas suas garras são guilhotinas nas mãos ágeis do algoz
Eu quisera fitar aqueles olhos verdes que atraem
Sem a maldição dos répteis rastejantes
Eu quisera o sorriso que convida
Sem a persuasão traiçoeira de Dalila
Ah! Bem que eu quisera ver aqueles olhos de encanto pueril!
Mas a montanha é alta por demais
E eu deveras sou humano, não tenho as virtudes de Sansão.

Reis, Jonan de Castro. Poeta, contista e romancista. Autor de Arremedo: Contos & Lorotas (Goiânia: Kelps, 2009, 122 pp), e Marcas do Infortúnio (Goiânia: Kelps, 2010, 334 pp). Membro da Academia de Letras do Brasil – ALB, membro da Academia de Letras do Extremo Sudoeste de Goiás – ALESG, membro da Associação de Poetas del Mundo, Cônsul de Poetas del Mundo – Entorno de Quirinópolis.

sábado, 15 de outubro de 2011

TESOURO PERDIDO


REIS, Jonan de Castro

Por dias e horas a fio eu vinha correndo
Gritando e chorando
A quem pudesse me ouvir
Eu chorava a perda de um tesouro
Sim —, eu chorava por aquela folha...
Mas agora...
Finalmente encontrei
Aquela folha que havia secado
Dentro do meu livro (idiota) de poemas
Os ventos uivantes vindos do Sul
Arremeteram sobre o meu livro
O qual se abriu e a folha se perdeu no ar
Depois de muitos dias encontrei-a caída na lama
Carcomida pelos vermes que infestam a Orbe
Não havia mais células de ligação
Apenas o esqueleto sem vida daquela que
Um dia fez o Poeta cantar
Mas a folha outrora tão verde agora se fora
A árvore que a produzia também se fora
Somente o livro de poemas...
Mesmo que seja (idiota)
Ainda se encontra à minha cabeceira
Quem sabe um dia
Ainda encontre outra folha
E que os ventos do Sul não me impeçam de colocá-la
Dentro do meu livro de poemas!

Reis, Jonan de Castro. Poeta, contista e romancista. Autor de Arremedo: Contos & Lorotas (Goiânia: Kelps, 2009, 122 pp), e Marcas do Infortúnio (Goiânia: Kelps, 2010, 334 pp). Membro da Academia de Letras do Brasil – ALB, membro da Academia de Letras do Extremo Sudoeste de Goiás – ALESG, membro da Associação de Poetas del Mundo, Cônsul de Poetas del Mundo – Entorno de Quirinópolis.

