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terça-feira, 27 de setembro de 2011

MAGMA VULCÂNICO


REIS, Jonan de Castro[1]

Estou pronto, sim estou pronto.
Não se pode dizer que não tentei
Quantas foram minhas tentativas
Tantas mais as tuas negativas
Se houve verdades eternas
Sinceramente, não sei!
Sei que foram eternizadas pelo teu silêncio
O grito de perdão que constantemente
Emerge das profundezas da minha alma
Foi calado por uma rolha incrustada em teus ouvidos
Os desabafos incandescentes
Jorram como magma vulcânico
Pelos lábios que destilavam puro mel
Em vão minha alma chora
O orgulho estampado em teus olhos
Traduz veementemente a decisão da tua alma
Ao abrir a porta principal
Você se pôs de lado
E nem sequer ousou dizer
Apenas indicou com o dedo a saída
Sim, claro que chorei!
Mas agora estou pronto.


[1] REIS, Jonan de Castro. Poeta, contista e romancista. Membro da Academia de Letras do Brasil – ALB, membro da Academia de Letras do Extremo Sudoeste de Goiás - ALESG, membro da Associação de Poetas del Mundo, Cônsul Poetas del Mundo, Entorno de Quirinópolis – GO.

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

A FOLHA


REIS, Jonan de Castro


Abro o livro de poemas à minha cabeceira
Não a encontro
Minha alma em espasmos se contorce
A folha... a folha...
Onde está aquela folha de brilho mortiço?
Eu não sei! – e nunca mais o saberei
O sorriso que muito encantava
Há muito se tornou uma máscara de gelo
Se falávamos sobre tudo
Hoje não se fala sobre nada
Desculpas? Perdão?
Por quê?
Por causa de uma folha?
As interrogações pululam em minha mente
Mas não encontro uma resposta
Olho em teus olhos
Apenas a lembrança
Sim – lembrança daquela folha
A folha que se secou...
Dentro do meu livro de poemas
Não sei onde esconderam aquela folha
A folha que se secou...
Dentro do meu livro de poemas



Reis, Jonan de Castro. Poeta, contista e romancista. Autor de Arremedo: Contos & Lorotas (kelps, 2009, 122 pp), e Marcas do Infortúnio (Kelps, 2010, 334 pp). Membro da Academia de Letras do Brasil – ALB, membro da Academia de Letras do Extremo Sudoeste de Goiás – ALESG, membro da Associação de Poetas del Mundo, Cônsul de Poetas del Mundo – Entorno de Quirinópolis.

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

LEITURA E CONSCIÊNCIA CRÍTICA: A VOZ DA NATUREZA


“A verdadeira evolução de um povo se faz ao nível da mente, ao nível da consciência de mundo que cada um vai assimilando desde a infância”.
(Nelly Novaes, 2000).


