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quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

CONTRATO SOCIAL

J. Castro

É difícil prever as consequências de um contrato social entre pessoas que se dizem amigas, mas não no caso de Saimon e Mona: dois amantes que se conheceram em uma sala de bate papo. A amizade tomou corpus e se transformou numa louca paixão virtual. Pouco depois eles se conheceram pessoalmente e começaram a viver intensamente a sua paixão. Quatro meses de relacionamento se passaram e mais ainda a moça se encantava com Saimon. Além de formarem um bonito casal, a família da moça o acolheu com muito carinho e atenção, pois via em seu rosto o perfil de um homem honesto e trabalhador. Não se enganaram. Saimon cruzava o Brasil de Norte a Sul e de Leste a Oeste em seu bruto, como dizem na sua própria gíria. Era caminhoneiro.
Saimon era um tipo interessante de amante: era atencioso, terno e intenso. Quando não estava em viagem, o moço geralmente preparava o almoço ou o jantar para eles. Dificilmente ele chegava em casa sem ao menos uma flor para Mona, ao que ela correspondia à altura da urgência que nutriam um pelo outro. Passeavam, faziam compras e amavam. Beijavam como dois pombinhos em fase de acasalamento e amavam intensamente. Eles viviam um relacionamento perfeito.
Mona era uma moça simples e recatada. Talvez por força da condição social, uma mãe solteira é sempre um ponto de interrogação e observação frente ao binóculo de longo alcance de uma sociedade injusta e preconceituosa. Para completar as especulações, a moça trabalhava fora e morava com Hipólita, sua filha de dezesseis anos. Mas, apesar da paixão desenfreada que nutria pelo moço, Mona protegia a privacidade de sua filha. Afinal, a garota não era obrigada a presenciar cenas novelescas só porque a protagonista era sua própria mãe. Assim, Mona fazia questão de poupar a filha de certos constrangimentos. Quando em casa, Mona namorava como namorava as boas moças dos tempos dos avós. Ela jamais expunha a intimidade de uma vida a dois na presença de Hipólita, pois os valores morais estavam gravados a fogo em seu íntimo. Mas agora, Saimon a convidara para viajar com ele para o Nordeste.
— Bombom, por que não sai do seu emprego e vem comigo? É tão triste ficar noites e mais noites longe de você!...
— Ah, amor! Sabe que não posso sair do emprego agora — choramingou.
— Que nada! — Você não vai porque não gosta da minha companhia. Quer ficar livre para voar. Saimon se arrependeu ao dizer tamanha tolice. Naquela noite nada rendeu entre eles. Saimon teve que ir dormir mais cedo, ainda por cima com dores nas virilhas.
Era verdade que Mona morria de vontade de conhecer as praias do Nordeste e o namorado ia ficar quinze dias numa cidade litorânea. Ainda por cima, ela não estava se dando bem no emprego, estava muito desmotivada, mas tinha que trabalhar para cuidar de si mesma e de sua filha. Será que amar significava renunciar a si mesma? Será que valia a pena sacrificar o seu emprego por um relacionamento? O pior era que Mona amava Saimon, mas estava brigada com ele, droga!
Naquela manhã Mona estava lá embaixo. O jeito foi consultar a experiência de um amigo distante que nada sabia a respeito do relacionamento dela com Saimon. Talvez fosse o anjo que Deus havia prometido lhe enviar. Marco estava lhe chamando a atenção na tela do computador:
— Bom dia, garota sistemática! — o amigo brincou. — Ela nunca tomava a iniciativa de chamá-lo no MSN. Ele provocou:
— Está tão atarefada hoje que não pode dar um bom dia?
— Oi! Bom dia! Tenho estado muito preocupada — insinuou. Marco era atencioso e ofereceu apoio:
— Há algo que eu possa fazer por você? — ele abriu a guarda. Afinal, ele se preocupava com o bem-estar de seus amigos.
— Na verdade, estou dividida: o que você acha de uma garota abandonar o emprego que não faz mais o seu tipo para viajar com o homem que ama para o Nordeste por quinze dias? A princípio, Marco achou que fosse sua filha, mas não disse nada. Pensou por um instante e inquiriu:
 — Só para eu me situar, há quanto tempo estão casados? — perguntou.
— São namorados — respondeu honestamente.
— Tudo bem. Quanto tempo? — insistiu.
