(REIS, Jonan de Castro).
Devasso as selvas espessas, uma espingarda às costas e um facão na mão, Esquadrinho o cerrado de espinhais e cipós
Em busca de um ente esquecido da história de Goiás
Percorro os vários quilômetros de Vila Boa e Pirenópolis
Ao longo da cauda sinuosa do Rio Vermelho
Olho. Lá está o velho descendente goiá debaixo do pequizeiro centenário.
Ateio fogo no coité de aguardente para o intimidar
Olho novamente. À sombra do pequizeiro, nem sombra daquele
Que foi o guardião da selva amazônica de Goiás
E dono das riquezas minerais tão abundantes nos aluviões dos rios
Mas os goiases foram sumariamente explorados com suor e sangue
Muitas vidas ceifadas pelos europeus desde a época colonial
Sigo a rota aberta pelos bandeirantes paulistas
Ainda piso os rastros deixados pelo valente Anhanguera
Veja: no sopé de uma montanha, há uma trilha
Que sobe em direção ao cume da elevação
Espero ver várias ocas de folha de coqueiro que se perfilam em torno
De um amplo terreiro de chão batido do outro lado da cordilheira
Subo ofegante e me escondo atrás de uma rocha para espiar
Aguardo o ataque traiçoeiro de uma flecha envenenada
Mas as seringas insaciáveis das mutucas
Perfuram impiedosamente minha pele
Quase atinge o coração. Abafo um grito de dor.
Mas, onde estão os seres vermelhos, os carapintadas
Das selvas e dos sertões de Goiás?
Do galho de um jatobá ouço uma ordem autoritária
Estremeço. Sobre um galho do jatobá uma criatura de barba negra
Protege como pode o seu observatório
Procuro o velho índio que fugiu pela encosta
Mas aquele gorila é tudo o que restou do espólio
Da comunidade nativa dos índios goiases.
Reis, Jonan de Castro. Poeta, contista e romancista. Autor de Arremedo: Contos & Lorotas (Kelps, 2009, 122 pp), e Marcas do Infortúnio (Kelps, 2010, 334 pp). Membro da Academia de Letras do Brasil – ALB, membro da Academia de Letras do Extremo Sudoeste de Goiás – ALESG, membro da Associação de Poetas del Mundo, Cônsul de Poetas del Mundo – Entorno de Quirinópolis.
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quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012
O PEQUI
(REIS, Jonan de Castro).
Deixa estar, meu sertanejo de Goiás,
Chega pra cá. Não carece adulação
Esse fruto não se come com talheres
É gostoso quando se come com a mão.
Esse fruto é deveras saboroso
Das proteínas e vitaminas – é um forte dispenseiro:
Possui vitamina “A” de aromatizante e afrodisíaco
E o valor da vitamina “C” está no chão do cerrado brasileiro.
Seu ciclo de produção ocorre de novembro a fevereiro
Se for sensato tem pequi o ano inteiro. Mas atenção:
Faz pequi no arroz, no frango, no molho ou no peixe,
O pequi faz bonito no licor e até no macarrão.
Do pequi muito se aproveita. Eis aqui a notação:
Das amêndoas oleosas têm-se o sabonete hidratante
O chá de suas folhas tem propriedade medicinal
O óleo desse fruto possui efeito tonificante.
A madeira do pequi é de grande utilidade
Na obra de arte, no carro-de-boi ou na construção naval,
Sua madeira resistente faz obra de verdade
A tintura de sua casca na lã ou algodão não tem igual.
Como se vê: de saboroso a afrodisíaco
O fruto do pequizeiro é um complemento essencial
Mas não se engane quanto ao perigo de sua raiz:
Quando macerada torna-se uma bomba letal.
Reis, Jonan de Castro. Poeta, contista e romancista. Autor de Arremedo: Contos & Lorotas (Kelps, 2009, 122 pp), e Marcas do Infortúnio (Kelps, 2010, 334 pp). Membro da Academia de Letras do Brasil – ALB, membro da Academia de Letras do Extremo Sudoeste de Goiás – ALESG, membro da Associação de Poetas del Mundo, Cônsul de Poetas del Mundo – Entorno de Quirinópolis.
