Noemi de Mello Santiago[1]
(Mauá, 28 de abril de 2011)
Tarde fria desse dia, acabei de receber seu livro. Desempregada, mãe de três filhas, tenho tentado me concentrar nos afazeres domésticos, até mesmo, para tentar driblar as preocupações inerentes à minha própria vida.
Pois bem, logo após “preparar” a casa para uma faxina, (imagine a cena) — o carteiro se fez presente em meu portão. Ao visualizar o envelope pardo, o coração acelerou, o sorriso se abriu, já sabia do que se tratava. Avidamente abri o envelope — o grande sorriso tornou-se imenso ao ver que tinha uma dedicatória; mais do que saber que algumas linhas ali dentro, inseridas em algum texto, que eu não sabia qual, falavam de mim, ainda assim, tinha uma dedicatória. Sou leitora ávida, sou de certa forma “canibal” também, nada me passa despercebido.
Li, suguei cada palavra, não me contentei somente com a leitura, ternamente corri os dedos por cima daquele texto- aliás isso já se tornou hábito ao receber qualquer texto seu. É como se, ao passar os dedos por cima daquilo que você escreveu de próprio punho, eu pudesse sentir o carinho com o qual você escreveu, e, como se pudesse mais do que ler, mas “sentir” a vibração e “ouvir” o que as palavras “gritam” a cada pequeno texto.
Detenho-me no seu nome, na sua rubrica, beijo-a, beijo-a novamente. Imagem que quem a visse, acharia uma estupidez, mas para mim fazia todo o sentido. Uma assinatura é o resumo da pessoa é a forma reduzida de dizer... Este sou todo (a) eu. Então, pensando nisso, beijo todo você — por segundos, amo todo você.
A faxina foi completamente paralisada, agora, busco espaço entre a bagunça da sala, onde, desajeitadamente me sento. E, como uma pessoa faminta, ao ter um prato de comida fresca, fumegando, bem-feita, bem-temperada, e suculenta, já se poria a comê-la, eu devoro aquele livro.
Alguns textos eu já conhecia, outros, são para mim, incríveis novidades, vou me aprofundando não só nos textos, como nas minhas próprias lembranças, de perceber ali, muitas experiências que me foram contadas em noites quentes, entre sussurros, e segredos. Até que, vem o auge de minha emoção- me reconhecer num parágrafo. Foi chocante foi duro, foi sublime. Levou-me às lágrimas. A primeira coisa que me passou pela cabeça foi agradecer: “obrigada pelo anonimato”. Não que saibam o que se passou entre nós, nunca escondi de ninguém — mas obrigada por ter me preservado da dor de saber que fui embora, deixando na porta uma caixinha, quisera eu ter nessa caixa, a exemplo de Pandora[2], todas as respostas para todas as perguntas que até hoje, não se calaram.
Leio novamente o texto, agora em voz alta para minha filha. Ela respira fundo e me inquire sobre a caixa. Ah! Aquela caixa de novo! Quisera eu que, ela, (a caixa), tivesse as respostas!
Não contente, leio o texto pela terceira vez e, as lágrimas quentes destoam da tarde fria, do rosto frio. Elas caem insistentes, me lembram, me machucam com os projetos adiados ou esquecidos.
“Vamos ter um filho?”, (...) “Mulher minha tem que trazer no ventre, um filho meu.” (...), passando a mão carinhosamente pela minha barriga. “Vamos escrever um texto juntos?” (...) “Vamos morar juntos?” e as lágrimas rolam se encontram no queixo e ainda conseguem encontrar a blusa mais abaixo. Recomponho-me e continuo a ler. Mas como?
Aqueles versículos — a maioria meus favoritos — a maioria expressando meus próprios conceitos. Como? Eu sabia dessa afinidade espiritual?
— Não, eu não sabia. Tinha apenas a certeza de que, como bons filhos do mesmo Pai, que como “crentes” na Verdade do Altíssimo, tínhamos algo em comum, mas não imaginava que era tanto! O livro termina, amo o posfácio — não conheço quem o escreveu, mas já sei que o admiro. O livro terminou, e eu. . . Eu estou aturdida, inebriada, tonta mesmo.
A vontade de começar tudo de novo me assalta, mas começar por onde?
— Começar voltando para Cacoal-RO, onde tudo começou?
— Começar a tentar dar respostas, onde nem as perguntas se fazem mais audíveis?
— Não sei.
O tempo passou, o sentimento não passou — os estados mudaram – os estados geográficos — os estados civis — os estados de humor. Só uma coisa não muda: minha vontade de que você seja cada vez mais você! Inteligente, perspicaz, atrevido em procurar mais conhecimentos, destemido, intrépido, maluco até!
Um dia te disse que você parecia Dom Quixote. — Ainda dá tempo de ser sua Dulcinéia? Agora estou aqui, saí correndo para procurar papel e caneta. Mandei mensagem SMS agradecendo o livro, dizendo que ia lhe escrever algo. Acho que as folhas amareladas do velho caderno universitário vieram a calhar, rompendo em sentimentos confusos escrevo e erro algumas vezes, mas me recuso a passar a limpo, sinto que você também deva sentir o tamanho de tudo aquilo que se passa dentro de mim. E a cada erro aqui (corrigido ou não), lembro da minha condição de ser humano em construção.
A caneta se move num balé esquisito, quase que sozinha, independente, escreve, e escreve, meus sentimentos ficam à mostra — estou despida emocionalmente.
Imagino o que se passará em sua mente e coração, quando ler tudo isso.
— O que está passando?
— Não sei! Termino aqui deixando um versículo que eu amo e que me traduz: Ainda que eu fale a língua dos homens e dos anjos sem amor eu nada seria. (I Cor.13).
Apenas continue seu caminho, você já está na trilha do sucesso.
[1] SANTIAGO, Noemi de Mello. Jornalista – São Paulo – SP.
[2] Foi a primeira mulher que existiu, criada por Hefesto (deus do fogo, dos metais e da metalurgia) e Atena (deusa da guerra, da civilização, da sabedoria, da arte, da justiça e da habilidade) auxiliados por todos os deuses e sob as ordens de Zeus. Cada um lhe deu uma qualidade. Recebeu de um a graça, de outro a beleza, de outros a persuasão, a inteligência, a paciência, a meiguice, a habilidade na dança e nos trabalhos manuais. Hermes, porém, pôs no seu coração a traição e a mentira. Feita à semelhança das deusas imortais, destinou-a Zeus à espécie humana, como punição por terem os homens recebido de Prometeu o fogo divino. Foi enviada a Epimeteu, a quem Prometeu recomendara que não recebesse nenhum presente dos deuses. Vendo-lhe a radiante beleza, Epimeteu esqueceu quanto lhe fora dito pelo irmão e a tomou como esposa.
Ora, tinha Epimeteu em seu poder uma caixa que outrora lhe haviam dado os deuses, que continha todos os males. Avisou a mulher que não a abrisse. Pandora não resistiu à curiosidade. Abriu-a e os males escaparam. Por mais depressa que providenciasse fechá-la, somente conservou um único bem, a esperança. E dali em diante, foram os homens afligidos por todos os males.
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