Por: Jonan de Castro Reis

Ao observar, certo dia, a ilustração de um texto de Nelly Novaes intitulado “A literatura infantil e seus caminhos”, fiquei maravilhado com a harmonia perfeita entre os animais. A mensagem era simples e clara, levando em consideração a proposta de que a evolução de um povo se faz a partir dos conhecimentos de mundo que se vão acumulando ao longo da vida. E ninguém melhor que a Natureza para repassar esses conhecimentos, uma vez que o seu Criador foi, é e sempre será um Mestre insuperável.
Já pararam para observar que os animais nunca foram à escola para aprenderem o “manual” de sobrevivência das espécies? Eles não fazem cursinho intensivo de capacitação profissional no sentido de aprenderem a nadar, a rastejar, a cantar, a construir seus ninhos, a reproduzirem e outras atividades, típicas do seu mundo. No entanto, os peixes conhecem a época propícia para subirem os rios em busca de um local adequado para a procriação, as corujas sempre encontram um buraco para se resguardarem, as precavidas águias põem seus ovos nos íngremes penhascos, as serpentes peçonhentas repousam, religiosamente com a cabeça por cima da rodilha, prontas para o ataque ou defesa; os beija-flores fazem seus ninhos de plumas e os joões-de-barro jamais perderam o projeto arquitetônico de seus palácios.
Neste sentido, a literatura infantil tem papel fundamental de agente transformador numa sociedade em constante formação. Observa-se que as crianças que desde os primeiros anos já mantêm contato com os livros têm maior capacidade analítica e espírito crítico em relação aos fatos sociais. O livro continua sendo uma ferramenta eficaz para a formação dessa consciência crítica que as propostas nelliana e lobatiana tanto evocam. Entra geração, sai geração, mas o livro está aí, cumprindo o seu papel. Fortalecendo essas palavras, Nelly Novaes (2000) afirma: “No encontro com a literatura, os homens têm a oportunidade de ampliar, transformar ou enriquecer sua própria experiência de vida, em um grau de intensidade não igualada por nenhuma outra atividade”. Assim, se a literatura é a arte de representar o mundo, a natureza é o reflexo dessa arte, pois ela reflete o que o mundo tem de belo.
Nesta perspectiva, é possível fazer um “acasalamento” perfeito entre a proposta teórica de Novaes (2000) e a obra inovadora de Monteiro Lobato. Em Novaes (2000), a autora reflete: “Na literatura para crianças ou adultos, o mágico e o absurdo irrompem na rotina cotidiana e fazem desaparecer os limites entre real e imaginário”. Da mesma forma, as personagens de Lobato são despidas das formas convencionais em prol de uma roupagem que ultrapassam os limites da imaginação das crianças. Em Lobato os animais se reúnem para discutirem temas complexos como a guerra entre os humanos, a preservação da fauna e da flora – temas que até hoje causam polêmicas dignas de convenções e congressos específicos para tratarem do assunto. No entanto, as crianças as discutem numa linguagem infantil, de um modo que elas entendem sem a necessidade da intervenção tendenciosa dos adultos.
A autora de “A literatura infantil e seus caminhos” vê a criança como “um ser em formação, cujo potencial deve-se desenvolver em liberdade, mas orientado no sentido de alcançar total plenitude em sua realização”. Já Lobato visualizava o adulto na figura alegórica de um animal, pois as personagens criadas por ele eram “treinadas” para serem adultos conscientes de seu papel na sociedade. O mundo das imagens, das cores e da fantasia criado por Monteiro Lobato encontrou guarida nos postulados de Nelly Novaes (2000), uma vez que “o caminho para a redescoberta da literatura infantil, no século XX, foi aberto pela psicologia experimental que, revelando a inteligência como o elemento estruturador do universo que cada indivíduo constrói dentro de si, chama a atenção para os diferentes estágios de seu desenvolvimento e sua importância fundamental para a evolução e formação da personalidade do futuro adulto”.
Vale ressaltar que o posicionamento de Emília Ferreiro nesse contexto muito tem nos chamado a atenção, pelo fato de ela ilustrar com mestria fabulosa a teoria acerca desse tema: “Era uma vez uma criança... que estava em companhia de um adulto... e o adulto tinha um livro... e o adulto lia. E a criança, fascinada, escutava como a língua oral se torna língua escrita. A fascinação do lugar preciso em que o conhecido se torna desconhecido. O ponto exato para assumir o desafio de conhecer e crescer”.
Ora, não é necessário ser doutor das Letras ou da Psicologia para descobrir que não se pode mudar a personalidade de uma pessoa, haja vista que isto é trabalho para gerações futuras.
Ainda assim, os adultos jamais serão modificados. Então, em vez de “quebrar a cabeça” com os adultos, propondo-lhes uma mudança radical, Lobato fazia diferente: investia na inteligência e na capacidade de adaptação das crianças. Assim, teríamos um adulto transformado, adaptado, desenvolvido sem dores e sem radicalismo. Verifica-se que a criança é o ponto nevrálgico, é a espinha dorsal para injetar o remédio que curará as gerações futuras do fantasma que amedrontam a humanidade, quer seja o analfabetismo, quer seja o iletramento, quer seja a ignorância. Nas palavras de Ferreiro (2005): “é o ponto exato para assumir o desafio de conhecer e crescer”. E tudo isto sem dores nem pavores.
Não é utópico enfatizar que os adultos de hoje sofrem com as transformações de ordem social e cultural que ameaçam ruir o universo vivido por eles. As tecnologias são importantes para o desenvolvimento econômico, social, cultural e político de uma nação, mas são farpas que incomodam os pés cansados das pessoas adultas, acomodadas, principalmente os idosos e, podem crer – foram criadas por pessoas jovens, que gostam de incomodar e provocar. Assim, as crianças e os jovens criados nesse mundo cercado por tecnologia se adaptarão mais facilmente, ou melhor, não sofrerão as agruras das mudanças que elas provocam na vida das pessoas adultas. Da mesma forma, as crianças que crescerem em contato com as ferramentas capazes de promoverem transformações sociais e culturais, facilmente encontrarão soluções práticas para situá-las no contexto ao qual estão inseridas.
Emília Ferreiro (2005) resume: “Todas as pesquisas coincidem num fato muito simples: a criança que esteve em contato com leitores antes de entrar na escola aprendeu mais facilmente a escrever e ler do que aquelas crianças que não tiveram contato com leitores”. Essa teoria é reforçada pelas propostas de Monteiro Lobato e de Nelly Novaes que são a de investir na capacidade de adaptação da criança para se ter adultos conscientes do seu papel na sociedade.
Diante desses argumentos, não cabe a nós, escritores e poetas – ou ainda meros estudiosos traçar diretrizes fantasiosas no sentido de incentivar a consciência crítica, uma vez que a receita já está pronta há décadas. O que se deve fazer é continuar a bater na mesma tecla do piano, pois é ali, naquela tecla desgastada pelo tempo, que está situada a primeira das centenas de notas do acorde que se transformará em um grande concerto, digno do mestre sabiá. E nem assim a natureza baterá as palmas, mas pelo menos dirá: Ufa! Já não era sem tempo!

