Prof. Dr. Ravel Giordano de Lima Faria Paz
Professor de Literatura da Universidade Estadual de Goiás
Unidade de Quirinópolis – GO.
Doutor em Letras pela Universidade de São Paulo.
O título deste pequeno comentário crítico, que Jonan de Castro me pediu à guisa de apresentação de seu livro “Arremedo: Contos & Lorotas”, foi inspirado no título original de um dos contos deste volume — “A medida exata do ser humano”, afinal substituído por um singelo “Colhendo flores”. O primeiro título me parecia muito significativo porque expunha com precisão — e precisão matemática! — uma das características mais fortes, senão a mais forte, dos contos do autor: a propensão a defrontar os seres (sempre humanos, apesar de alguns deles latirem ou piarem) com situações-limite, nas quais seu verdadeiro valor deve obrigatoriamente vir à tona.
Mas não lamento a troca: o novo título, ganhando em sutileza, demonstra uma outra propensão do contista Jonan, que é a busca de depuração de sua arte. De fato, as indicações cronológicas quanto à composição de alguns contos, que obtive do próprio autor, parecem confirmar que temos aqui o testemunho vivo de um talento em plena evolução, talvez no sentido de uma arte um pouco menos exata, mas ao mesmo tempo mais certeira: não porque vai direto ao alvo, e sim porque tira faíscas dele. Mas devagar com o andor, que o santo é de barro e o autor deste livro é, por ofício e por princípio, um iconoclasta.
Quando J. Castro me pediu um comentário sobre seu romance ainda inédito — e do qual infelizmente não pude ler senão o início, um pouco da metade e, é claro, o final —, escrevi-lhe que ele me parecia fruto de um talento monstruoso. Eu fazia uma relação desse talento com um dos protagonistas daquele livro: o jacaré Nick, cuja bocarra eu imaginava escancarada para o leitor, ao mesmo tempo que tinha os dentes inocentemente palitados por um passarinho. É o tipo de risco com o qual o autor parece defrontar seus leitores e personagens o tempo todo; e ainda quando meramente simbólica (ou acompanhada de uma flor, como no conto a que já aludi), a dentada não é necessariamente menos doída.
É claro que aquela “monstruosidade” toda tinha seus aspectos positivos e negativos. O fôlego narrativo-descritivo e o furor sarcástico pareciam-me por vezes fugir ao controle do escritor, chegando em alguns momentos a descambar para o gratuito. Em todo caso, seria preciso ler o romance inteiro. O que parece certo é que neste volume de contos o talento de Jonan surge mais domado, seja por uma questão relativa à forma curta ou, como já disse, pela própria evolução do artista. J. Castro tem a humildade de chamar seu volume — numa irônica associação com um de seus contos mais sérios — de Arremedo, mas a verdade é que a maior parte de suas histórias é bem amarrada. Talvez, para ser sincero, até um pouco demais, não só porque os laços da forma por vezes se estreitam muito, mas também porque com frequência eles são reforçados por um encordoamento francamente moralista; cordas estas, felizmente, muitas vezes afrouxadas pelo humor, que às vezes predomina sem peias, como na história da “primeira calça comprida”.
Por outro lado, o olhar moralista não deixa de ter a ver com a força de narrador e psicólogo de Jonan, capaz de surpreender detalhes sórdidos nas unhas mais lustrosas (vide, ainda, “Colhendo flores”). Se fosse indicar uma “posição simbólica” para o escritor no interior desse conjunto de narrativas, creio que a mais adequada seria ao lado daquele obscuro TDF do conto “Um enviado multifacetado”, aquele homem sem “nome, idade nem altura definidos” que sai distribuindo, um pouco como um arcanjo bíblico, a primavera ou o caos pelos cantos do planeta. Ao lado ou acima dele, ou seja, em franca associação com o chefe supremo do Testa-de-Ferro.
