REIS,
Jonan de Castro
Sob
a luz de velas, debaixo dos caracóis dos cabelos de Anita, Erasmo reflete sobre
o dia em que a terra parou pela primeira vez. Um sorriso desenha linhas
expressivas em seu rosto. Ele era menino, mas ainda se lembra como se fosse
hoje, principalmente por causa do lance do Ricardo. Botões e pétalas de rosas
se perderam pelo caminho, enquanto a poeira se desvanecia no ar. O fugitivo
tinha muita pressa.
Ele
ainda se lembra que os operários não saíram para trabalhar porque sabiam que os
patrões não estavam lá. Os professores não saíram para lecionar, pois sabiam
que os alunos também não estavam lá. O travesti nem quis fazer o tratamento,
pois dizia pra mamãe: não consigo mais parar. O transporte coletivo não saiu
para transportar porque sabia que os passageiros já não estavam lá. Só o Ricardão
saiu para namorar, pois sabia que o seu sócio já não estava lá.
Ricardo
bateu na porta, um lindo ramalhete na mão e um sorriso nos lábios. A porta se
abriu de sopetão. Droga! — mas você não
deveria estar aqui! — pensou.
—
Você po...po... deria me arranjar uma sacola? A minha se rasgou quando me
defendia de... de... um a... ta... que de um elefante de...delinquente — improvisou
o assustado Ricardo, gaguejando. Ele já matou va...vários rinocerontes chi...
chifrudos.
—
Perfeitamente, cavalheiro! — Entre para cá. Tome um cafezinho enquanto vou
buscar a sacola.
—
Obri... ga...ga...do, acho que vou aceitar. O outro foi lá dentro e, quando
voltou, trazia arrastada pelos cabelos sua mulher. Na mão direita, um chicote de
couro trançado. Como se sabe — isto foi há dez mil anos atrás.
A
segunda vez, o motorista deixou o carro capotar porque estava ocupado falando com
a namorada ao celular. O vendedor de picolés deixou a carga esquentar, porque não
teve dinheiro para recarregar o celular. Os fiéis não foram ouvir a pregação,
pois sabiam que o pastor mandou a dívida para os órgãos de proteção ao crédito.
Os professores que quiseram ganhar melhor tiveram que parar de ensinar, pois pediram
demissão e foram para a escola privada. Mas Cid Gomes, uma pérola de governador disse que vai doar o seu salário porque disse ser igual ao professor que só deve trabalhar por amor. Pior
foi o pai que, orgulhoso do herdeiro levava para casa um conjunto de mamadeira
do Bob Esponja, mas, ao tentar amamentar o filho, este lhe virou a cara com
desdém: “Qual é, velho, isto é coisa de bebê, eu quero é sugar um baseado!”. Isto
parece que foi há poucos dias atrás.
Erasmo
já não é mais o mesmo. Anita já não possui os cachos ondulados que tanta poesia
se fez declamar. Camões tenta se livrar das amarras que o prendem ao fundo do
baú, ou será que foi devorado pelo gigante Adamastor? Machado jaz nas
profundezas oceânicas da ignorância juvenil. Nem Eliseu, com todo o seu poder o
fará flutuar nas mentes insanas desses jovens de cérebros vazios. Cérebros que
fazem seus hospedeiros desmaiarem diante do rosto bonito de uma biba, também de
cérebro vazio.
Nota-se
que a pedra posta no caminho serviu apenas de tropeço para aqueles que tentavam
seguir os passos de Drummond ou faziam provas no Vestibular. Beethoven, Mozart,
Caetano, João Gilberto e Vinícius de Morais rabiscavam espigas miúdas nos
campos onde grassavam soberbos pés de “mamonas assassinas”. Os jovens universitários
faziam vômito ao tentar deglutir as iguarias oferecidas pelo cardápio da
literatura clássica.
Mas
o Censo, desta vez, estava lá; no rádio, na TV, nas ruas, nas casas, nas
escolas e no comércio querendo saber a diferença entre Alfabetização e Letramento.
“Em prosa ou versos, façam suas considerações” — dizia o comunicador. As
palavras nos jovens estudantes lhes secavam o paladar. Alunos e até professores
se retiravam à francesa, querendo fugir da provação, mas o Censo estava lá. Foi
assim que a Terra quase parou pela terceira vez. Preocupados cientistas, escritores,
poetas, pesquisadores, linguistas e afins fizeram uma mesa redonda para
discutirem a questão.
O
pesquisador disse que alfabetização é o processo de ensinar/aprender a ler e a
escrever soletrando. O Poeta disse que letramento é a arte de soletrar
cantando. No entanto, o linguista filosofou que letramento não é treinamento
repetitivo de uma habilidade, mas a habilidade com que se faz um treinamento.
Por
sua vez, o escritor teorizou que Letramento é a conjugação do verbo entreter em
todos os tempos e modos. Sim, entreter o adulto com as cantigas de ninar. É a quebra
do tédio das crianças com as notícias de um jornal; é ver o jovem feliz com os
noticiários da TV; é convencer as donas-de-casa com as propostas de um
político; é reconquistar a namorada traída dizendo que vai levá-la a uma festa,
quando na verdade, vai pescar.
O
Poeta tomou novamente a palavra e abusou: letrar é ver Alice no País das
Maravilhas, mesmo cercada de lobos por todos os lados; é colocar um chapéu amarelo
na cabeça de Chapeuzinho Vermelho; é nunca enfadar-se com as histórias contadas
em mil e uma noites; é querer estar preso por vontade; é levantar com a alva,
só para ver o sol nascer; é fazer o homem bruto gemer sem sentir dor.
Tentando
dar a volta por cima, o escritor lançou a sentença digna do aplauso de Ramalho:
se alfabetizar é traçar o mapa do coração do homem, na verdade, letrar é ver um
brilho de faca onde nasce o amor. Mas Cecília Meireles arrematou: A vida só é
possível reinventada.
Só
após longa discussão, o grupo chegou a um conceito racional: Letramento é o envolvimento
do homem nas práticas sociais de leitura e escrita sem, necessariamente, frequentar
uma academia de letras. Todos aplaudiram.
Não
se pode negar que foi uma tirada inteligente, mas o Poeta não se deu por
vencido: Letramento é a capacidade de sair ileso ao tentar revelar o segredo do
ser maravilhoso que existe entre a serpente e a estrela, porque metade do Poeta
é arte, a outra metade é canção.
REIS,
Jonan de Castro.
Poeta, contista e romancista. Autor de Arremedo: Contos & Lorotas (Goiânia:
Kelps, 2009, 122 pp); Marcas do Infortúnio, romance (Goiânia: Kelps, 2010, 334
pp). Membro da Academia de Letras do Brasil – ALB, membro da Academia de Letras
do Extremo Sudoeste de Goiás – ALESG, membro da Associação dos Poetas Del Mundo,
Cônsul dos Poetas Del Mundo – Entorno de Quirinópolis – GO.