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

CADEMARTORI, Lígia. O que é literatura infantil. 4.ed. São Paulo: Brasiliense, 1987.
COELHO, Nelly Novaes. Literatura infantil: teoria, análise, didática. São Paulo: Moderna, 2000.
FERREIRO, Emília. Passado e presente dos verbos ler e escrever. Trad. Cláudia Berliner. 2.ed. São Paulo: Cortez, 2005.

***
REIS, Jonan de Castro é contista, poeta e romancista. Autor de Arremedo: Contos & Lorotas (Goiânia: Kelps, 2009, 122 pp.) e Marcas do Infortúnio (Goiânia: Kelps, 2010, 334 pp.). É membro da Academia de Letras do Brasil – ALB, membro da Academia de Letras do Extremo Sudoeste de Goiás – ALESG, membro da Associação de Poetas del Mundo e Cônsul de Poetas del Mundo, Entorno de Quirinópolis – GO.

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

A TÍTULO DE JUSTIFICATIVA


 JONAN DE CASTRO REIS. Justificativa do autor pela sabatina de Noemi de Mello Santiago por ocasião da análise crítica ao Livro Marcas do Infortúnio, Goiânia: Kelps, 2010, de minha autoria.


Sinceramente, estou até agora sem palavras pela sua valiosa contribuição ao entendimento de meu livro Marcas do Infortúnio. Não é tarefa muito fácil escrever para um público exigente e crítico, um público que já viu, ouviu, leu e viveu várias situações ao longo da vida e que, por tudo isto, conforme salienta o prof. Dr. Ravel: " é capaz de surpreender detalhes sórdidos nas unhas mais lustrosas ". Só de pensar que é a este público que me dirijo, me dá calafrios na espinha! Mas agora nada de recuar, não é mesmo?
Eu não poderia deixar de enfatizar e de rir um pouco devido ao drama pelo qual passou na frente do computador. Realmente foi bem feito pra você, porque eu quisera ter lhe enviado o livro impresso, mas não sei se você se lembra que instou, dizendo que preferia ler na telinha... Por isso, bem feito, bem feito! (rsrsrs) Além disso, eu sempre me regozijarei pelo seu depoimento de que o livro é bom, que lhe privou de se alimentar em prol da continuidade da leitura que, no seu valioso julgamento, é uma leitura interessante.
No entanto, não sei se posso concordar com você a respeito de que Deus ouvia música quando construía o mundo em que vivemos. O que a Bíblia Sagrada nos afirma é que o Universo era sem forma e vazio, a não ser pelo turbilhão de águas e que o espírito de Deus se movia sobre a face das águas. Noutra parte diz que a voz de Deus é como a voz de muitas águas. Você já ouviu o som de uma cachoeira? É uma música que a gente nunca se cansa de ouvir, pois não fere a nossa audição. Além do mais, ainda traz uma verdadeira paz interior. Neste sentido, acredito que Deus não ouvia música, mas ele era a própria música caracterizada pelo ruído das águas e pelo assobio do vento nas ondas.
Quanto aos desconfortos...
Desculpe tê-la irritado com os nomes de meus personagens. O estilo não tem nada a ver com preferência por estrangeirismos. Afinal, sou um bom brasileiro. A verdade é que gosto de nomes curtos e aqueles foram os que me vieram à mente quando da criação dos personagens. Só agora é que me dei conta de que são nomes estrangeiros. No entanto, terei maiores cuidados ao nomear outros atores de meus cenários.
Quanto aos adjetivos...
Bem... É preciso levar em consideração que o autor é ainda um artista amador das narrativas e, na intenção de agradar a uma personagem, ele a qualifica de bombom, de boneca e outros, cujos lapsos os leitores terão de desculpar como meras tentativas de ser amável.  Se me permite dizer, eu acho que nasci (enquanto escritor) pelo lado errado. Explico: eu comecei a escrever a partir dos textos mais complexos para os mais simples. É como desenvolver a estatura solo adentro. Enquanto muitos escritores iniciam-se com poemas de amor, depois os contos iniciados com "era uma vez..." e terminam em "e viveram felizes para sempre...", eu comecei a escrever enfrentando, logo de cara a narrativa longa e crítica, no caso o romance. Hoje, se fosse refazê-lo, com certeza teria outra abordagem. Na verdade, como eu o publiquei depois da coletânea de contos, eu até pensei em modificá-lo, mas eu quisera deixar essa discussão quanto ao meu crescimento para o próprio leitor avaliar. Você só foi muito feliz ao perceber essa lacuna e denunciá-la em primeira mão, o que mostra que você é uma leitora crítica e antenada. Meu livro não poderia estar em melhores mãos...