Esse lugar de supremacia, a ironia e análise psicológica são alguns dos traços que aproximam, ainda que lateralmente, os contos de Jonan da obra do “mestre Machado” (de Assis), cuja trama em “O enfermeiro” o “discípulo” goiano retoma e corrige em “Confidências de um finado”. Aqui mesmo, aliás, a supremacia irônica do olhar de Jonan se manifesta da forma mais ousada, num atrevimento que não é só o de transformar os temas machadianos num verdadeiro samba do crioulo — ou “preto véio” — míope como o de afrontar, no mesmo compasso desse gesto, o próprio velho bruxo em um dos pontos mais polêmicos de sua obra, e que é a suposta esquiva em relação à realidade da escravidão no Brasil. E seja essa esquiva apenas suposta ou não, o fato é que em nenhum de seus grandes contos e romances, Machado — como Jonan, um homem de cores fortes — teve essa ousadia jonaniana, de emprestar a um afrodescendente a voz narrativa responsável por contar a história — e uma história, diga-se de passagem, que faria o próprio Brás Cubas revirar no túmulo.
Mas se a ousadia de analisar e julgar o mundo, os homens e seus atos é o que empresta vigor a boa parte dos contos de Jonan — em certos momentos com inegável força dramática, como no fecho de “O preço do abandono” —, por vezes o olhar punitivo que orienta o destino dos personagens tende a transformá-los em caricaturas, pela via de um processo de superexposição que sublinha seus traços ora ridículos, mesquinhos ou grotescos. Algumas vezes a própria ação não ultrapassa o anedótico. Mas também é preciso reconhecer que algumas das “lorotas” deste volume, como a do impagável “indecifrável enigma”, ou mesmo a já citada história da calça, estão entre as suas melhores peças. Jonan transita por extremos, e caberá ao leitor avaliar com que habilidade ele opera cada um de seus saltos, sejam eles despretensiosos ou “mortais”.
Em todo caso, é importante reconhecer que esse olhar entre sarcástico e inquisidor não impede, o mais das vezes, que aflore o talento do escritor nato, afeito ao trato com as palavras. Evitando os excessos de coloquialismos e regionalismos, o autor assume os riscos do compromisso com a correção gramatical, o que, em se tratando da nossa língua portuguesa, é quase sempre uma luta ingrata, e portanto um risco ainda maior para qualquer revisor. Mas a busca de correção não impede a apreensão, lapidada ou espontânea, da dicção e dos cacoetes populares em momentos preciosos, seja em registro cômico (“Até onde irei com o meu Poisé?”) ou dramático (“O grito do silêncio”).
Eis aí, aliás, dois bons contos que talvez permitam uma visão de síntese dos impasses deste volume. À qualidade de textos bem estruturados — o primeiro, numa vertiginosa roda-viva de vozes e protagonistas, o segundo num insólito “triálogo”, no qual a projeção de um si-mesmo é obrigada a encarar a realidade inapelável de um outro — se soma, no final de um, o acerto de uma dúvida aflitiva que nos conduz a um tipo de “suspensão” tão irônica quanto sublime, e no de outro o desacerto (a meu ver) de um julgamento implícito que joga por terra boa parte da riqueza reflexiva a que ele poderia nos conduzir. A seriedade, aqui, mais dilui do que reforça a densidade da situação. Inversamente (pelo menos nesse caso), o humor ajuda a conjugar leveza e profundidade na história de Robson e seu Poisé.
Com o perdão dos trocadilhos, eu diria que é quando consegue afrouxar o arremate sem fraquejar a mão que J. Castro compõe seus melhores “arremedos”. Trata-se, como disse, de um iconoclasta: sua especialidade — sua melhor especialidade, pelo menos — é destruir a imagem que os homens erigem de si mesmos ou dos outros. Mas o que sobra desse gesto? Um julgamento explícito ou implícito, ou aquele grão de imponderável na vida humana que resiste às misérias da alma e às armadilhas do destino? Esse grão é faísca da seta que apenas resvala o alvo, a medida inexata de um contista.
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