REIS, Jonan de
Castro[1]
Até hoje Gabriel não conseguiu
entender a atitude de Ângela. Nem mesmo conseguiu interpretar o manual de sua
mulher. A Filosofia nem sequer tentou explicar a complexidade e mistério que envolve
o coração e a cabeça de uma mulher.
Certo dia, caminhando por
um bosque, um amigo propôs a Schopenhauer, um grande filósofo alemão o seguinte
desafio:
— Por que não tenta
conhecer as mulheres, os mistérios que as envolvem, o que pensam e o que as fascinam?
Talvez pudesse escrever um manual. Ele respondeu prontamente:
— “A vida é tão curta,
duvidosa e evanescente que não vale a pena preocupar-se com grandes esforços”.
Considerado um homem
pessimista, a verdade é que o autor dessa recusa não queria se dar ao trabalho
de quebrar a cabeça com uma sentença acima de sua capacidade. Uma sentença para
a qual não havia teoria para se embasar. Talvez por essa razão Goethe tenha lhe
dedicado este dístico: “se desejares encontrar prazer na vida, deves atribuir
valor ao mundo”. Se analisada com maior rigor, a recusa de Schopenhauer é mais
realista do que pessimista, visto que nem mesmo Salomão com toda a sabedoria ousou
mapear o sentimento de uma mulher, ainda que tivesse em suas mãos o coração de
mil mulheres.
É importante observar que
tanto Salomão quanto Schopenhauer não padeciam privações por falta de recursos
materiais, pois ambos possuíam riquezas em abundância. O que os tornava
singular em relação ao outro é que o filósofo alemão era indiferente às coisas
simples da vida, enquanto Salomão cantou as aves, as flores, poetizou o
trabalho das formigas ao ajuntar comida para o inverno, louvou a inteligência
dos coelhos e das águias ao construir suas moradas nas rochas e ainda enalteceu
a prudência das serpentes ao pousar a cabeça por cima da própria rodilha.
Salomão era poético por excelência. O outro era um homem prático.
Não há de se admirar que o
rei Salomão tivesse setecentas mulheres princesas ao seu dispor, as quais
pareciam mais que suficientes para fazê-lo gemer sem ao menos sentir dor. Além
dessas, ele ainda possuía trezentas mulheres amantes. Era humanamente
impossível se entediar com quaisquer delas, visto que ele podia escolher com
qual delas gostaria de passar a noite, ou os momentos de recreação. Ele só
precisava estender o cetro de ouro para a escolhida. Se se considerar o calendário atual, é fácil deduzir que ele poderia
passar quase três anos sem dormir com a mesma mulher. Assim, com o espírito em
paz, ele podia dar-se o prazer de descrevê-las, devassar-lhes o pensamento, sugar-lhes
o néctar, sondar as suas intimidades e descobrir o tão complicado mapa da alma
feminina. No entanto, ele se limitou a dar conselhos aos jovens para se resguardarem
dos lábios que destilam favos de mel, enquanto a língua é uma adaga afiada. Ora,
o rei tinha motivos de sobra para desconfiar das mulheres, porque suas amantes
haviam pervertido o seu coração, fazendo-o padecer as agruras do jogo entre o
poder e a sedução. Se o rei lhe negava um capricho, ela lhe negava o prazer.
Impotente diante de uma causa imune à influência do poder, o rei se rendeu:
melhor é morar numa tapera de águas furtadas, mas em paz com a mulher do que
morar em uma mansão com uma mulher contenciosa. Assim, não se pode negar que as
picuinhas, já desde os primórdios da humanidade faziam parte do cotidiano da
mulher.
Vê-se que, apesar da
grande admiração que os homens nutrem pelas mulheres (um ser louvado pelos
poetas e ovacionado nos sambas-enredo das marchas de Carnaval), não há motivos
para negar que seja um ser por demais complicado, porque possuidor dos desejos
invertidos. Quando uma mulher pede algo a um homem, mesmo prontamente atendida aquilo
já não faz nenhum sentido para ela, uma vez que fora necessário pedir para
fazer. Sendo ela rainha, ela entende que os seus desejos, além de atendidos,
devem ser adivinhados. É o que Gabriel não consegue entender. Solicitamente,
ele perguntou a Ângela se queria ir à praia nas férias. Ele sabia que ela era
louca para conhecer Natal, no Nordeste do país. Mas ela respondeu rispidamente:
— Claro que não, ora!