No entanto, acredito que você levou a leitura muito a sério, pois chegou ao extremo de colocar o escritor na berlinda. Você se aproveitou de um momento de fraqueza do escritor e o analisou em primeiro plano, em detrimento da obra propriamente dita. Eu quisera ter ficado à margem desta análise, ou, em outras palavras, no mínimo em um ângulo privilegiado – o mesmo ângulo que me coloco quando escrevo os meus textos. Mas, como todo questionamento sugere uma explicação, o apelo sexual se deve ao fato da simpatia ou antipatia que o autor nutre para com suas personagens. Ao criar o perfil de uma personagem, às vezes o autor simpatiza com ela a ponto de levá-la para a cama, se me permite essa absurda metáfora. Outra vez, ele a elege para lançar sobre ela todo o desprezo que sente com relação aos eventos que maculam a humanidade, como o sexo obsessivo e brutal, a ambição, a maldade, a inveja, bem como outros vícios e virtudes que grassam na personalidade humana. A verdade é que alguém tem que pagar por isso, daí os extremos. No entanto, a minha admiração pelas mulheres é lendária, o que tem me levado a até padecer certas agruras sob a língua afiada da sociedade hostil e preconceituosa. Ossos do ofício! (rssrs).
Quanto ao lapso geográfico sobre o rio Tietê, que possivelmente cortaria a cidade do Rio de Janeiro, sinceramente eu lamento. Quando lá estive não sei por que cargas d´água ficou gravado em minha mente esse nome. Depois fiz uma pesquisa e, talvez por má interpretação do mapa ou por uma fonte não confiável, ficou registrado (na minha cabeça) como Tietê, o rio realmente poluído que empresta sua face macabra para ilustrar uma das principais vias de acesso à Cidade Maravilhosa. Prometo tirar isto a limpo quando da reedição do livro.
Chego, sozinha, a uma conclusão, mas não ouso aqui citá-la. Como gostaria de conhecer a que conclusões você chegou, mas não sou curioso, de forma alguma... mas, o que foi mesmo? Tudo bem, eu nem queria saber mesmo!... (droga! Rsrsrs!)
Cara Noemi, você tocou em um ponto muito sensível de meu livro. Vou tentar explicar: as mulheres de meus contos, do meu romance são mulheres que fazem parte de uma complexa sociedade. Não leve pelo lado pessoal. Minhas “mulheres”, como você mesma diz são parte de um emaranhado social em que as mulheres, ao se libertarem das amarras do paternalismo se lançam ao campo de trabalho de igual para igual em relação ao homem. No entanto, são seres que choram, que riem, que amam, que sofrem, que competem, que esbofeteiam, que proferem palavrões, que vivem o dia-a-dia como qualquer homem em busca do seu lugar no competitivo mercado de trabalho. O fato de elas serem mulheres não significa muito, em se tratando da conquista do seu espaço social e afetivo. Elas são seres sociais competitivos e aguerridos. São seres que exploram e são explorados, são mulheres que desejam ao mesmo tempo são desejadas. São mulheres que abandonam seus maridos em prol de seus e de suas amantes. Enfim, são seres demasiado humanos – o que torna um vício ou uma virtude social. O que faço em meus textos é apenas retratá-las de forma realista. Assim, não há traidor nem traído, não há mocinho nem vilão no caminho do autor de Marcas do Infortúnio. Eu quisera apenas que o meu livro fosse interpretado pelo que ele representa para a sociedade, sem essa especulação provocativa se o livro é uma autobiografia de quem o escreveu. Acredito que os meus leitores já superaram também essa crise de identidade entre autor e obra em prol de uma identidade maior e mais crítica: obra e sociedade.
A você, cara amiga, a minha admiração pela inteligência e perspicácia. Rendo os meus agradecimentos por você ter se dado ao trabalho de ler e comentar o meu livro. Aos leitores, o meu sincero e devido respeito, pois sei que não se pode subestimar a inteligência e a capacidade de análise crítica dos leitores. E é justamente a este público crítico que escrevo.
Percebi que você é uma leitora atenta, pois enxergou detalhes até então conhecidos apenas pelos personagens do meu livro. Acredito que muitos leitores ainda precisam deste incentivo para se posicionarem frente à tríade que patrocina a literatura crítica: autor/obra/sociedade.

