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segunda-feira, 11 de abril de 2011

UMA VISÃO IDEOLÓGICA POR TRÁS DA LITERATURA

REIS, Jonan de Castro[1]
SOUZA, Meyre Aparecida Silva



É quase impossível para o poeta crítico evitar a ereção de seus próprios gostos, intimamente ligados ao seu próprio tirocínio, em lei geral da literatura. Mas a crítica tem de basear-se naquilo que o conjunto da literatura realmente representa.
(Northrop Frye)




A analogia que se estabelece entre os textos “Coisas do coração”, de J. Castro e “Paranóia”, de Augusta Faro é fundamentada nos valores, nos sentimentos e no comportamento dos seres. Embora os textos em análise possuam características peculiares de exposição, seu verdadeiro valor semântico deve vir à tona.
O fato de os autores utilizarem animais como figuras alegóricas não impede que as características físicas e psicológicas dos seres humanos possam ser mensuradas. Nesta perspectiva, temos aqui, mais que uma fábula de cunho moral; aliás, temos duas narrativas-conto em que os vícios e virtudes dos seres não-humanos são representados metaforicamente por meio de um jogo ideológico.
O conto de Augusta Faro, narrado em primeira pessoa, tem como personagem principal o próprio narrador contando sua história. Conforme Massaud Moisés “no foco narrativo em que a personagem principal conta a história – o narrador emprega a primeira pessoa [...] assim limitando a área da narrativa, que fica circunscrita ao narrado, pois é de sua história que se trata: a própria personagem interessada na história – visto ser o protagonista central – nem sempre é a mais indicada para contá-la, pois somente a interpretará de seu ângulo pessoal, o que implica uma visão limitadas das coisas”.
Já em Castro, o conto foi narrado em terceira pessoa, com o narrador-analítico ou onisciente contando a história. Essa posição do narrador permite um ângulo privilegiado do cenário e das personagens implicadas no conto. Assim, o narrador pode navegar livremente pelo palco, observar todos os personagens e estabelecer um julgamento imparcial sobre as suas características humanas. Ainda segundo Massaud Moisés “o narrador-onisciente torna-se verdadeiramente o demiurgo: acompanha as personagens a todos os lugares, penetra-lhes na mais recôndita intimidade; com um agudíssimo olho secreto devassa-lhes o mundo psicológico, esquadrinha-lhes os abismos inconscientes e subconscientes, conhece-lhes, enfim, as mínimas palpitações”.
O texto de Augusta Faro é um conto de ação, em que o “eu” trava uma luta de vida ou morte com um ser repulsivo e cruel que o ameaça com sua simples presença. Essa modalidade de texto é uma das mais utilizadas pelos contistas, principalmente os iniciantes, por considerá-lo de mais fácil navegação. O texto tem uma linguagem simples, permeada de adjetivos que qualificam a personagem, estabelecendo o seu perfil físico e psicológico. Os adjetivos, empregados em uma superdosagem traduzem todo o ódio que a personagem narradora tem do ser em referência. Em suma, o narrador-personagem tem no ódio a marca indelével de sua vingança contra o ser dominador, repulsivo e cruel que manipulava e amedrontava sua vítima, a ponto de fazê-la sair de casa, caminhando sem rumo só para fugir da presença dele. Vejamos: “E com isto só desejava e sonhava sua morte, com toda força de minhas urgências, de meus nervos e juntas. Todas as urgências, que eu conhecia e desconhecia e guardava dentro de mim, queriam vê-lo MORTO”. Faro faz uma associação entre uma sociedade oprimida e dominada, onde estão presentes os sentimentos sórdidos de ódio, mágoa e vingança contra o ser dominador. Inclusive, o ponto culminante da vingança é destacado com letras maiúsculas, o que demonstra a força narradora da personagem. Faro faz um retorno ao passado ao associar as características psicológicas do ser repulsivo e do professor de educação física que defrontava o “eu” narrador. Quando o professor morreu atropelado toda a turma sentiu-se aliviada. Nota-se que o ódio está presente em todos os eventos da vida da personagem.
Já o texto “Coisas do coração” é o contrário do texto de Faro em sua ideologia, uma vez que em Castro o amor é incondicional, de certa forma até super-protetor. O texto de J. Castro inicia-se num ex-abrupto, com um diálogo entre as duas comadres: “Até hoje não consigo entender por que Nina foi se envolver com aquele joão-ninguém” para depois desenvolver-se num crescendo evolutivo até o desfecho do conto, o momento em que Nina se enlaça com Romão e Beatriz dá um grito de desespero “Ni... i... i... na! Que pensa que está fazendo?”. Depois o conto descamba num monólogo, ou num discurso indireto livre em que a personagem se liberta das amarras que a prendem ao opressor. Esse grito de liberdade é caracterizado quando Nina salta o muro dos fundos e vai para debaixo da mangueira com Romão. Ela estava cansada daquela superproteção.