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

O DIA EM QUE A TERRA QUASE PAROU


REIS, Jonan de Castro

Sob a luz de velas, debaixo dos caracóis dos cabelos de Anita, Erasmo reflete sobre o dia em que a terra parou pela primeira vez. Um sorriso desenha linhas expressivas em seu rosto. Ele era menino, mas ainda se lembra como se fosse hoje, principalmente por causa do lance do Ricardo. Botões e pétalas de rosas se perderam pelo caminho, enquanto a poeira se desvanecia no ar. O fugitivo tinha muita pressa.
Ele ainda se lembra que os operários não saíram para trabalhar porque sabiam que os patrões não estavam lá. Os professores não saíram para lecionar, pois sabiam que os alunos também não estavam lá. O travesti nem quis fazer o tratamento, pois dizia pra mamãe: não consigo mais parar. O transporte coletivo não saiu para transportar porque sabia que os passageiros já não estavam lá. Só o Ricardão saiu para namorar, pois sabia que o seu sócio já não estava lá.
Ricardo bateu na porta, um lindo ramalhete na mão e um sorriso nos lábios. A porta se abriu de sopetão. Droga! — mas você não deveria estar aqui! — pensou.
— Você po...po... deria me arranjar uma sacola? A minha se rasgou quando me defendia de... de... um a... ta... que de um elefante de...delinquente — improvisou o assustado Ricardo, gaguejando. Ele já matou va...vários rinocerontes chi... chifrudos.
— Perfeitamente, cavalheiro! — Entre para cá. Tome um cafezinho enquanto vou buscar a sacola.
— Obri... ga...ga...do, acho que vou aceitar. O outro foi lá dentro e, quando voltou, trazia arrastada pelos cabelos sua mulher. Na mão direita, um chicote de couro trançado. Como se sabe — isto foi há dez mil anos atrás.
A segunda vez, o motorista deixou o carro capotar porque estava ocupado falando com a namorada ao celular. O vendedor de picolés deixou a carga esquentar, porque não teve dinheiro para recarregar o celular. Os fiéis não foram ouvir a pregação, pois sabiam que o pastor mandou a dívida para os órgãos de proteção ao crédito. Os professores que quiseram ganhar melhor tiveram que parar de ensinar, pois pediram demissão e foram para a escola privada. Mas Cid Gomes, uma pérola de governador disse que vai doar o seu salário porque disse ser igual ao professor que só deve trabalhar por amor. Pior foi o pai que, orgulhoso do herdeiro levava para casa um conjunto de mamadeira do Bob Esponja, mas, ao tentar amamentar o filho, este lhe virou a cara com desdém: “Qual é, velho, isto é coisa de bebê, eu quero é sugar um baseado!”. Isto parece que foi há poucos dias atrás.
Erasmo já não é mais o mesmo. Anita já não possui os cachos ondulados que tanta poesia se fez declamar. Camões tenta se livrar das amarras que o prendem ao fundo do baú, ou será que foi devorado pelo gigante Adamastor? Machado jaz nas profundezas oceânicas da ignorância juvenil. Nem Eliseu, com todo o seu poder o fará flutuar nas mentes insanas desses jovens de cérebros vazios. Cérebros que fazem seus hospedeiros desmaiarem diante do rosto bonito de uma biba, também de cérebro vazio.
Nota-se que a pedra posta no caminho serviu apenas de tropeço para aqueles que tentavam seguir os passos de Drummond ou faziam provas no Vestibular. Beethoven, Mozart, Caetano, João Gilberto e Vinícius de Morais rabiscavam espigas miúdas nos campos onde grassavam soberbos pés de “mamonas assassinas”. Os jovens universitários faziam vômito ao tentar deglutir as iguarias oferecidas pelo cardápio da literatura clássica.
Mas o Censo, desta vez, estava lá; no rádio, na TV, nas ruas, nas casas, nas escolas e no comércio querendo saber a diferença entre Alfabetização e Letramento. “Em prosa ou versos, façam suas considerações” — dizia o comunicador. As palavras nos jovens estudantes lhes secavam o paladar. Alunos e até professores se retiravam à francesa, querendo fugir da provação, mas o Censo estava lá. Foi assim que a Terra quase parou pela terceira vez. Preocupados cientistas, escritores, poetas, pesquisadores, linguistas e afins fizeram uma mesa redonda para discutirem a questão.
O pesquisador disse que alfabetização é o processo de ensinar/aprender a ler e a escrever soletrando. O Poeta disse que letramento é a arte de soletrar cantando. No entanto, o linguista filosofou que letramento não é treinamento repetitivo de uma habilidade, mas a habilidade com que se faz um treinamento.
Por sua vez, o escritor teorizou que Letramento é a conjugação do verbo entreter em todos os tempos e modos. Sim, entreter o adulto com as cantigas de ninar. É a quebra do tédio das crianças com as notícias de um jornal; é ver o jovem feliz com os noticiários da TV; é convencer as donas-de-casa com as propostas de um político; é reconquistar a namorada traída dizendo que vai levá-la a uma festa, quando na verdade, vai pescar.
O Poeta tomou novamente a palavra e abusou: letrar é ver Alice no País das Maravilhas, mesmo cercada de lobos por todos os lados; é colocar um chapéu amarelo na cabeça de Chapeuzinho Vermelho; é nunca enfadar-se com as histórias contadas em mil e uma noites; é querer estar preso por vontade; é levantar com a alva, só para ver o sol nascer; é fazer o homem bruto gemer sem sentir dor.
Tentando dar a volta por cima, o escritor lançou a sentença digna do aplauso de Ramalho: se alfabetizar é traçar o mapa do coração do homem, na verdade, letrar é ver um brilho de faca onde nasce o amor. Mas Cecília Meireles arrematou: A vida só é possível reinventada.
Só após longa discussão, o grupo chegou a um conceito racional: Letramento é o envolvimento do homem nas práticas sociais de leitura e escrita sem, necessariamente, frequentar uma academia de letras. Todos aplaudiram.
Não se pode negar que foi uma tirada inteligente, mas o Poeta não se deu por vencido: Letramento é a capacidade de sair ileso ao tentar revelar o segredo do ser maravilhoso que existe entre a serpente e a estrela, porque metade do Poeta é arte, a outra metade é canção.