Grande abraço

J. Castro

sexta-feira, 29 de julho de 2011

CRÍTICA: MARCAS DO INFORTÚNIO

SANTIAGO, Noemi de Mello. Análise crítica do romance “MARCAS DO INFORTÚNIO”, de Jonan de Castro Reis, Editora Kelps, Goiânia, 334 páginas.


Acabo de ler seu livro. Detalhe: fi-la em uma sentada só, uma vez que aproveitei um dia antes de Ana Flor chegar de Goiânia, e que também coincide com meus últimos dias de férias, ou seja, só agora e lamentavelmente, é que pude lê-lo. Lamento, sinceramente, não ter lido antes, pois merecia, mas bem-feito para mim, assim aprendo a que quando você me mandar qualquer material, eu devo parar tudo e ler, e comentar, porque o livro é bom.

Mas, antes mesmo que eu passe a fazer uma crítica (e quem sou eu para fazê-lo?) quero lhe dizer de algumas situações vividas na frente do PC durante a leitura de seu livro, sim, PC, sim, porque eu o li em modelo PDF, o que dificulta um pouco; afinal, não posso levá-lo ao banheiro, por exemplo!
 
Bom, o pulso fez um calinho, de tanto segurar o "mouse" e ir "rolando" a tela, mas até aí tudo bem, a leitura vale até dois calos na mão. Por alguns momentos meu estômago se pronunciou, e só ai é que eu descobri que já era hora de eu me alimentar, mas eu insistia que poderia ler mais um pouco, até algum trecho menos interessante e aí então me levantaria e iria "à caça" de algo para comer, resultado: quase tive um ataque anêmico de fome, porque o trecho desinteressante não veio, de jeito nenhum. 

