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domingo, 24 de julho de 2011

GUEVARA E OS MORCEGOS


J. Castro[1]

DR. BRÁULIO, Terapeuta. Especialista em Casos de Depressão por Abandono de Minas de Exploração de Ferro.

O Dr. Bráulio era calvo, de pescoço esguio e boca de um sorriso obsceno. Por vezes se via fazendo analogias e traçando paralelos entre os eventos que compõem a soberba e complexa natureza humana. Acredita-se que essa faculdade não é dada a todos os conhecedores da personalidade humana, uma vez que há especialistas para cada área do conhecimento, assim como na Medicina. Mas, abrindo mão de muitos explicativos, por ora o Dr. Bráulio se vê analisando uma mina abandonada de exploração de ferro.
Basta dizer que a escultura monumental era bela, produtiva, mas talvez por um capricho dos deuses, não havia quem a explorasse em todo o seu potencial férreo. Acredita-se também que o abandono do explorador se deva à causa das tristezas, solidão e até de um começo de depressão da principal acionista daquela mina, felizmente acudida pelo cuidado quase paterno de um amigo terapeuta. Afinal, sabe-se que uma mina rejeitada é dormitório de morcegos, aranhas e até dos temíveis escorpiões. Assim, propõe-se aqui o inventário da mina em questão para o caso de algum investidor se interessar pela exploração. O potencial é muito promissor.
Situada na base de uma montanha soberba, em cujo topo sobressaíam as torres gêmeas, a caverna estava desabitada havia mais de três anos. As aranhas já haviam tecido suas teias por cima da fenda inóspita e quente daquele ambiente tachado injustamente de infértil pelo explorador incompetente. Uma gigantesca teia se emaranhava na porta da gruta, por onde não passava nada, além de morcegos sanguinários. Era uma jazida soberba e com muito potencial de exploração de ferro. Essa mina começou a ser explorada no final dos anos 90 por um investidor aventureiro, porém, inexperiente nesse ramo. Depois, gravemente endividado, o investidor fugiu para a Europa, deixando a mina abandonada. Isto justifica a consulta da principal acionista ao Dr. Bráulio. Segue aqui a transcrição do contato telefônico que antecedeu ao agendamento da sessão terapêutica:
— Alô! — ela disse.
— Alô! Dr. Bráulio, bom dia! — Em que posso ser útil?
— Não sei se posso dizer o mesmo — ela disse choramingando. O Dr. Bráulio percebeu que aquele caso tinha tudo para ser um caso difícil. Ele não se dignou a questionar o motivo. Ele sabia que quando uma cliente o procurava era porque estava à beira do precipício. Ele resolveu ganhar tempo:
— A propósito, estava indo para o lanche. — Gostaria de me acompanhar?
— Não, obrigada! — Ela agradeceu. Ele a incentivou:
— Você nem faz ideia, mas estou comendo pão com margarina e açúcar refinado. Aceita? — ela parecia bem mais solta agora.
— Eu, hein? Que cardápio é este —, pão, margarina e açúcar refinado? — ela perguntou um tanto admirada. Afinal, ela desconhecia aquele cardápio. Ele confirmou, mas já direcionando o foco da entrevista para o motivo que a fizera ligar para ele.
— Isto mesmo... Já que não tem pizza... — Ela reagiu à provocação. Afinal, ela estava brocada de fome.
— Pizza? E eu? — Você não pensa em mim? — O que acha que vou comer? Afinal, ela estava faminta, desamparada, abandonada. E ainda com a mina entrelaçada de teias de aranha. Ela continuou o desabafo:
— Você come pizza todos os dias, come pêra e, ainda escala as torres gêmeas. E eu? — ela estava quase gritando.
— Você me oferece pão com margarina e açúcar, é? Hummm! Estou arrasada! Realmente ela estava muito magoada. Foi então que o Dr. Bráulio mostrou a que veio:
— Está bem, desculpe. Olhe, de princípio vou enviar uma cobra bem grande para correr com os morcegos da sua caverna! — Ela riu. Parecia que o doutor acertou na mosca. Ainda rindo, ela disse:
— Acho que não precisa. Coitadinhos dos morceguinhos! Podem se assustar com a cobra. Tenho dó! O doutor ponderou que realmente era muito difícil entender a personalidade feminina. No entanto, ele não se deixou intimidar:
— Tendo uma caverna tão aconchegante, apesar de estar abandonada, até hoje você ainda se assusta com cobras?
— Às vezes me assusto, mas a verdade é que me sinto atraída por elas. Ela riu sem graça. O terapeuta aconselhou:
— Quando você vir a cobra se aproximando da sua caverna, é só gritar bem forte:
— Che Guevara! Os morcegos morrem de medo!
— Ela agora riu escandalosamente. Meu Deus! Isto é incrível!
— É tão simples assim?
— Claro! Acredite! Eles não resistem. É só gritar lá do fundo da caverna.
— Mas tem que ser esta frase? — ela perguntou ainda incrédula, devido à simplicidade da terapia.
— Sim. Não pode ser outra. — Ele explicou:
— Che Guevara foi um guerreiro muito temido. Ele explorou muitas cavernas inóspitas, outras foram conquistadas por força das armas, por isto os morcegos morrem de medo dele. Era só ele chegar e punha os morcegos todos para correr. Ela contra-argumentou:
— Mas, se eu gritar assim, estarei morta antes de fechar a boca.
— Por quê? Você ainda tem muito medo, ou a cobra é muito grande?
— Na verdade, a cobra é pequena, talvez por isto pareça inofensiva — ela confidenciou. Os morcegos não ligam muito para ela. Então o terapeuta ensinou:
— Faça o seguinte: Dê uns piparotes na cabeça dela para enraivecê-la. Ela fica rija como as najas do Egito. Assim ela tende a parecer maior do que parece. Mas tenha muito cuidado com a naja cuspideira. Ela atinge, principalmente, a boca e os olhos. O Dr. Bráulio percebia que a moça devorava as palavras dele agora. Ele continuou:
— Depois que ela estiver bem nervosa, prestes a cuspir você a introduz dentro da caverna. Não há morcego que resista — finalizou.
— Obrigada, doutor! — e desligou rindo.


[1] REIS, Jonan de Castro. Poeta, contista e romancista. Autor de Arremedo: contos & Lorotas e Marcas do Infortúnio (romance). Membro da Academia de Letras do Brasil – ALB, membro da Academia de Letras do Extremo Sudoeste de Goiás – ALESG, membro da Associação de Poetas Del Mundo.

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