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terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

A IMPARIDADE DOS PARES



J. Castro[1]

É, no mínimo, inoportuno o pensamento de que no mundo nada se cria; tudo se copia. Seria mais honroso se a humanidade admitisse que a Filosofia tivesse flertado com a Poesia, dando origem à magia do livre pensamento sabiamente proposto por Cecília Meireles: “a vida só é possível reinventada”.
Reinventar a vida é recriar o próprio ser, produto da multiplicação de partículas indivisíveis do pó da terra, transformadas milagrosamente em gametas. Uma vez formado o homem, tomou-se uma fração de suas costelas e criou-se o seu par. Embora sendo um par, o homem é um ser ímpar em sua natureza e personalidade. Mas, se o homem é um ser — par ou ímpar —, consequentemente, o homem também é fruto de desejos e ambições desmedidas de seus pares. Neste sentido, uma máxima atribuída a Alexandre Herculano traduz em poucas palavras a profundidade do teor dessa verdade a respeito do relacionamento do ser humano com seus pares: “Quanto mais conheço os homens, mais admiro os animais!”.
O impacto da conotação filosófica dessa máxima teria sido o equivalente ao impacto da bomba atômica lançada sobre Hiroshima se proferida por uma mulher. Acredita-se que Herculano teria se referido precisamente à espécie humana com relação aos vícios sociais, uma vez que o homem é um ser racional; já a mulher vê o seu par com os olhos do coração. Assim, uma fêmea da espécie humana, quando ferida em seus sentimentos tende a classificar os homens, além de cafajestes, como homem-galinha, homem-cachorro, homem-macaco e, sobretudo, homem-garanhão — posto máximo na hierarquia classista dos cafajestes. Essa classificação honrosa é atribuída exclusivamente aos machos selecionados da espécie humana, responsáveis pela procriação. O chamado garanhão é uma espécie melhorada de cafajeste, um sem-vergonha de boa linhagem, robusto, de boa pinta, próprio para a continuação da espécie. Outra curiosidade relevante a respeito do ser humano é que não existe um ser idêntico entre si. Cada qual com suas semelhanças e cada qual com suas particularidades fazem do homem-cafajeste um ser único.
Não carece ir muito além para se dar conta desse interessante mistério: Mona era uma beldade loura, de lábios polpudos nascida no interior do Estado e levada para a Capital aos três anos de idade, onde passou a sua infância e a puberdade. Desde pequena um detalhe chamava a atenção dos garotos que estudavam na mesma escola que ela: o bumbum proeminente de Mona era um atributo que mais tarde iria despertar o cafajeste que havia no interior de muitos homens ao longo da vida. No entanto, Mona ainda era muito nova para se dar conta desse trunfo tão explorado no mundo dos adultos. Ela gostava do contorno de sua boca, com seus lábios suculentos, convidativos e cheios, de uma maciez arrebatadora.
Os olhos castanhos médios, ora de uma palidez mortiça denotavam que, apesar da pouca idade, Mona já tinha visto muito a respeito do comportamento dos homens insensíveis que grassam sobre a superfície da terra. O primeiro contato que Mona teve com a espécie não convencional de homens e que a marcaria para o resto de sua vida, aconteceu entre as quatro paredes de seu próprio lar. Seu pai não era o que se podia chamar de santo. Discutia muito com sua mãe em voz alta, quando pressionado por flertar com outras mulheres. Certo dia, ao chegar do colégio, Mona encontrara sua mãe chorando, soluçando penosamente, dada a profunda chaga no coração, feita pelo primeiro cafajeste da vida de Mona. Na hierarquia dos cafajestes, o personagem em destaque ocupava o posto de homem-galinha: aquele que nunca está satisfeito com o que tem no terreiro. O pai havia abandonado o lar e a família por causa do encanto de uma vizinha que lavava roupa de short curto. Mona acusou o choque, pois via no pai a figura de um herói, de um protetor. A moça agora não tinha mais a proteção do pai, mas ainda tinha chance de se recuperar do golpe. Bastava, porém, encontrar a sua alma gêmea, o seu par.