REIS, Jonan de Castro. Poeta, contista e romancista. Autor de Arremedo: Contos & Lorotas (Goiânia: Kelps, 2009, 122 pp); Marcas do Infortúnio, romance (Goiânia: Kelps, 2010, 334 pp). Membro da Academia de Letras do Brasil – ALB, membro da Academia de Letras do Extremo Sudoeste de Goiás – ALESG, membro da Associação dos Poetas Del Mundo, Cônsul dos Poetas Del Mundo – Entorno de Quirinópolis – GO.

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

O DISCO


REIS, Jonan de Castro


Alguns acreditavam que fosse um objeto voador
Outros defendiam que fosse um disco magnético
A verdade é que fluía uma corrente eletromagnética
Capaz de eletrocutar uma multidão de idiotas
Aquele objeto tinha o poder de atrair metais
Grandes ou pequenos
Preciosos ou banais
Todos eram atraídos ao seu núcleo
Onde concentrava toda sua capacidade magnética
Mas, como frutas maduras caíram os grandes metais
E o disco perdeu todo o seu brilho dourado
As faíscas que piscavam constantemente
Foram encobertas pela cinza dos ventos sobre as brasas
Pequenos metais atrevidos teimavam em se manterem agarrados
Como jabuticabas ao longo dos ramos sem viço
Houve várias tentativas de realimentação
Quem sabe fossem seguros pelas garras da fênix
Mas os valiosos metais foram rejeitados
Como as folhas secas pelo vento primaveril
Só havia um meio
O último recurso:
E a tecla de emergência foi ativada.
Formatação concluída com sucesso.


Reis, Jonan de Castro. Poeta, contista e romancista. Autor de Arremedo: Contos & Lorotas (Goiânia: Kelps, 2009, 122 pp), e Marcas do Infortúnio (Goiânia: Kelps, 2010, 334 pp). Membro da Academia de Letras do Brasil – ALB, membro da Academia de Letras do Extremo Sudoeste de Goiás – ALESG, membro da Associação de Poetas del Mundo, Cônsul de Poetas del Mundo – Entorno de Quirinópolis.

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

É OSSO!


REIS, Jonan de Castro


NHAC... NHAC... NHAC...
Au! Au! Au!
GRRRRRRRR! GRRRRRRRR!
Au! Au! Au!
GRRRRRRRR! GRRRRRRRR!
— Idiota!
— ATREVIDO!
HAU... HAU... HAU...
Cãimmmmmm! Cãimmmmm! Cãimmmmmmm!
GRRRRRRRRR! GRRRRRRRR!
NHAC...
NHAC...
NHAC...
— É osso! Cãimmm!
— É só um osso! Cãimmm! Cãimmm!






Reis, Jonan de Castro. Poeta, contista e romancista. Autor de Arremedo: Contos & Lorotas (Goiânia: Kelps, 2009, 122 pp), e Marcas do Infortúnio (Goiânia: Kelps, 2010, 334 pp). Membro da Academia de Letras do Brasil – ALB, membro da Academia de Letras do Extremo Sudoeste de Goiás – ALESG, membro da Associação de Poetas del Mundo, Cônsul de Poetas del Mundo – Entorno de Quirinópolis.