Depois tenho que lhe dizer que, eu creio que Deus quando criou o universo Ele ouvia música, porque é como diria Nietzche "a vida sem música seria um erro", então, e, para essa minha empreitada literária, convidei alguns artistas de que gosto e a seleção incluiu de Enya a Alan Jackson, uma discrepância, diria alguns e prefiro me sentar na cadeira do eclético, mas tudo bem, estamos aqui para falar de você e não dos meus gostos musicais. 
***
Pois bem, dileto amigo, vencidas todas as barreiras, das fisiológicas às musicais, vamos ao que interessa: Seu livro é um primor, sensível, inteligente, chocante em algumas passagens, mas algumas coisas me incomodam e eu vou tentar justificar meus desconfortos: essa mania de Mirny, Susy, Cameron, e Tony me irritam. Acho que você já pode superar essa fase de estrangeirismos desnecessários. Nenhum texto fica melhor porque os nomes grafados têm 2 "Y", 3 "W", 50 "L", mas julgo que podem ficar piores. 

E, adjetivos como: "princesa", "bombom", e "boneca", pelo amor de Deus, que estejam banidos de seus textos a partir de hoje. Elas são horríveis e, se você continuar insistindo nisso, eu, humildemente, aceitarei e entenderei que essas são suas palavras registradas, mas aqui afirmo que não gosto delas; como mulher, lhe digo: Nós não gostamos de ouvir isso, quer dizer, eu e as que eu conheço; pode ser que sejamos um bando de ETs e que tem algumas por ai que se contentam com tais adjetivos em desuso.

O apelo sexual é muito forte e já tinha percebido isso em outros textos seus, parece-me uma necessidade urgente de você, o autor, se mostrar em sua própria sexualidade, por vezes contida, devido às questões religiosas, que lhe impedem ou reprimem você de se mostrar assim, como um ser também sexual, algo que não teria problema nenhum se não fosse a sociedade religiosa em que você está tão intrinsecamente inserido. Isso (a meu ver) não é nem bom, nem ruim, apenas diferente, porque o homem é um ser sexual por seu próprio instinto e ter que lutar com desejos é muito difícil, às vezes, explodem mesmo, e graças a Deus, que algumas vezes explodem em forma de literatura.

Meu querido Jonan, o rio Tietê se encontra localizado em São Paulo e não no Rio de Janeiro; lá eu não sei os nomes de rios que passam pela cidade, creio que devam existir alguns, mas nunca o Tietê, esse eu tenho certeza que é bem aqui em São Paulo mesmo, eu mesma, e minhas filhas,  já fomos vítimas dele e de suas cheias, sabe, aquele momento em que você retratou tão bem, assim, quando a natureza decide pedir de volta seu  espaço e nós seres arrogantes que somos, achamos que podemos contê-la. Retificado esse lapso geográfico e feitas essas observações, quero lhe afirmar que agradeço a confiança de me pedir uma crítica literária desse seu texto. Agradeço de coração, pois a leitura é inebriante, instigante e fabulosa.

Os recortes foram precisos, os paradigmas criados a partir dos pressupostos entre o que valeria mais, se a vida do homem ou a vida do animal foram, de forma magistral, bem desenvolvidos, deixando ao leitor a missão de responder a tais questões, coisa que me encanta, pois é tão desestimulante lidar com certos textos, em que o autor, ao se julgar dono da verdade já vai metendo em nossas goelas abaixo "as suas" verdades, as suas conclusões; agradeço também por isso. Chego, sozinha, a uma conclusão, mas não ouso aqui citá-la.
Entendi a estranheza de um dos seus prefaciadores que julgando ser o livro um Tratado sobre meio ambiente (rsrsrsrsr) se depara com um livro forte e intenso a tal ponto de fazer a gente ter ataque anêmico de fome, pela total falta de vontade de sair da frente do computador para ir procurar algo para comer. Claro que se quisermos, de forma equivocada, reduzi-lo a um tratado de meio ambiente, até poderia, reitero, equivocadamente. 

