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quinta-feira, 11 de agosto de 2011

A TÍTULO DE JUSTIFICATIVA


 JONAN DE CASTRO REIS. Justificativa do autor pela sabatina de Noemi de Mello Santiago por ocasião da análise crítica ao Livro Marcas do Infortúnio, Goiânia: Kelps, 2010, de minha autoria.


Sinceramente, estou até agora sem palavras pela sua valiosa contribuição ao entendimento de meu livro Marcas do Infortúnio. Não é tarefa muito fácil escrever para um público exigente e crítico, um público que já viu, ouviu, leu e viveu várias situações ao longo da vida e que, por tudo isto, conforme salienta o prof. Dr. Ravel: " é capaz de surpreender detalhes sórdidos nas unhas mais lustrosas ". Só de pensar que é a este público que me dirijo, me dá calafrios na espinha! Mas agora nada de recuar, não é mesmo?
Eu não poderia deixar de enfatizar e de rir um pouco devido ao drama pelo qual passou na frente do computador. Realmente foi bem feito pra você, porque eu quisera ter lhe enviado o livro impresso, mas não sei se você se lembra que instou, dizendo que preferia ler na telinha... Por isso, bem feito, bem feito! (rsrsrs) Além disso, eu sempre me regozijarei pelo seu depoimento de que o livro é bom, que lhe privou de se alimentar em prol da continuidade da leitura que, no seu valioso julgamento, é uma leitura interessante.
No entanto, não sei se posso concordar com você a respeito de que Deus ouvia música quando construía o mundo em que vivemos. O que a Bíblia Sagrada nos afirma é que o Universo era sem forma e vazio, a não ser pelo turbilhão de águas e que o espírito de Deus se movia sobre a face das águas. Noutra parte diz que a voz de Deus é como a voz de muitas águas. Você já ouviu o som de uma cachoeira? É uma música que a gente nunca se cansa de ouvir, pois não fere a nossa audição. Além do mais, ainda traz uma verdadeira paz interior. Neste sentido, acredito que Deus não ouvia música, mas ele era a própria música caracterizada pelo ruído das águas e pelo assobio do vento nas ondas.
Quanto aos desconfortos...
Desculpe tê-la irritado com os nomes de meus personagens. O estilo não tem nada a ver com preferência por estrangeirismos. Afinal, sou um bom brasileiro. A verdade é que gosto de nomes curtos e aqueles foram os que me vieram à mente quando da criação dos personagens. Só agora é que me dei conta de que são nomes estrangeiros. No entanto, terei maiores cuidados ao nomear outros atores de meus cenários.
Quanto aos adjetivos...
Bem... É preciso levar em consideração que o autor é ainda um artista amador das narrativas e, na intenção de agradar a uma personagem, ele a qualifica de bombom, de boneca e outros, cujos lapsos os leitores terão de desculpar como meras tentativas de ser amável.  Se me permite dizer, eu acho que nasci (enquanto escritor) pelo lado errado. Explico: eu comecei a escrever a partir dos textos mais complexos para os mais simples. É como desenvolver a estatura solo adentro. Enquanto muitos escritores iniciam-se com poemas de amor, depois os contos iniciados com "era uma vez..." e terminam em "e viveram felizes para sempre...", eu comecei a escrever enfrentando, logo de cara a narrativa longa e crítica, no caso o romance. Hoje, se fosse refazê-lo, com certeza teria outra abordagem. Na verdade, como eu o publiquei depois da coletânea de contos, eu até pensei em modificá-lo, mas eu quisera deixar essa discussão quanto ao meu crescimento para o próprio leitor avaliar. Você só foi muito feliz ao perceber essa lacuna e denunciá-la em primeira mão, o que mostra que você é uma leitora crítica e antenada. Meu livro não poderia estar em melhores mãos...