sábado, 1 de outubro de 2011

UM SONHO DOURADO


REIS, Jonan de Castro

Dizer que a verdade dói
É acreditar que a mentira alivia a alma
Não se pode negar, nem tampouco afirmar
Mas o Poeta deveras pode sonhar dourado
Verdades ou mentiras eternas – dizia Pessoa:
O Poeta é um eterno fingidor
Finge tão descaradamente
Que até os cardos se transformam em flor
Mas, por que fingir se a dor passa num instante?
Um instante na vida que parece uma eternidade
De outra forma, a vida pode fugir num instante
Será isto um contraste ideológico ou uma fuga?
Afinal, fingir é um vício de dizer “Te Amo Muito”
Enquanto se vive um sonho dourado
Deveras um dia sonhei que voava dourado:
Voava de manhã: TAM
À tarde voava: TAM
Voava à noite, a semana, o mês inteiro: TAM
O sorriso arrebatador embriagava a alma
O rosto de pele dourada era um fascínio
Os olhos, sim, os olhos ostentavam o verde das folhas
Mas, enquanto tentava
Em vão
Entender aquele sonho
Acabei sofrendo um gol dourado
Sinceramente...
Eu nunca pensei que aquele sonho pudesse acabar assim...


Reis, Jonan de Castro. Poeta, contista e romancista. Autor de Arremedo: Contos & Lorotas (kelps, 2009, 122 pp), e Marcas do Infortúnio (Kelps, 2010, 334 pp). Membro da Academia de Letras do Brasil – ALB, membro da Academia de Letras do Extremo Sudoeste de Goiás – ALESG, membro da Associação de Poetas del Mundo, Cônsul de Poetas del Mundo – Entorno de Quirinópolis.

terça-feira, 27 de setembro de 2011

MAGMA VULCÂNICO


REIS, Jonan de Castro[1]

Estou pronto, sim estou pronto.
Não se pode dizer que não tentei
Quantas foram minhas tentativas
Tantas mais as tuas negativas
Se houve verdades eternas
Sinceramente, não sei!
Sei que foram eternizadas pelo teu silêncio
O grito de perdão que constantemente
Emerge das profundezas da minha alma
Foi calado por uma rolha incrustada em teus ouvidos
Os desabafos incandescentes
Jorram como magma vulcânico
Pelos lábios que destilavam puro mel
Em vão minha alma chora
O orgulho estampado em teus olhos
Traduz veementemente a decisão da tua alma
Ao abrir a porta principal
Você se pôs de lado
E nem sequer ousou dizer
Apenas indicou com o dedo a saída
Sim, claro que chorei!
Mas agora estou pronto.


[1] REIS, Jonan de Castro. Poeta, contista e romancista. Membro da Academia de Letras do Brasil – ALB, membro da Academia de Letras do Extremo Sudoeste de Goiás - ALESG, membro da Associação de Poetas del Mundo, Cônsul Poetas del Mundo, Entorno de Quirinópolis – GO.

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

A FOLHA


REIS, Jonan de Castro


Abro o livro de poemas à minha cabeceira
Não a encontro
Minha alma em espasmos se contorce
A folha... a folha...
Onde está aquela folha de brilho mortiço?
Eu não sei! – e nunca mais o saberei
O sorriso que muito encantava
Há muito se tornou uma máscara de gelo
Se falávamos sobre tudo
Hoje não se fala sobre nada
Desculpas? Perdão?
Por quê?
Por causa de uma folha?
As interrogações pululam em minha mente
Mas não encontro uma resposta
Olho em teus olhos
Apenas a lembrança
Sim – lembrança daquela folha
A folha que se secou...
Dentro do meu livro de poemas
Não sei onde esconderam aquela folha
A folha que se secou...
Dentro do meu livro de poemas



Reis, Jonan de Castro. Poeta, contista e romancista. Autor de Arremedo: Contos & Lorotas (kelps, 2009, 122 pp), e Marcas do Infortúnio (Kelps, 2010, 334 pp). Membro da Academia de Letras do Brasil – ALB, membro da Academia de Letras do Extremo Sudoeste de Goiás – ALESG, membro da Associação de Poetas del Mundo, Cônsul de Poetas del Mundo – Entorno de Quirinópolis.

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

LEITURA E CONSCIÊNCIA CRÍTICA: A VOZ DA NATUREZA


“A verdadeira evolução de um povo se faz ao nível da mente, ao nível da consciência de mundo que cada um vai assimilando desde a infância”.
(Nelly Novaes, 2000).