Seu texto mostra a total descrença em sistemas que já se mostram, e não é de hoje, falidos! Instituições municipais, estaduais, federais, corrompidas, Ordens de profissionais que se omitem dentro das "omertás", tão bem descritas por você. "Se for conveniente, se cale". Universidades que deveriam ser templos do saber e que se corrompem com bobagens muitas vezes, nada didáticas, desperdiçando, assim, talentos natos e reduzindo-os às regras de ABNT.

Porém, algo eu não consegui decifrar: qual é exatamente o sentimento que você nutre pelas mulheres? Elas aparecem, ou como verdadeiros monumentos de sexualidade a serem vistas, desejadas, exploradas e até violentadas, OU são mulheres submissas, omissas, ciumentas, ou ainda a "Tanga de Ferro", a chefe desiludida, frustrada com dois casamentos falidos (putz! parece alguém que eu conheço! rsrsrs), quais foram as mulheres que lhe marcaram tanto assim, para que o perfil de "suas" mulheres sejam tão extremados desse jeito?  Ou assim, como Machado de Assis, em Dom Casmurro, você nos deixará a dúvida da traição? (risos)

SANTIAGO, Noemi de Mello. Historiadora, Licenciada em História e Geografia. Especialista em História do Brasil, Meio Ambiente e Filosofia.

Docente universitária para áreas de História, Filosofia e Meio Ambiente, Pós Graduação em História do Brasil pela Universidade Federal de Goiás, Pesquisadora da UFG para projeto da Usina Hidrelétrica de Canabrava-TO, EIA-RIMA na Cidade de Goiás, professora de Cursos Pré-Vestibulares e Ensino Médio. Atualmente leciona Inglês e Sociologia nos Colégios Tableau e Etip, em São Paulo, redatora da Revista Perfil Country em Goiânia-GO,  mãe de três filhas e escreve algumas coisinhas nas horas vagas.

E-mail: noemidna@hotmail.com





domingo, 24 de julho de 2011

GUEVARA E OS MORCEGOS


J. Castro[1]

DR. BRÁULIO, Terapeuta. Especialista em Casos de Depressão por Abandono de Minas de Exploração de Ferro.