A semelhança entre o homem-galinha e o homem-garanhão era tão sutil que os próprios adeptos tinham dificuldade em diagnosticá-la. Mona teve contato com ele aos dezessete anos de idade. Ela estava carente, chorava muito devido à ausência do pai. Rob foi uma dádiva na vida de Mona. Pelo menos não iria mais andar à pé, pois Rob acabara de ganhar um carro do pai. Logo o instinto de garanhão aflorou no moço. Parecia príncipe de um plantel de donzelas, onde só ele dava assistência.
Atraída pelo cheiro característico do reprodutor alfa, Mona sentiu a libido palpitar. A sublime rendição da fêmea no cio aconteceu em uma noite enluarada de junho, como presente de aniversário. A partir daí, os dias eram terrivelmente longos para conter a espera do encontro com o cafajeste por quem Mona se apaixonara perdidamente. Dias mais tarde, sobre a areia branca do rio Araguaia e sob as estrelas luzentes da Mata Atlântica, Hipólita foi concebida. Uma bênção da natureza pousara sobre o rosto de Mona no momento em que ela atingia o ponto máximo na concepção do prazer, pois Hipólita nascera com características marcantes de uma beleza natural: a pele trigueira, os cabelos lustrosos e negros, caídos em cascata ao longo de suas espáduas  sugeriam o pêlo de um mustang bravio dos prados da Amazônia goiana. Quatro meses depois Rob assumia de vez a patente de cafajeste-garanhão. O seu papel era reproduzir, nada tinha a ver com acasalar. Ele era o macho alfa. Havia outras donzelas necessitando de seus préstimos. Estava Mona novamente sem proteção.
Mas o homem-cachorro começou a rondar o quintal de sua casa todas as noites. Insatisfeito com a porção que recebia de sua senhora, Patife saía em busca de alimentos para matar a sua fome. Mona era o cobiçado petisco e Patife, a fome personificada. Mona se questionava:
— Por que a sociedade é tão injusta? — dizia. Enquanto muitos, pouco têm, outros tantos, muito querem.  O cachorro Patife, por exemplo, não estava satisfeito com o que recebia e ficava ladrando em volta, procurando um jeito de roubar outra porção. Mona, por sua vez o enxotara para ver se ele deixava de rondar a sua casa, mas a persistência do cão levara Mona a abrir o portão de sua casa, até porque ela estava muito vulnerável, necessitando de proteção. Assim, Patife se estabeleceu justamente em cima do colchão da moça e passara a ter direito a um bife bem suculento que Mona servia generosamente. No entanto, a noite, seguindo o instinto de cão de guarda, Patife voltava para sua casa e passava o resto da noite. Patife era boa companhia, brincava com Mona. Mas, um dia sua senhora descobriu que o cão buscava comida fora e explodiu:
— Está lhe faltando comida aqui em casa, seu patife? — e esbofeteou-o sob o olhar da vizinhança. Patife não teve outro jeito senão voltar com o rabo entre as pernas para a coleira que o prendera por tantos anos. Ele ainda se lembra dos bifes suculentos que comia na casa de Mona. Ele chega a lamber os beiços e a grunhir inquieto. À moça restou a culpa de querer roubar o cão:
— Está querendo roubar o meu Patife, espertinha? — Por que não arruma outro cachorro para você? — Este aqui já tem dona, gritava a plenos pulmões.
Mona pensou em jamais arrumar  outro cão. Afinal, ela não tinha sorte com esses animais. No entanto, para cair nas graças da vizinhança novamente, Mona resolveu arrumar outro cachorro. Visitou alguns canis à procura de um cão que lhe chamasse a atenção. Num canil em Três Rios, no Rio de Janeiro, Mona encontrou um cachorrão peludo e lustroso que não saía da igreja em busca das migalhas que sobravam da mesa dos fiéis. No entanto, os fiéis eram cuidadosos e não deixavam nada escapar, de forma que aquele cão estava fadado a morrer de fome. Mona o encontrara todo pelancudo e cuidara dele, como fizera com os outros que possuíra. O infeliz se afeiçoou tanto à moça que a seguia por toda parte, como bom companheiro. Mona até pensava em trazer aquele cachorro para junto de sua família. Certo dia,  porém, enquanto Mona veio visitar sua mãe, o cão se sentiu só. Ao vir uma cadela rabicó, ele pulou o muro e se acercou dela, cheirando-a. Fanhoso abanou o rabo, ao que a cadela correspondeu, balançando os quadris, pois não possuía cauda. Em dois segundos Fanhoso estava pulando o muro de volta e não estava só. Chorando desesperada, Mona achou que um cachorro já era mais que suficiente para ela cuidar. Uma cadela já era abuso.