Por: Jonan de Castro Reis

Ao observar, certo dia, a ilustração de um texto de Nelly Novaes intitulado “A literatura infantil e seus caminhos”, fiquei maravilhado com a harmonia perfeita entre os animais. A mensagem era simples e clara, levando em consideração a proposta de que a evolução de um povo se faz a partir dos conhecimentos de mundo que se vão acumulando ao longo da vida. E ninguém melhor que a Natureza para repassar esses conhecimentos, uma vez que o seu Criador foi, é e sempre será um Mestre insuperável.
Já pararam para observar que os animais nunca foram à escola para aprenderem o “manual” de sobrevivência das espécies? Eles não fazem cursinho intensivo de capacitação profissional no sentido de aprenderem a nadar, a rastejar, a cantar, a construir seus ninhos, a reproduzirem e outras atividades, típicas do seu mundo. No entanto, os peixes conhecem a época propícia para subirem os rios em busca de um local adequado para a procriação, as corujas sempre encontram um buraco para se resguardarem, as precavidas águias põem seus ovos nos íngremes penhascos, as serpentes peçonhentas repousam, religiosamente com a cabeça por cima da rodilha, prontas para o ataque ou defesa; os beija-flores fazem seus ninhos de plumas e os joões-de-barro jamais perderam o projeto arquitetônico de seus palácios.
Neste sentido, a literatura infantil tem papel fundamental de agente transformador numa sociedade em constante formação. Observa-se que as crianças que desde os primeiros anos já mantêm contato com os livros têm maior capacidade analítica e espírito crítico em relação aos fatos sociais. O livro continua sendo uma ferramenta eficaz para a formação dessa consciência crítica que as propostas nelliana e lobatiana tanto evocam. Entra geração, sai geração, mas o livro está aí, cumprindo o seu papel. Fortalecendo essas palavras, Nelly Novaes (2000) afirma: “No encontro com a literatura, os homens têm a oportunidade de ampliar, transformar ou enriquecer sua própria experiência de vida, em um grau de intensidade não igualada por nenhuma outra atividade”. Assim, se a literatura é a arte de representar o mundo, a natureza é o reflexo dessa arte, pois ela reflete o que o mundo tem de belo.
Nesta perspectiva, é possível fazer um “acasalamento” perfeito entre a proposta teórica de Novaes (2000) e a obra inovadora de Monteiro Lobato. Em Novaes (2000), a autora reflete: “Na literatura para crianças ou adultos, o mágico e o absurdo irrompem na rotina cotidiana e fazem desaparecer os limites entre real e imaginário”. Da mesma forma, as personagens de Lobato são despidas das formas convencionais em prol de uma roupagem que ultrapassam os limites da imaginação das crianças. Em Lobato os animais se reúnem para discutirem temas complexos como a guerra entre os humanos, a preservação da fauna e da flora – temas que até hoje causam polêmicas dignas de convenções e congressos específicos para tratarem do assunto. No entanto, as crianças as discutem numa linguagem infantil, de um modo que elas entendem sem a necessidade da intervenção tendenciosa dos adultos.
A autora de “A literatura infantil e seus caminhos” vê a criança como “um ser em formação, cujo potencial deve-se desenvolver em liberdade, mas orientado no sentido de alcançar total plenitude em sua realização”. Já Lobato visualizava o adulto na figura alegórica de um animal, pois as personagens criadas por ele eram “treinadas” para serem adultos conscientes de seu papel na sociedade. O mundo das imagens, das cores e da fantasia criado por Monteiro Lobato encontrou guarida nos postulados de Nelly Novaes (2000), uma vez que “o caminho para a redescoberta da literatura infantil, no século XX, foi aberto pela psicologia experimental que, revelando a inteligência como o elemento estruturador do universo que cada indivíduo constrói dentro de si, chama a atenção para os diferentes estágios de seu desenvolvimento e sua importância fundamental para a evolução e formação da personalidade do futuro adulto”.
