REIS, Jonan de Castro[1]
Exótica
e elegante, a orquídea é um ornamento muito cobiçado pelos colecionadores que
devassam florestas e pântanos em busca da flor perfeita para cada ocasião. Os
significados principais dessas plantas ornamentais são o simbolismo que evocam
uma beleza rara, digna dos deuses gregos. A delicadeza de seus encantos e o misticismo
que envolve sua história faz dessas flores um objeto precioso aos olhos de quem
as recebem. Assim, poucas são as flores capazes de exprimir tais sentimentos. No
entanto, as Walquírias, as Isabelias têm o poder de exprimir os mais complexos
sentimentos de lisonja e admiração.
Via
de regra, essas orquídeas possuem uma história recheada de mistérios, cujos
significados vão desde a fecundidade, o luxo e a força até um terrível sentimento
de vingança. Esta última característica, por sua vez, é muito bonita e possui
um nome forte: Cattleya. Cada flor
com seus mistérios e seus espinhos, cada qual com sua história e sua dor, as
orquídeas expressam todo e qualquer sentimento que traduz a personalidade do
homem diante de uma mulher. Sua aparência graciosa tem o poder de atrair ou
desviar a atenção imediata a um determinado foco e, por se tratar de uma flor
exótica e incomum, evoca um sentido de refinamento e de inocência. Algumas
possuem o formato das Trompas de Falópio, cujo significado sugere a fecundidade
da mulher, enquanto para o homem expressa o sentimento de amor para com o sexo
frágil e delicado. Todavia, todo homem sensato treme diante da sagacidade e da
periculosidade de Cattleya, o anjo da vingança das mulheres.
Desde
a descoberta do fruto proibido, a mulher carrega uma maldição, mas pode
descarrega-la sobre qualquer um que tente quebrar o pacto de fidelidade para
com ela. Neste caso específico, a orquídea carrega em seu significado uma
maldição que jaz adormecida, mas que é capaz de seguir o homem delinquente por
onde quer que ele ande.
A
verdade é que um desavisado cantor regional, talvez por falta de intimidade com
a alma feminina ou mesmo por falta de refinamento poético e musical, ao evocar
o refrão “que pescar que nada/vou beijar na boca”, fez despertar a maldição que
jazia adormecida desde o extermínio da família de Cattleya, do filme “Colombiana:
em busca de vingança”. Desta forma, a reconciliação entre a mulher ultrajada e
o pescador geralmente se dá em função da doação de uma orquídea. No filme em
questão, a linda moça assina sua vingança com o desenho de uma orquídea, feita
com batom da cor de sangue. Muito cuidado! A vingança é uma moça linda e
sensual e assina pelo nome de Cattleya.
***
—
Amor, amanhã estou indo pescar com os meus amigos.
—
Amanhã? Alarmou-se Liza. Por que não fica em casa? É aniversário de casamento, não
se lembra?...
—
Claro que me lembro — mentiu o marido, o que tornava a situação ainda mais extravagante.
É que já fizemos as compras, e eu dei minha palavra de que iria com eles. Não
vai faltar ocasião para comemorarmos o nosso casamento, não é? Para ele, aquilo
era uma promessa. Mas, para ela...
—
Tudo bem — sentenciou. Estava lançada a maldição. Para um homem conhecedor da
alma feminina, não há quem não volte atrás de suas decisões ao ouvir esta
sentença proferida por uma mulher quando esta discorda de algo. Cattleya. A
orquídea Feiticeira, a deusa protetora das mulheres ultrajadas foi contatada e
se pôs ao inteiro dispor de sua protegida. E o desavisado marido se foi.
Naquela
época do ano, o rio Araguaia encantava os seus visitantes com belas praias onde
as arraias brincavam a cada manhã. Grandes bancadas de areia se formavam ao
lado das quais a correnteza deslizava com uma força dissimulada. Fazia muito
calor. Que pescar que nada!...