Deixa estar, meu sertanejo de Goiás,
Chega pra cá. Não carece adulação
Esse fruto não se come com talheres
É gostoso quando se come com a mão.
Esse fruto é deveras saboroso
Das proteínas e vitaminas – é um forte dispenseiro:
Possui vitamina “A” de aromatizante e afrodisíaco
E o valor da vitamina “C” está no chão do cerrado brasileiro.
Seu ciclo de produção ocorre de novembro a fevereiro
Se for sensato tem pequi o ano inteiro. Mas atenção:
Faz pequi no arroz, no frango, no molho ou no peixe,
O pequi faz bonito no licor e até no macarrão.
Do pequi muito se aproveita. Eis aqui a notação:
Das amêndoas oleosas têm-se o sabonete hidratante
O chá de suas folhas tem propriedade medicinal
O óleo desse fruto possui efeito tonificante.
A madeira do pequi é de grande utilidade
Na obra de arte, no carro-de-boi ou na construção naval,
Sua madeira resistente faz obra de verdade
A tintura de sua casca na lã ou algodão não tem igual.
Como se vê: de saboroso a afrodisíaco
O fruto do pequizeiro é um complemento essencial
Mas não se engane quanto ao perigo de sua raiz:
Quando macerada torna-se uma bomba letal.
Reis, Jonan de Castro. Poeta, contista e romancista. Autor de Arremedo: Contos & Lorotas (Kelps, 2009, 122 pp), e Marcas do Infortúnio (Kelps, 2010, 334 pp). Membro da Academia de Letras do Brasil – ALB, membro da Academia de Letras do Extremo Sudoeste de Goiás – ALESG, membro da Associação de Poetas del Mundo, Cônsul de Poetas del Mundo – Entorno de Quirinópolis.
A AGONIA DO CERRADO
(REIS, Jonan de Castro).
Serra, serra, serradores!
Serrem o cerrado de Goiás
Quantas árvores já serraram?
Deixe-me ver...
Século dezoito, dezenove, vinte, vinte e um...
Afora as que as queimadas levaram
Restam poucas, mas a safra ainda não acabou.
O cerrado de Goiás sofre e agoniza
Com o reflexo da dinâmica colonial
Desde o surgimento das minas auríferas
Uma ocupação desarticulada e irresponsável
Concedeu o legado do apogeu em prol da mineração.
Os montes de Goiás se abalaram e ruíram
Árvores centenárias tombaram inertes
Os outeiros e planaltos em espasmos sucumbiram
Ai! Ai! Ai!
Mas não quero com este simples cântico
Enaltecer as mazelas históricas e geográficas
E abrir mão do propósito primordial
Que é fazer de minha pena um grito de pena:
Ai! Salvem o cerrado de Goiás!
Reis, Jonan de Castro. Poeta, contista e romancista. Autor de Arremedo: Contos & Lorotas (Kelps, 2009, 122 pp), e Marcas do Infortúnio (Kelps, 2010, 334 pp). Membro da Academia de Letras do Brasil – ALB, membro da Academia de Letras do Extremo Sudoeste de Goiás – ALESG, membro da Associação de Poetas del Mundo, Cônsul de Poetas del Mundo – Entorno de Quirinópolis.
Serra, serra, serradores!
Serrem o cerrado de Goiás
Quantas árvores já serraram?
Deixe-me ver...
Século dezoito, dezenove, vinte, vinte e um...
Afora as que as queimadas levaram
Restam poucas, mas a safra ainda não acabou.
O cerrado de Goiás sofre e agoniza
Com o reflexo da dinâmica colonial
Desde o surgimento das minas auríferas
Uma ocupação desarticulada e irresponsável
Concedeu o legado do apogeu em prol da mineração.
Os montes de Goiás se abalaram e ruíram
Árvores centenárias tombaram inertes
Os outeiros e planaltos em espasmos sucumbiram
Ai! Ai! Ai!
Mas não quero com este simples cântico
Enaltecer as mazelas históricas e geográficas
E abrir mão do propósito primordial
Que é fazer de minha pena um grito de pena:
Ai! Salvem o cerrado de Goiás!