Vale ressaltar que o posicionamento de Emília Ferreiro nesse contexto muito tem nos chamado a atenção, pelo fato de ela ilustrar com mestria fabulosa a teoria acerca desse tema: “Era uma vez uma criança... que estava em companhia de um adulto... e o adulto tinha um livro... e o adulto lia. E a criança, fascinada, escutava como a língua oral se torna língua escrita. A fascinação do lugar preciso em que o conhecido se torna desconhecido. O ponto exato para assumir o desafio de conhecer e crescer”.
Ora, não é necessário ser doutor das Letras ou da Psicologia para descobrir que não se pode mudar a personalidade de uma pessoa, haja vista que isto é trabalho para gerações futuras.
Ainda assim, os adultos jamais serão modificados. Então, em vez de “quebrar a cabeça” com os adultos, propondo-lhes uma mudança radical, Lobato fazia diferente: investia na inteligência e na capacidade de adaptação das crianças. Assim, teríamos um adulto transformado, adaptado, desenvolvido sem dores e sem radicalismo. Verifica-se que a criança é o ponto nevrálgico, é a espinha dorsal para injetar o remédio que curará as gerações futuras do fantasma que amedrontam a humanidade, quer seja o analfabetismo, quer seja o iletramento, quer seja a ignorância. Nas palavras de Ferreiro (2005): “é o ponto exato para assumir o desafio de conhecer e crescer”. E tudo isto sem dores nem pavores.
Não é utópico enfatizar que os adultos de hoje sofrem com as transformações de ordem social e cultural que ameaçam ruir o universo vivido por eles. As tecnologias são importantes para o desenvolvimento econômico, social, cultural e político de uma nação, mas são farpas que incomodam os pés cansados das pessoas adultas, acomodadas, principalmente os idosos e, podem crer – foram criadas por pessoas jovens, que gostam de incomodar e provocar. Assim, as crianças e os jovens criados nesse mundo cercado por tecnologia se adaptarão mais facilmente, ou melhor, não sofrerão as agruras das mudanças que elas provocam na vida das pessoas adultas. Da mesma forma, as crianças que crescerem em contato com as ferramentas capazes de promoverem transformações sociais e culturais, facilmente encontrarão soluções práticas para situá-las no contexto ao qual estão inseridas.
Emília Ferreiro (2005) resume: “Todas as pesquisas coincidem num fato muito simples: a criança que esteve em contato com leitores antes de entrar na escola aprendeu mais facilmente a escrever e ler do que aquelas crianças que não tiveram contato com leitores”. Essa teoria é reforçada pelas propostas de Monteiro Lobato e de Nelly Novaes que são a de investir na capacidade de adaptação da criança para se ter adultos conscientes do seu papel na sociedade.
Diante desses argumentos, não cabe a nós, escritores e poetas – ou ainda meros estudiosos traçar diretrizes fantasiosas no sentido de incentivar a consciência crítica, uma vez que a receita já está pronta há décadas. O que se deve fazer é continuar a bater na mesma tecla do piano, pois é ali, naquela tecla desgastada pelo tempo, que está situada a primeira das centenas de notas do acorde que se transformará em um grande concerto, digno do mestre sabiá. E nem assim a natureza baterá as palmas, mas pelo menos dirá: Ufa! Já não era sem tempo!

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

CADEMARTORI, Lígia. O que é literatura infantil. 4.ed. São Paulo: Brasiliense, 1987.
COELHO, Nelly Novaes. Literatura infantil: teoria, análise, didática. São Paulo: Moderna, 2000.
FERREIRO, Emília. Passado e presente dos verbos ler e escrever. Trad. Cláudia Berliner. 2.ed. São Paulo: Cortez, 2005.

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REIS, Jonan de Castro é contista, poeta e romancista. Autor de Arremedo: Contos & Lorotas (Goiânia: Kelps, 2009, 122 pp.) e Marcas do Infortúnio (Goiânia: Kelps, 2010, 334 pp.). É membro da Academia de Letras do Brasil – ALB, membro da Academia de Letras do Extremo Sudoeste de Goiás – ALESG, membro da Associação de Poetas del Mundo e Cônsul de Poetas del Mundo, Entorno de Quirinópolis – GO.