A solução para os problemas de Mona estava ali, bem à sua frente. Ela se cansou de cachorros e agora estava ali o mais novo protótipo da espécie de cafajeste: um homem-macaco. Era engraçado, espontâneo e trabalhava num circo. Sempre que saía com Mona ele convidava a mãe, a sogra, a filha, as irmãs e até os cunhados de Mona. Ele achava que toda noite havia espetáculo no circo, motivo pelo qual ele convocava todo o auditório. Mona se via com a calcinha molhada de xixi de tanto rir das macacadas de Simão. A macaca que fora seu par o havia traído com um rinoceronte e Simão estava meio desiludido, sem graça. Mona o adotou. A partir daí a vida da moça mudou. Vivia rindo das palhaçadas de Simão:
— Você é a estrela que brilhou em minha vida — dizia o homem-macaco. Mona ria.
— Vou trabalhar também em outro circo para poder cuidar de você, de sua filha, de sua mãe, de seu cachorro e de seu papagaio. E vou tratá-la como se fosse a minha macaca mais linda. Desta vez Mona teve que ir às pressas ao toalete para trocar a calcinha. Mona estava muito feliz. Em pouco tempo ela se esqueceu de todos os outros animais que já tivera. O homem-macaco, quando não conseguia realizar algum de seus desejos, improvisava, pois era acostumado a trabalhar de circo em circo. Um dia estava numa cidade, no outro estava em outra a quase mil quilômetros de distância. Simão vivia no trecho, em circo itinerante.
Mas agora Simão estava tendo um surto de cansaço. Já não tinha a mesma graça circense. Já não conseguia mais fazê-la rir como antigamente. Mona achou estranho ele convidá-la para uma apresentação num circo distante. Ela recusou relutante, ao que ele foi à forra:
— Mona, vamos acabar logo com isto: — Não te quero mais, não te amo mais, você não me merece, entendeu? — Não me merece. Mona achou que era apenas mais um número que Simão estava ensaiando para se apresentar no circo itinerante. Ela riu, mas Simão não assobiou, nem coçou as orelhas cheias de pulgas, coisa típica de macaco. Mona olhou para ele pensando que aquilo era mais uma brincadeira divertida, mas Simão sustentou o olhar. Mona sucumbiu.
— Não acredito que isto está acontecendo comigo de novo! Mona surtou, gritou, foi às margens da loucura:
— Falso!
— Fingido!
— Covarde!
— Macaco! — Suma da minha vida e vá procurar um zoológico com muitas macacas para você, seu piolhento! Mona conteve as lágrimas. Não ia dar a ele esse prazer de vê-la chorar. No entanto, a moça fazia um balanço de sua vida amorosa, quantos homens-cafajestes já tivera, quantas vezes ela tentara recomeçar!
— Seria isto? Recomeço? Mona sempre tivera a fraqueza de recomeçar com um cafajeste. Para ela, recriar a vida após um desacerto tinha o sinônimo de recomeço. Todavia, Mona nunca se dera conta dessa fraqueza humana. Ela acreditava demais no seu par, achando que os pares eram iguais. Mas em poucos dias todos os castelos por ela construídos se desmoronavam pedra por pedra. Apenas um questionamento martelava sua mente:
— O que está acontecendo comigo?



[1] Reis, Jonan de Castro. Poeta, contista e romancista. Autor de Arremedo: Contos & Lorotas (122 pp.) e Marcas do Infortúnio (322 pp.).

2 comentários:

  1. Bravo!!!!
    Impressionante como você conseguiu encontrar características típicas de animais em todos os seres humanos...A descrição ficou perfeita, quase palpavél, visivel a olho nu.Parabéns pelas metáforas.
    Sucesso,Elisângela Fernandes da Cunha Martins.

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  2. Obrigado, professora Elisângela! Quando a Ciência não esclarece a verdade acerca da existência humana, pelo menos nos coloca em dúvida: Será que o homem um dia já foi um animal irracional? Porque é tão parecido, não acha?

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