Non
tirou a roupa e mergulhou naquela falsa quietude. Bom nadador que era ele
girava rapidamente e voltava para a segurança da bancada de areia, sem, no
entanto, pisar o chão arenoso. A água estava fresca, e o moço se deliciava com
aquela carícia. Em uma das vezes, ele ultrapassou a marca da arrebentação e, ao
tentar voltar para a praia foi tomado pelas garras da correnteza que deslizava
com uma potência arrebatadora. Apesar de saber nadar muito bem, o moço não
conseguia sair do lugar. Ele se debatia e tentava alcançar a praia. Nadava. Nadava.
E nada. Cattleya sugava-lhe as forças, sufocando sua respiração. Foi então que
o moço percebeu que ia morrer. Casado recentemente, ele se lembrou do olhar de
súplica da esposa, do sorriso das filhas, tão pequenas e indefesas a pedirem a
sua proteção. Será por quem elas seriam criadas? — especulou-se. Era inútil
lutar contra aquela força sobrenatural. Num vislumbre de consciência, ele se
deixou levar pela correnteza, orientado por um exímio nadador, seu amigo, enquanto
ele próprio se punha de costas e tentava descansar um pouco.
Vendo
sua vítima totalmente entregue aos cuidados da morte, Cattleya relaxou a
pressão sobre o seu pescoço. Foi o tempo exato para Non recuperar o fôlego e dar
umas poucas braçadas para sair do domínio da correnteza que o atraía para as
profundezas daquele inferno. Ao sair para a rasura da praia ele se deitou na
areia e puxou com força o ar que jazia preso pelos tentáculos de Cattleya. Como
lembrança desse dia quase fatídico, ele levou para a esposa uma orquídea como
reparação do ultraje que quase culminou em sua morte. A fúria de Cattleya se
aplacou.
***
Mas
o seu amigo “Pernalonga” não havia tomado conhecimento desse ocorrido. Uma
reunião no botequim com os amigos foi um ótimo motivo para driblar a vigilância
da esposa. Como a maioria dos homens, ele também gostava de pescaria. No
entanto, ao tentar convencer a esposa a ir com os amigos para o Pantanal, Mara protestou,
mas o moço insistiu.
—
Tudo bem, então — ela concedeu, com uma ressalva:
—
Cem reais para o salão, e você poderá ir. Ele relutou em pagar. Afinal, não era
ele quem bancava as despesas dela? Essa relutância irritou Cattleya. Muito
contrariado, ele pagou, mas a sentença já havia sido decretada. No dia da
viagem, algo saiu errado e a turma não foi pescar. Pernalonga quis reaver o dinheiro,
mas a mulher não quis abrir mão. Foi um negócio. Em seu íntimo o moço prometeu se
vingar. No entanto, ninguém ofende a honra de Cattleya e fica impune.
A
oportunidade que ambos esperavam aconteceu no final da Quaresma, precisamente
na Quinta-feira das Dores. A esposa saiu para o trabalho e ele para o rio do
Peixe com os amigos. Apenas um bilhete escrito num pedaço de papel higiênico
indicava para onde o marido tinha ido. Um descabimento. Mara chorou de desgosto,
especulando onde ela tinha errado, para que o marido fizesse aquilo com ela.
Cattleya não gostou da atitude do marido e abriu todas as comportas dos rios e
córregos que desaguavam no rio do Peixe, provocando uma assustadora enchente. O
rio transbordava em todas as suas ribanceiras. Onde havia barrancos de quatro
ou cinco metros, restavam apenas uns poucos centímetros para entornar. Mesmo
assim o acampamento foi armado a uns dez quilômetros abaixo do ponto de
desembarque, numa única clareira disponível ao longo do rio transbordante e
espumoso.
Ao
terceiro dia, a clareira foi tomada pelas águas que sangravam de quatro pontos no
rio e escoavam ao fundo por apenas um ponto. Pouco depois, as águas que escoavam
ao fundo já haviam preenchido todo o vão da vazante e já estavam retornando,
perfazendo a quinta sangria para o acampamento rústico onde o acampamento se
levantava. Tinha que fazer alguma coisa enquanto ainda havia tempo. Pernalonga
se lembrou da esposa, viu suas lágrimas deslizarem pelo seu rosto bonito e se
desesperou. Ele precisava urgentemente reparar aquela ofensa. Aquilo foi um
erro, ele agora sabia. Uma loucura que ele prometeu nunca mais fazer. E a cada
minuto as águas subiam e se fechavam em volta das barracas.