O texto de Castro é interessante, pois defende a idéia do ser preso pelas amarras de uma sociedade opressora, mas de valores éticos arraigados em sua estrutura. No entanto, outra sociedade, oprimida e superprotegida se ergue em meio à prepotência dominadora e grita a sua liberdade, sem derramamento de sangue, sem violência.
Embora o texto de Castro apresente marcas de preconceito, elitismo e dominação, essa tese é derrubada pela teoria de que J. Castro transforma suas personagens em meras caricaturas para conseguir o efeito, a imagem desenhada ou idealizada por ele. Não é o elitismo idealizado por Hitler em que a raça ariana alcançaria absoluta soberania frente às raças dominadas e exterminadas. Para conseguir o efeito que a liberdade de Nina possa provocar no leitor, o autor de “Coisas do coração” tece uma personagem fragilizada e oprimida por excesso de amor. Beatriz amava Nina incondicionalmente. Ela queria para a filha um marido à altura da beleza dos netos que ela idealizou, quando do acasalamento de Nina. O autor brinca com o leitor, ao dizer que Romão era manco, gago, de fala fina, além de tudo, estrábico. Os defeitos físicos adquirem uma dose espetacular de humor quando o leitor atenta para a entrevista de Nina e Romão.
Cumé qui você cha... a... a... ma? Nina encontra em Romão sua alma gêmea. Os olhos estrábicos estão voltados para outra direção. Ela acha engraçado e vira os seus para cima como a dizer “eu mereço”, e explode: Ni... i... i... i... naaaa! Nesse grito, ela se identificou com a voz fina e esganiçada de Romão. Vemos que os defeitos vão sendo compensados pela virtude de reconhecê-los e aceitá-los como uma simples característica, não como uma marca, um estigma. Nina não era preconceituosa. Suas atitudes virtuosas caracterizam sua personalidade dócil, desprovida de vaidade em relação ao outro. Mas Romão era manco. Nina desfez essa teia por meio da brincadeira que culminou com a união dessas duas almas. A seqüência de fala imitando o sotaque de Romão sugere uma cadência: “O rrrato rrroeu a rrroupa do rrrei RRRomão” nos dá uma idéia de um galope. Nesse ritmo cadenciado, Nina quebra o preconceito contra os coxos. Ela assume a identidade do ser oprimido pelo defeito físico para torná-lo seu semelhante. A grandeza da estratégia de Castro está em utilizar as marcas do preconceito para derrubá-lo pelo poder de suas próprias marcas. Neste sentido, o Prof. Dr. Ravel teoriza: “Trata-se, como disse de um iconoclasta: sua especialidade – sua melhor especialidade, pelo menos – é destruir a imagem que os homens erigem de si mesmos ou dos outros”.
Na verdade, o texto não tem caráter preconceituoso, mas realista. Essa estratégia Machado de Assis já utilizava desde o século XIX ao traçar o perfil de suas personagens. Ela poderia ser bonita, inteligente, sedutora, mas se tivesse um defeito físico, este seria grifado. Isto não é questão de preconceito, mas de realismo. J. Castro utiliza traços realistas para mensurar os próprios vícios e virtudes do ser em exposição; neste caso, tanto pode ser humano ou não. Nesta visão, Castro utiliza traços marcantes do comportamento dos animais para determinar o comportamento dos seres humanos. É aí que as comparações e metáforas dão aos seus textos uma grande peculiaridade literária. Nas palavras da Profa. Neida Terezinha “Se o estilo é o próprio Homem, eis a razão de tanta especificidade, de detalhes que só você possui”. Castro tem estilo próprio e procura tirar proveito disso, direcionando o leitor para um determinado ponto, enquanto vai tecendo a trama por outro caminho.
Assim, o conto de Augusta Faro perde um pouco da sua visão ideológica, ao propor do início ao fim uma guerra de forças contra os opressores, sem, no entanto, apresentar uma solução inteligente para o impasse. Não adianta instituir a pena capital, é melhor conscientizar os indivíduos a se despirem dos vícios que corrompem a sociedade. Sabe-se que uma guerra se vence com inteligência e perspicácia, não com violência.
Comungando o que Northrop Frye disse na epígrafe que abre esse trabalho, realmente é difícil para o escritor crítico evitar a ereção de seus próprios gostos, pois seus textos parecem refletir a sua ideologia. Assim, o conto de J. Castro propõe uma guerra ideológica em que os opressores são vencidos pela perspicácia dos oprimidos. Beatriz chorou, esperneou, proibiu, mas sucumbiu ao grito de liberdade de Nina. Nesta perspectiva, a democracia é uma boa forma de governo, pena que alguns democratas são corruptos!