Reis, Jonan de Castro. Poeta, contista e romancista. Autor de Arremedo: Contos & Lorotas (Kelps, 2009, 122 pp), e Marcas do Infortúnio (Kelps, 2010, 334 pp). Membro da Academia de Letras do Brasil – ALB, membro da Academia de Letras do Extremo Sudoeste de Goiás – ALESG, membro da Associação de Poetas del Mundo, Cônsul de Poetas del Mundo – Entorno de Quirinópolis.
segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012
UM TRIBUTO A CORA CORALINA
(REIS, Jonan de Castro).
O canto que agora canto
Não é um canto sem encanto
Canto as riquezas da minha terra
Canto a cultura de Goiás.
Veja que o canto que agora canto
Cantou o rio, cantou o amor, cantou Vermelho
Colheu mandrágoras leitosas
Fez doce de abóbora, marmelada e licor de murici.
O canto que hoje canto
Não é um canto sem encanto
É um canto doce qual o mel da jati
Porque é fruto do cerrado de Goiás.
Nas águas doces do Rio Vermelho
Canto os caracóis molhados dos cabelos de Aninha
Ana que cantou o rio, a terra, o espaço sideral
Ana que cantou o tempo, a criatura e engrandeceu o Criador.
O cântico de Ana é um canto que engrandece
Há palavras de altíssimas altivezas: levanta o pobre do pó
E desde o esterco exalta o necessitado
Esse é o cântico de Ana; este, porém, é o canto de Cora.
Reis, Jonan de Castro. Poeta, contista e romancista. Autor de Arremedo: Contos & Lorotas (Kelps, 2009, 122 pp), e Marcas do Infortúnio (Kelps, 2010, 334 pp). Membro da Academia de Letras do Brasil – ALB, membro da Academia de Letras do Extremo Sudoeste de Goiás – ALESG, membro da Associação de Poetas del Mundo, Cônsul de Poetas del Mundo – Entorno de Quirinópolis.
O canto que agora canto
Não é um canto sem encanto
Canto as riquezas da minha terra
Canto a cultura de Goiás.
Veja que o canto que agora canto
Cantou o rio, cantou o amor, cantou Vermelho
Colheu mandrágoras leitosas
Fez doce de abóbora, marmelada e licor de murici.
O canto que hoje canto
Não é um canto sem encanto
É um canto doce qual o mel da jati
Porque é fruto do cerrado de Goiás.
Nas águas doces do Rio Vermelho
Canto os caracóis molhados dos cabelos de Aninha
Ana que cantou o rio, a terra, o espaço sideral
Ana que cantou o tempo, a criatura e engrandeceu o Criador.
O cântico de Ana é um canto que engrandece
Há palavras de altíssimas altivezas: levanta o pobre do pó
E desde o esterco exalta o necessitado
Esse é o cântico de Ana; este, porém, é o canto de Cora.
Reis, Jonan de Castro. Poeta, contista e romancista. Autor de Arremedo: Contos & Lorotas (Kelps, 2009, 122 pp), e Marcas do Infortúnio (Kelps, 2010, 334 pp). Membro da Academia de Letras do Brasil – ALB, membro da Academia de Letras do Extremo Sudoeste de Goiás – ALESG, membro da Associação de Poetas del Mundo, Cônsul de Poetas del Mundo – Entorno de Quirinópolis.
O RIO ARAGUAIA
(REIS, Jonan de Castro).
Amanhece. A vida pulsa fortemente
Na artéria que irriga o coração do Brasil
Nas profundezas das entranhas brasílicas
A vida palpita em sua plenitude
No sangue cristalino que jorra
Em golfadas borbulhantes.
Milhares de glóbulos se movimentam:
São brancos, vermelhos, pequenos,
Grandes e gigantescos que
Se engalfinham e se completam
Num maravilhoso espetáculo
De vida e vigor.
No anoitecer que se avizinha
A artéria se agita em golfadas serenas,
Às vezes velozes, furiosas, ora violentas...
Mas os glóbulos multicores
Que povoam a artéria desse imenso coração
Retratam a abundância de vida do Rio Araguaia.