Desafiando
a correnteza e os perigos do rio, ele vasculhou a floresta ribeirinha alagada à
procura de uma orquídea. Era a única coisa que poderia salvar o seu casamento e
sua pele, dada a sensibilidade da esposa para com a delicada flor que emerge da
orquídea. Fugindo do ataque das arraias, ele encontrou o que procurava: uma
linda orquídea, com um cachinho de flor, uma graça. Ele a apanhou e contemplou
a sua beleza. Era pouco mais que a palma de sua mão. Ele levou-a para o
acampamento e colocou-a em cima de sua barraca. Vez por outra ele passava,
olhava para a orquídea e sorria agradecido, pois sabia que aquele gesto iria
salva-lo de dormir no couro de boi. Ele conhecia ou pensava conhecer sua mulher. No entanto, Cattleya o
conhecia muito bem e resolveu tortura-lo ainda mais.
A
mudança repentina do acampamento culminou com o desaparecimento da orquídea.
Era uma maldição dos deuses, só podia ser. O homem até então confiante se
desesperou. Cattleya ria, escondida no meio da vegetação.
—
Acredito que ela foi jogada no rio — alguém insinuou. Ele foi à margem do rio e
procurou em toda a extensão do acampamento, inclusive rio acima. Do jeito que
ele estava azarado, nada era impossível. Nada. Os companheiros riam. Mas só ele
sabia o quanto aquela pequena planta era importante para ele. Um dos amigos
sugeriu:
—
Vamos lá do outro lado do rio procurar outra. Mas ele sabia que jamais acharia
outra igual aquela. Afinal, ele conhecia sua mulher e sabia que só aquela
orquídea iria salva-lo. E continuou a procurar. Um terceiro do grupo
acusou em tom de brincadeira:
—
Eu vi o Coelho jogar sua orquídea no rio. Pior era que o Coelho tinha uma cara parecida
com cara de coelho, de moleque que fazia arte e punha a culpa nos outros. Todos
riram. Coelho ficou sério. Foi então que Pernalonga fez o último apelo, já com um nó na
garganta:
—
Olha, se você jogou fora pode me falar, assim eu não preciso ficar procurando feito um
palhaço. O caso era mesmo muito grave. Mas só depois de quase uma hora de busca é que a
orquídea foi encontrada debaixo da lona do acampamento, ainda intacta, pois o
espírito de Cattleya soube defende-la dos cinco pares de pés que pisoteavam o
pouco espaço enxuto que ainda restava ali. Todavia, Cattleya continuou a tortura-lo.
A honra se paga com sangue. Era uma jura de morte. Assim, uma forte náusea
acometeu o rapaz, fazendo-o vomitar quase a última gota de suco biliar. O cara
realmente estava acabado. Um gélido suor escorria de sua testa. O cara era só um monte de perna que tentava sustentar um tronco encurvado
sobre um monte de areia, no quintal de uma fazenda. Era Cattleya cobrando sua
honra.
Como
não bastasse, a volta para casa foi feita sob um dilúvio sem tréguas. O enxurro
vindo do Morro de Mendanha impedia o avanço do veículo, apesar de ser uma Ford
Ranger traçada. As pernas das calças foram dobradas até o meio das canelas, mas
a orquídea, até então posta sob o boné de abas viradas para trás, agora era
trazida aconchegada ao peito, numa atitude de carinho e respeito. Pelo visto Pernalonga ia
rezando baixinho "Por favor, Deus, salve-me"!
Cada
qual com seus problemas, os amigos acharam por bem deixarem o moço resolver
suas próprias diferenças com a mulher. Cattleya saberia como resolver
aquela pendenga, até porque aquela briga só a eles diziam respeito. Então era
melhor ficar fora!
[1] REIS, Jonan de
Castro. Poeta, contista e romancista. Autor de Arremedo: Contos & Lorotas e
Marcas do Infortúnio. Membro da Academia de Letras do Extremo Sudoeste de
Goiás, membro da Academia de Letras do Brasil – ALB, membro dos Poetas Del
Mundo e Cônsul no Entorno de Quirinópolis – GO.

Nenhum comentário:
Postar um comentário