[1] Análise apresentada ao prof. Dr. Ravel Giordano Paz como requisito avaliativo da disciplina Crítica Literária, referente ao Curso de Especialização Lato Sensu em Língua Portuguesa, Literatura e Alfabetização, da Universidade Estadual de Goiás, Unidade Universitária de Santa Helena, 2007.

sábado, 2 de abril de 2011

O CÉU É O LIMITE

J. Castro[1]

É nos píncaros dos montes solitários, no ponto mais elevado das íngremes montanhas que a águia põe os seus ovos. Longe das turbulências que assolam o ambiente e imune aos perigos impostos pelas outras aves de rapina, ei-la a chocar.
Enquanto a fêmea aquece o ninho, o macho sai à procura de alimentos e, depois de saciado, empoleira-se no cume de uma elevação rochosa e põe-se a vigiar, olhos atentos a qualquer movimento à sua volta. Seus olhos cintilantes a tudo observam. De repente, um grasnido rouco e autoritário se faz ouvir:
— Zé! O macho voa imediatamente para junto do ninho, enquanto a parceira se levanta, cedendo o seu lugar. É hora de render o plantão.
A fêmea reconhece o próprio poder, lança um olhar altaneiro e contempla o horizonte a perder de vistas. Ela agita as asas, exercita as pernas, grasna uma última recomendação ao parceiro:
— Cuidado com o guaxinim! — e sai em busca de sua sobrevivência. Enquanto paira no ar, as asas bem abertas quase a abraçar o mundo, os olhos flamejantes observam o grande abismo embaixo de seus pés. Como minúsculas formiguinhas, os seus vassalos se movimentam de um lado para outro, sem parar.
A vários metros de altura, ela consegue enxergar um vulto insignificante: um pequeno pontinho ou um risco que se movimenta entre as pedras e gravetos ressecados. Pode ser um camundongo, um lagarto, ou mesmo uma serpente — pensa. Ela não se faz esperar. Flexiona as asas para baixo, quase a encontrar as duas extremidades e risca o céu, cortando o espaço que a separa de sua presa. A velocidade com que desce e o contato de suas asas cortando o vento provocam um assobio característico, um chiado que inibe a tentativa de fuga das presas, que parecem hipnotizadas. E este momento de indecisão é crucial, porque em fração de segundos, ei-las nas garras daquela que domina as grandes alturas.
Ao pôr-do-sol, já de volta ao ninho, ela põe-se ao cume de uma elevação, em um local estratégico, de onde pode vigiar o ninho e proteger a si própria. Os dias se passam num martelar constante de um moinho a monjolo, enquanto os ovos vão-se aquecendo e mudando a sua cor. Sob o calor daquele aconchego outro ser vai tomando forma.
Ao tempo da vida nascem os pintainhos. Por muitos dias são alimentados no bico pelos seus pais. Aos poucos, a plumagem vai-se tornando espessa, as pernas vão-se firmando, até que os franguinhos já podem suster-se de pé. Ao cabo de mais alguns dias, um dos pintinhos arrisca uma olhadela no precipício, seguido de perto pelos pais. Movido por uma extrema curiosidade, ele estica o pequeno pescoço, vira de um lado... de outro... e volta para o ninho, piando, amedrontado.