— Não tenho roupa, nem
calçado apropriados. Além do mais, tenho que fazer unha, cabelo, depilação,
comprar biquíni, saída de banho...
— Meu amor, mas isto são
coisas que se fazem em um dia. Estou falando com antecedência, justamente para
você se organizar. Ela contra-argumentou:
— E você acha que eu vou
ficar lá feito uma palhaça? Não conheço ninguém lá. Pode ir, obrigada! Eu fico na
casa da mamãe.
— Está bem — concedeu o
marido. E não se falou mais sobre o assunto. Afinal, não valia a pena criar
caso com a mulher — ponderou. Ele a conhecia um pouco para saber que não
adiantava tentar dissuadi-la de suas ideias malucas.
Foi no final do mês de
novembro que, aproveitando quinze dias de sobra das férias anteriores que Gabriel
tomou uma decisão. Dirigiu-se a uma empresa de aviação, agendou a viagem, reservou
o hotel, comprou duas malas de viagem e, ao chegar a sua casa, disse a Ângela
simplesmente:
— Meu amor, já está tudo
pronto. Vamos para Natal no próximo dia 15 de dezembro. É só você arrumar as
malas e comprar o seu biquíni. Aqui está o cartão de crédito. Compre o que você
precisar. A propósito, Sérgio e Marina irão também. Os olhos dela brilharam.
Marina era sua melhor amiga.
— Jura?
— Claro, meu anjo! Acha
que eu ia brincar com uma coisa tão séria?
— Nossaaa! Eu sempre quis
conhecer Natal. Dito isto, ela o abraçou e beijou-o com uma paixão de colegial.
Daí a poucos minutos, todas as suas amigas estavam comentando, morrendo de
inveja dela e parabenizando-a pelo marido que tinha. Houve uma que chegou a
dizer:
— Com todo o respeito, Ângela,
mas isto é que é homem de verdade, não o traste que tenho em casa. Só serve
para roncar e peidar debaixo do lençol. Aff! Ambas riram. Ângela se sentiu
tentada a dizer que Gabriel também peidava sob a coberta, mas se conteve.
Realmente, o marido dela era o melhor homem do mundo.
Aqueles quinze dias foram
de intensa atividade para Ângela. A cada meia hora ela ligava para Marina,
trocando experiência sobre o que levar para que os casais pudessem aproveitar
ao máximo a estadia na praia. Quem sabe ela até voltaria grávida da praia, imagina!
Ela queria muito ter um bebê. Gabriel nunca a havia visto mais feliz.
Foi um dia antes da
partida que o castelo de Ângela ruiu. As malas estavam prontas. Ângela deu a
última conferida antes de puxar o fecho da mala. Sorriu ao ver um dos biquínis
fio dental por baixo das roupas dobradas. Ela havia comprado um para cada dia,
mas aquele biquíni realmente valorizava o seu corpo. Dona de um corpo curvilíneo,
pernas alongadas, Ângela sabia que era bonita e queria agradar a si e,
principalmente ao marido. Ela devia isto a ele, sabia que ele ia gostar. Ela
via como ele olhava para ela no clube, como que a devorando com os olhos. E ela
vinha requebrando e se sentava em seu colo e o beijava. Ele adorava aquilo. No
entanto, o marido se descuidou e se deixou trair pelo que estava pensando. Ao
vir a felicidade estampada nos olhos de sua mulher, ele comentou:
— Quer dizer que acertei
desta vez? — Eu sabia que estava louca para conhecer as praias do Nordeste, não
é? — Ela parou o que estava fazendo e pôs ambas as mãos nos quadris em atitude
de desafio:
— Eu? — Está achando que
pode me comprar com uma droga de viagem? Não sou nenhuma puta sua para você tentar
me comprar com um presentinho de merda não, viu? — E quer saber? — Vá à merda você
com essa viagem, com essas malas, com este cartão de crédito, com seus amigos
fingidos, tudo. Bem que eu desconfiei que fosse tudo uma armação. Estava
perfeito demais para ser verdade. Estou fora, entendeu? Estou fora! — gritou — e
começou a desfazer as malas, entre lágrimas de frustração.
[1] Poeta, Contista e
Romancista. Autor de Arremedo: Contos & Lorotas e Marcas do Infortúnio
(Romance). Membro da Academia de Letras do Extremo Sudoeste de Goiás (Alesg),
membro da Academia de Letras do Brasil (ALB) e membro da Associação dos Poetas
del Mundo.
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