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quarta-feira, 12 de outubro de 2011

O DIA EM QUE A TERRA QUASE PAROU


REIS, Jonan de Castro

Sob a luz de velas, debaixo dos caracóis dos cabelos de Anita, Erasmo reflete sobre o dia em que a terra parou pela primeira vez. Um sorriso desenha linhas expressivas em seu rosto. Ele era menino, mas ainda se lembra como se fosse hoje, principalmente por causa do lance do Ricardo. Botões e pétalas de rosas se perderam pelo caminho, enquanto a poeira se desvanecia no ar. O fugitivo tinha muita pressa.
Ele ainda se lembra que os operários não saíram para trabalhar porque sabiam que os patrões não estavam lá. Os professores não saíram para lecionar, pois sabiam que os alunos também não estavam lá. O travesti nem quis fazer o tratamento, pois dizia pra mamãe: não consigo mais parar. O transporte coletivo não saiu para transportar porque sabia que os passageiros já não estavam lá. Só o Ricardão saiu para namorar, pois sabia que o seu sócio já não estava lá.
Ricardo bateu na porta, um lindo ramalhete na mão e um sorriso nos lábios. A porta se abriu de sopetão. Droga! — mas você não deveria estar aqui! — pensou.
— Você po...po... deria me arranjar uma sacola? A minha se rasgou quando me defendia de... de... um a... ta... que de um elefante de...delinquente — improvisou o assustado Ricardo, gaguejando. Ele já matou va...vários rinocerontes chi... chifrudos.
— Perfeitamente, cavalheiro! — Entre para cá. Tome um cafezinho enquanto vou buscar a sacola.
— Obri... ga...ga...do, acho que vou aceitar. O outro foi lá dentro e, quando voltou, trazia arrastada pelos cabelos sua mulher. Na mão direita, um chicote de couro trançado. Como se sabe — isto foi há dez mil anos atrás.
A segunda vez, o motorista deixou o carro capotar porque estava ocupado falando com a namorada ao celular. O vendedor de picolés deixou a carga esquentar, porque não teve dinheiro para recarregar o celular. Os fiéis não foram ouvir a pregação, pois sabiam que o pastor mandou a dívida para os órgãos de proteção ao crédito. Os professores que quiseram ganhar melhor tiveram que parar de ensinar, pois pediram demissão e foram para a escola privada. Mas Cid Gomes, uma pérola de governador disse que vai doar o seu salário porque disse ser igual ao professor que só deve trabalhar por amor. Pior foi o pai que, orgulhoso do herdeiro levava para casa um conjunto de mamadeira do Bob Esponja, mas, ao tentar amamentar o filho, este lhe virou a cara com desdém: “Qual é, velho, isto é coisa de bebê, eu quero é sugar um baseado!”. Isto parece que foi há poucos dias atrás.
Erasmo já não é mais o mesmo. Anita já não possui os cachos ondulados que tanta poesia se fez declamar. Camões tenta se livrar das amarras que o prendem ao fundo do baú, ou será que foi devorado pelo gigante Adamastor? Machado jaz nas profundezas oceânicas da ignorância juvenil. Nem Eliseu, com todo o seu poder o fará flutuar nas mentes insanas desses jovens de cérebros vazios. Cérebros que fazem seus hospedeiros desmaiarem diante do rosto bonito de uma biba, também de cérebro vazio.
Nota-se que a pedra posta no caminho serviu apenas de tropeço para aqueles que tentavam seguir os passos de Drummond ou faziam provas no Vestibular. Beethoven, Mozart, Caetano, João Gilberto e Vinícius de Morais rabiscavam espigas miúdas nos campos onde grassavam soberbos pés de “mamonas assassinas”. Os jovens universitários faziam vômito ao tentar deglutir as iguarias oferecidas pelo cardápio da literatura clássica.
Mas o Censo, desta vez, estava lá; no rádio, na TV, nas ruas, nas casas, nas escolas e no comércio querendo saber a diferença entre Alfabetização e Letramento. “Em prosa ou versos, façam suas considerações” — dizia o comunicador. As palavras nos jovens estudantes lhes secavam o paladar. Alunos e até professores se retiravam à francesa, querendo fugir da provação, mas o Censo estava lá. Foi assim que a Terra quase parou pela terceira vez. Preocupados cientistas, escritores, poetas, pesquisadores, linguistas e afins fizeram uma mesa redonda para discutirem a questão.
O pesquisador disse que alfabetização é o processo de ensinar/aprender a ler e a escrever soletrando. O Poeta disse que letramento é a arte de soletrar cantando. No entanto, o linguista filosofou que letramento não é treinamento repetitivo de uma habilidade, mas a habilidade com que se faz um treinamento.
Por sua vez, o escritor teorizou que Letramento é a conjugação do verbo entreter em todos os tempos e modos. Sim, entreter o adulto com as cantigas de ninar. É a quebra do tédio das crianças com as notícias de um jornal; é ver o jovem feliz com os noticiários da TV; é convencer as donas-de-casa com as propostas de um político; é reconquistar a namorada traída dizendo que vai levá-la a uma festa, quando na verdade, vai pescar.
O Poeta tomou novamente a palavra e abusou: letrar é ver Alice no País das Maravilhas, mesmo cercada de lobos por todos os lados; é colocar um chapéu amarelo na cabeça de Chapeuzinho Vermelho; é nunca enfadar-se com as histórias contadas em mil e uma noites; é querer estar preso por vontade; é levantar com a alva, só para ver o sol nascer; é fazer o homem bruto gemer sem sentir dor.
Tentando dar a volta por cima, o escritor lançou a sentença digna do aplauso de Ramalho: se alfabetizar é traçar o mapa do coração do homem, na verdade, letrar é ver um brilho de faca onde nasce o amor. Mas Cecília Meireles arrematou: A vida só é possível reinventada.
Só após longa discussão, o grupo chegou a um conceito racional: Letramento é o envolvimento do homem nas práticas sociais de leitura e escrita sem, necessariamente, frequentar uma academia de letras. Todos aplaudiram.
Não se pode negar que foi uma tirada inteligente, mas o Poeta não se deu por vencido: Letramento é a capacidade de sair ileso ao tentar revelar o segredo do ser maravilhoso que existe entre a serpente e a estrela, porque metade do Poeta é arte, a outra metade é canção.




REIS, Jonan de Castro. Poeta, contista e romancista. Autor de Arremedo: Contos & Lorotas (Goiânia: Kelps, 2009, 122 pp); Marcas do Infortúnio, romance (Goiânia: Kelps, 2010, 334 pp). Membro da Academia de Letras do Brasil – ALB, membro da Academia de Letras do Extremo Sudoeste de Goiás – ALESG, membro da Associação dos Poetas Del Mundo, Cônsul dos Poetas Del Mundo – Entorno de Quirinópolis – GO.

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