— Quatro meses. Marco estava cada vez mais alarmado. Afinal, ele também tinha filhos adolescentes e o que ele jamais gostaria de fazer era colocar sua filha em perigo nas mãos de um aproveitador.
— Qual a idade dessa garota?
— É uma adolescente. Trinta e sete anos. Marco reprimiu uma risadinha irônica, ao perceber que se tratava dela e não de sua filha.
— Acho que você não é mais um brotinho para esse tipo de aventura. Por que não resiste à tentação por enquanto, faça economia ao longo deste ano e depois leve sua filha para curtir com você a praia? Além do mais, acho quatro meses pouco tempo para se arriscar de corpo e alma num relacionamento. Mona sempre fora independente, ainda mais depois que se engravidou de Hipólita. Mona sentiu um gosto amargo na boca ao pensar sobre isto. O filho da mãe do pai de sua filha era um miserável que, ao saber-se pai, em vez de assumir a paternidade, ele sumiu por toda a eternidade.  Mona teve que arcar com todas as consequências de sua imprudência. Ela procurou afastar da mente esses pensamentos, depois agradeceu ao amigo e desligou. No outro dia, logo de manhãzinha, ela o chamou:
— Muito obrigada pelas sábias palavras. — Você tirou um enorme peso de minha consciência. Acho que eu estava cega.
— Que bom! Pelo menos servi para alguma coisa — brincou.
 A espera durou dez dias.
Numa certa manhã, Marco viu que alguém lhe chamava na tela do computador. Era Mona. Ela foi logo desabafando:
— Estou me sentindo um lixo, meu amigo! — O sem-vergonha do Saimon simplesmente terminou comigo sem motivo algum. Estávamos de boa e de repente ele disse que não dava mais. Que eu não fazia o tipo dele. Pensei que o Paranaíba ia transbordar com minhas lágrimas. Não sei como fui acreditar nele.
— Veja pelo lado bom. Antes agora que vocês não têm maiores compromissos um com o outro. Já imaginou se ele resolvesse aprontar com você longe de sua casa... na praia, por exemplo?
— Não gosto nem de pensar, mas está muito difícil! Eu amava aquele desgraçado e ele fez isto comigo! — ela queria um ombro para chorar. Marco tentou consolá-la:
— Mande esse cara ir a PQP e bola pra frente. Ele não merece suas lágrimas.
— É... Eu sei que não.
— Agora, procure crescer com os erros do passado e nunca se deixe abater. Você é maior do que essa dor de cotovelo.
— Obrigada pelo carinho! — Havia sinceridade nesse agradecimento. No outro dia, preocupado, Marco enviou mensagem:
— Espero que hoje esteja melhor que ontem. Ela respondeu:
— Com certeza hoje estou bem melhor, mas fiquei sabendo pela irmã dele muitas barbaridades que ele falou de mim e de minha filha que estou indignada. Marco apenas a ouvia. Era inútil argumentar:
— No momento em que ela foi me contando as mentiras que ele fantasiou sobre nós, senti Deus tirando do meu coração todo sentimento que ainda restava: amor, saudade, angústia, paixão, tudo.
— Que bom! Fico feliz por você ter se libertado. Ela completou:
— Como fui ingênua! Mas, como você disse: agora vou procurar crescer com os meus erros. Obrigada novamente, meu anjo amigo!
E os dias se passaram...
Marco estava quase desistindo de Mona quando ela deu o ar da graça:
— Desculpe! Estava sumida, não é? Meu ex me procurou novamente e reatamos o nó de nossas vidas. Agora é pra valer. Ele me propôs uma sociedade e vamos discutir as cláusulas depois que voltarmos do Nordeste.
Dois dias depois do reatamento, lá estava ela na boléia do caminhão. A viagem foi maravilhosa: sexo, comida de carreteiro, sexo, sol, praia, comida caseira, sexo novamente, sono. No outro dia, tudo recomeçava. Saimon foi maravilhoso e Mona adorou cada momento. No entanto, a volta foi recheada de saudades dos bons momentos que passaram juntos.
Foi ao chegar em casa, quinze dias após a partida, que Saimon a convidou para sentarem juntos e estabelecerem as cláusulas do contrato. Cada um entraria com uma parte, o que já era previsto: Mona entrou com a bunda e Saimon com o pé.
— Cafajeste! — disse entredentes.

REIS, Jonan de Castro. Poeta, contista e romancista. Membro da Academia de Letras do Brasil - ALB, membro da Academia de Letras do Extremo Sudoeste de Goiás - Alesg, membro da Associação de Poetas del Mundo e Cônsul de Poetas del Mundo, Entorno de Quirinópolis - GO. Autor de Arremedo: Contos & Lorotas (122 p.) e Marcas do Infortúnio, Romance (322 pp.).

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