Reis, Jonan de Castro. Poeta, contista e romancista. Autor de Arremedo: Contos & Lorotas (Kelps, 2009, 122 pp), e Marcas do Infortúnio (Kelps, 2010, 334 pp). Membro da Academia de Letras do Brasil – ALB, membro da Academia de Letras do Extremo Sudoeste de Goiás – ALESG, membro da Associação de Poetas del Mundo, Cônsul de Poetas del Mundo – Entorno de Quirinópolis.
Amanhece. A vida pulsa fortemente
Na artéria que irriga o coração do Brasil
Nas profundezas das entranhas brasílicas
A vida palpita em sua plenitude
No sangue cristalino que jorra
Em golfadas borbulhantes.
Milhares de glóbulos se movimentam:
São brancos, vermelhos, pequenos,
Grandes e gigantescos que
Se engalfinham e se completam
Num maravilhoso espetáculo
De vida e vigor.
No anoitecer que se avizinha
A artéria se agita em golfadas serenas,
Às vezes velozes, furiosas, ora violentas...
Mas os glóbulos multicores
Que povoam a artéria desse imenso coração
Retratam a abundância de vida do Rio Araguaia.
Reis, Jonan de Castro. Poeta, contista e romancista. Autor de Arremedo: Contos & Lorotas (Kelps, 2009, 122 pp), e Marcas do Infortúnio (Kelps, 2010, 334 pp). Membro da Academia de Letras do Brasil – ALB, membro da Academia de Letras do Extremo Sudoeste de Goiás – ALESG, membro da Associação de Poetas del Mundo, Cônsul de Poetas del Mundo – Entorno de Quirinópolis.
domingo, 5 de fevereiro de 2012
CHAPEUZINHO VERMELHO
REIS, Jonan de Castro.
A história de Chapeuzinho Vermelho
É uma história idiota como outra qualquer:
Uma cestinha pequenina coberta com uma renda
De lacinhos cor- de- rosa
A floresta perigosa, o medo, a companhia do lobo protetor.
Olá! Que chapeuzinho lindo!
O sorriso, a segurança, o beijo,
A cestinha descoberta, o toque: a paixão.
Dias depois uma criança gerando outra criança
Não é uma história de espanto?
Depois o pranto inconsolável de duas crianças:
Uma por falta de leite; outra por faltar com o leite.
O arrependimento, o medo, as recusas...
E a face do verdadeiro predador frente às duas presas indefesas:
É uma envolvente história de ação e traição
Um hilariante episódio de brigas e intrigas
Agora duas ovelhas indefesas ao lado de um lobo predador
Mas quem neste mundo nunca teve uma história idiota?
Quem nunca se sentiu traído e não perdeu o amor?
Sim – há de convir que seja uma história idiota
Entre uma criança medrosa e chorona e um lobo malvado
Mas a história e o lobo são de Chapeuzinho Vermelho
Que se danem os caçadores e até a vovozinha.
A história de Chapeuzinho Vermelho
É uma história idiota como outra qualquer:
Uma cestinha pequenina coberta com uma renda
De lacinhos cor- de- rosa
A floresta perigosa, o medo, a companhia do lobo protetor.
Olá! Que chapeuzinho lindo!
O sorriso, a segurança, o beijo,
A cestinha descoberta, o toque: a paixão.
Dias depois uma criança gerando outra criança
Não é uma história de espanto?
Depois o pranto inconsolável de duas crianças:
Uma por falta de leite; outra por faltar com o leite.
O arrependimento, o medo, as recusas...
E a face do verdadeiro predador frente às duas presas indefesas:
É uma envolvente história de ação e traição
Um hilariante episódio de brigas e intrigas
Agora duas ovelhas indefesas ao lado de um lobo predador
Mas quem neste mundo nunca teve uma história idiota?
Quem nunca se sentiu traído e não perdeu o amor?
Sim – há de convir que seja uma história idiota
Entre uma criança medrosa e chorona e um lobo malvado
Mas a história e o lobo são de Chapeuzinho Vermelho
Que se danem os caçadores e até a vovozinha.
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