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quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

OS GUARDIÕES DA SELVA

(REIS, Jonan de Castro).

Devasso as selvas espessas, uma espingarda às costas e um facão na mão, Esquadrinho o cerrado de espinhais e cipós
Em busca de um ente esquecido da história de Goiás
Percorro os vários quilômetros de Vila Boa e Pirenópolis
Ao longo da cauda sinuosa do Rio Vermelho
Olho. Lá está o velho descendente goiá debaixo do pequizeiro centenário.
Ateio fogo no coité de aguardente para o intimidar
Olho novamente. À sombra do pequizeiro, nem sombra daquele
Que foi o guardião da selva amazônica de Goiás
E dono das riquezas minerais tão abundantes nos aluviões dos rios
Mas os goiases foram sumariamente explorados com suor e sangue
Muitas vidas ceifadas pelos europeus desde a época colonial
Sigo a rota aberta pelos bandeirantes paulistas
Ainda piso os rastros deixados pelo valente Anhanguera
Veja: no sopé de uma montanha, há uma trilha
Que sobe em direção ao cume da elevação
Espero ver várias ocas de folha de coqueiro que se perfilam em torno
De um amplo terreiro de chão batido do outro lado da cordilheira
Subo ofegante e me escondo atrás de uma rocha para espiar
Aguardo o ataque traiçoeiro de uma flecha envenenada
Mas as seringas insaciáveis das mutucas
Perfuram impiedosamente minha pele
Quase atinge o coração. Abafo um grito de dor.
Mas, onde estão os seres vermelhos, os carapintadas
Das selvas e dos sertões de Goiás?
Do galho de um jatobá ouço uma ordem autoritária
Estremeço. Sobre um galho do jatobá uma criatura de barba negra
Protege como pode o seu observatório
Procuro o velho índio que fugiu pela encosta
Mas aquele gorila é tudo o que restou do espólio
Da comunidade nativa dos índios goiases.

Reis, Jonan de Castro. Poeta, contista e romancista. Autor de Arremedo: Contos & Lorotas (Kelps, 2009, 122 pp), e Marcas do Infortúnio (Kelps, 2010, 334 pp). Membro da Academia de Letras do Brasil – ALB, membro da Academia de Letras do Extremo Sudoeste de Goiás – ALESG, membro da Associação de Poetas del Mundo, Cônsul de Poetas del Mundo – Entorno de Quirinópolis.

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