O Dr. Bráulio era calvo, de pescoço esguio e boca de um sorriso obsceno. Por vezes se via fazendo analogias e traçando paralelos entre os eventos que compõem a soberba e complexa natureza humana. Acredita-se que essa faculdade não é dada a todos os conhecedores da personalidade humana, uma vez que há especialistas para cada área do conhecimento, assim como na Medicina. Mas, abrindo mão de muitos explicativos, por ora o Dr. Bráulio se vê analisando uma mina abandonada de exploração de ferro.
Basta dizer que a escultura monumental era bela, produtiva, mas talvez por um capricho dos deuses, não havia quem a explorasse em todo o seu potencial férreo. Acredita-se também que o abandono do explorador se deva à causa das tristezas, solidão e até de um começo de depressão da principal acionista daquela mina, felizmente acudida pelo cuidado quase paterno de um amigo terapeuta. Afinal, sabe-se que uma mina rejeitada é dormitório de morcegos, aranhas e até dos temíveis escorpiões. Assim, propõe-se aqui o inventário da mina em questão para o caso de algum investidor se interessar pela exploração. O potencial é muito promissor.
Situada na base de uma montanha soberba, em cujo topo sobressaíam as torres gêmeas, a caverna estava desabitada havia mais de três anos. As aranhas já haviam tecido suas teias por cima da fenda inóspita e quente daquele ambiente tachado injustamente de infértil pelo explorador incompetente. Uma gigantesca teia se emaranhava na porta da gruta, por onde não passava nada, além de morcegos sanguinários. Era uma jazida soberba e com muito potencial de exploração de ferro. Essa mina começou a ser explorada no final dos anos 90 por um investidor aventureiro, porém, inexperiente nesse ramo. Depois, gravemente endividado, o investidor fugiu para a Europa, deixando a mina abandonada. Isto justifica a consulta da principal acionista ao Dr. Bráulio. Segue aqui a transcrição do contato telefônico que antecedeu ao agendamento da sessão terapêutica:
— Alô! — ela disse.
— Alô! Dr. Bráulio, bom dia! — Em que posso ser útil?
— Não sei se posso dizer o mesmo — ela disse choramingando. O Dr. Bráulio percebeu que aquele caso tinha tudo para ser um caso difícil. Ele não se dignou a questionar o motivo. Ele sabia que quando uma cliente o procurava era porque estava à beira do precipício. Ele resolveu ganhar tempo:
— A propósito, estava indo para o lanche. — Gostaria de me acompanhar?
— Não, obrigada! — Ela agradeceu. Ele a incentivou:
— Você nem faz ideia, mas estou comendo pão com margarina e açúcar refinado. Aceita? — ela parecia bem mais solta agora.
— Eu, hein? Que cardápio é este —, pão, margarina e açúcar refinado? — ela perguntou um tanto admirada. Afinal, ela desconhecia aquele cardápio. Ele confirmou, mas já direcionando o foco da entrevista para o motivo que a fizera ligar para ele.
— Isto mesmo... Já que não tem pizza... — Ela reagiu à provocação. Afinal, ela estava brocada de fome.
— Pizza? E eu? — Você não pensa em mim? — O que acha que vou comer? Afinal, ela estava faminta, desamparada, abandonada. E ainda com a mina entrelaçada de teias de aranha. Ela continuou o desabafo:
— Você come pizza todos os dias, come pêra e, ainda escala as torres gêmeas. E eu? — ela estava quase gritando.
— Você me oferece pão com margarina e açúcar, é? Hummm! Estou arrasada! Realmente ela estava muito magoada. Foi então que o Dr. Bráulio mostrou a que veio:
— Está bem, desculpe. Olhe, de princípio vou enviar uma cobra bem grande para correr com os morcegos da sua caverna! — Ela riu. Parecia que o doutor acertou na mosca. Ainda rindo, ela disse:
— Acho que não precisa. Coitadinhos dos morceguinhos! Podem se assustar com a cobra. Tenho dó! O doutor ponderou que realmente era muito difícil entender a personalidade feminina. No entanto, ele não se deixou intimidar:
— Tendo uma caverna tão aconchegante, apesar de estar abandonada, até hoje você ainda se assusta com cobras?
— Às vezes me assusto, mas a verdade é que me sinto atraída por elas. Ela riu sem graça. O terapeuta aconselhou:
— Quando você vir a cobra se aproximando da sua caverna, é só gritar bem forte:
— Che Guevara! Os morcegos morrem de medo!
— Ela agora riu escandalosamente. Meu Deus! Isto é incrível!
— É tão simples assim?
— Claro! Acredite! Eles não resistem. É só gritar lá do fundo da caverna.
— Mas tem que ser esta frase? — ela perguntou ainda incrédula, devido à simplicidade da terapia.
— Sim. Não pode ser outra. — Ele explicou:
— Che Guevara foi um guerreiro muito temido. Ele explorou muitas cavernas inóspitas, outras foram conquistadas por força das armas, por isto os morcegos morrem de medo dele. Era só ele chegar e punha os morcegos todos para correr. Ela contra-argumentou:
— Mas, se eu gritar assim, estarei morta antes de fechar a boca.
— Por quê? Você ainda tem muito medo, ou a cobra é muito grande?
— Na verdade, a cobra é pequena, talvez por isto pareça inofensiva — ela confidenciou. Os morcegos não ligam muito para ela. Então o terapeuta ensinou:
— Faça o seguinte: Dê uns piparotes na cabeça dela para enraivecê-la. Ela fica rija como as najas do Egito. Assim ela tende a parecer maior do que parece. Mas tenha muito cuidado com a naja cuspideira. Ela atinge, principalmente, a boca e os olhos. O Dr. Bráulio percebia que a moça devorava as palavras dele agora. Ele continuou:
— Depois que ela estiver bem nervosa, prestes a cuspir você a introduz dentro da caverna. Não há morcego que resista — finalizou.
— Obrigada, doutor! — e desligou rindo.


[1] REIS, Jonan de Castro. Poeta, contista e romancista. Autor de Arremedo: contos & Lorotas e Marcas do Infortúnio (romance). Membro da Academia de Letras do Brasil – ALB, membro da Academia de Letras do Extremo Sudoeste de Goiás – ALESG, membro da Associação de Poetas Del Mundo.