No entanto, acredito que você levou a leitura muito a sério, pois chegou ao extremo de colocar o escritor na berlinda. Você se aproveitou de um momento de fraqueza do escritor e o analisou em primeiro plano, em detrimento da obra propriamente dita. Eu quisera ter ficado à margem desta análise, ou, em outras palavras, no mínimo em um ângulo privilegiado – o mesmo ângulo que me coloco quando escrevo os meus textos. Mas, como todo questionamento sugere uma explicação, o apelo sexual se deve ao fato da simpatia ou antipatia que o autor nutre para com suas personagens. Ao criar o perfil de uma personagem, às vezes o autor simpatiza com ela a ponto de levá-la para a cama, se me permite essa absurda metáfora. Outra vez, ele a elege para lançar sobre ela todo o desprezo que sente com relação aos eventos que maculam a humanidade, como o sexo obsessivo e brutal, a ambição, a maldade, a inveja, bem como outros vícios e virtudes que grassam na personalidade humana. A verdade é que alguém tem que pagar por isso, daí os extremos. No entanto, a minha admiração pelas mulheres é lendária, o que tem me levado a até padecer certas agruras sob a língua afiada da sociedade hostil e preconceituosa. Ossos do ofício! (rssrs).
Quanto ao lapso geográfico sobre o rio Tietê, que possivelmente cortaria a cidade do Rio de Janeiro, sinceramente eu lamento. Quando lá estive não sei por que cargas d´água ficou gravado em minha mente esse nome. Depois fiz uma pesquisa e, talvez por má interpretação do mapa ou por uma fonte não confiável, ficou registrado (na minha cabeça) como Tietê, o rio realmente poluído que empresta sua face macabra para ilustrar uma das principais vias de acesso à Cidade Maravilhosa. Prometo tirar isto a limpo quando da reedição do livro.
Chego, sozinha, a uma conclusão, mas não ouso aqui citá-la. Como gostaria de conhecer a que conclusões você chegou, mas não sou curioso, de forma alguma... mas, o que foi mesmo? Tudo bem, eu nem queria saber mesmo!... (droga! Rsrsrs!)
Cara Noemi, você tocou em um ponto muito sensível de meu livro. Vou tentar explicar: as mulheres de meus contos, do meu romance são mulheres que fazem parte de uma complexa sociedade. Não leve pelo lado pessoal. Minhas “mulheres”, como você mesma diz são parte de um emaranhado social em que as mulheres, ao se libertarem das amarras do paternalismo se lançam ao campo de trabalho de igual para igual em relação ao homem. No entanto, são seres que choram, que riem, que amam, que sofrem, que competem, que esbofeteiam, que proferem palavrões, que vivem o dia-a-dia como qualquer homem em busca do seu lugar no competitivo mercado de trabalho. O fato de elas serem mulheres não significa muito, em se tratando da conquista do seu espaço social e afetivo. Elas são seres sociais competitivos e aguerridos. São seres que exploram e são explorados, são mulheres que desejam ao mesmo tempo são desejadas. São mulheres que abandonam seus maridos em prol de seus e de suas amantes. Enfim, são seres demasiado humanos – o que torna um vício ou uma virtude social. O que faço em meus textos é apenas retratá-las de forma realista. Assim, não há traidor nem traído, não há mocinho nem vilão no caminho do autor de Marcas do Infortúnio. Eu quisera apenas que o meu livro fosse interpretado pelo que ele representa para a sociedade, sem essa especulação provocativa se o livro é uma autobiografia de quem o escreveu. Acredito que os meus leitores já superaram também essa crise de identidade entre autor e obra em prol de uma identidade maior e mais crítica: obra e sociedade.
A você, cara amiga, a minha admiração pela inteligência e perspicácia. Rendo os meus agradecimentos por você ter se dado ao trabalho de ler e comentar o meu livro. Aos leitores, o meu sincero e devido respeito, pois sei que não se pode subestimar a inteligência e a capacidade de análise crítica dos leitores. E é justamente a este público crítico que escrevo.
Percebi que você é uma leitora atenta, pois enxergou detalhes até então conhecidos apenas pelos personagens do meu livro. Acredito que muitos leitores ainda precisam deste incentivo para se posicionarem frente à tríade que patrocina a literatura crítica: autor/obra/sociedade.

Grande abraço

J. Castro

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