— Credo! Credo!
Mas agora a roupagem do seu corpo já está quase coberta. As pernas não estão de todo firmes ainda, mas o franguinho já não suporta a submissão de ficar no ninho. Põe-se em cima da penha à espera do alimento trazido pelos pais. O franguinho vê ao longe sua mãe que baila majestosamente ao sabor do vento, vindo ao seu encontro. Ele já vai esperá-la fora do ninho, as asas bem abertas para manter o equilíbrio, o biquinho aberto. A mãe deposita em seu bico a ração do dia, e voa para o topo da elevação. O filhote ainda pia sem parar. O sol lança seus raios luminosos sobre suas asas e, de seus olhos rubicundos cintilam reflexos multicores, enquanto as asas são agitadas e experimentadas. Do alto de seu observatório o casal a tudo observa e lhe transmite a cada dia a lição da vida.
Então chega o grande dia.
A águia-mestra iça o frangote em suas potentes garras e leva-o ao pináculo da penha. A penha do sacrifício. Em baixo está o precipício a perder de vista. Em cima, o firmamento a sugerir a liberdade e o poder. Seus olhos brilham. Ele percebe que vai ser posto à prova, mas aceita o desafio confiante, sem vacilar. Ele sabe que pode confiar em sua mãe. Por outro lado, a águia-mãe confia no poder de suas asas e na força de suas garras.
Preso às garras da mãe, o franguinho observa o precipício, os cumes dos montes, as depressões e, por último, suas vistas contemplam o horizonte, a liberdade dos dominadores. No entanto, para consegui-la é preciso ser provado no fogo — o que, na verdade — é o seu destino. Ele sabe disso.  Está com medo, mas não se debate. Sabe que sua mãe já passou por isso e que ele, mais cedo ou mais tarde teria que passar pela mesma provação.
— Vamos logo com isso — decide.
Içado para as alturas pelas pontas das asas, o frangote fecha os olhos para se concentrar no que tem a fazer, após ser solto no espaço. A águia sobe dando voltas, até atingir uma altura satisfatória. Agora ela paira no ar. O pintinho sente uma grande emoção, ao contemplar a beleza do firmamento. Ele sente o poder que flui das garras de sua mãe, como uma corrente elétrica.
A mãe-águia equilibra no ar, acaricia a cabeça do filhote e ordena-lhe que observe à sua volta, que olhe para frente, nunca olhe para baixo. O filhote pia, aquiescendo. No último momento, ela grasna uma advertência:
— Vá! O céu é o limite.
Ela solta o franguinho no espaço que o separa dos cumes das penhas e do profundo das depressões rochosas. Naquele momento ele é despojado do poder que até então compartilhava com sua mãe. É como desconectar o pino da tomada elétrica. Ele sente a ausência do apoio que o sustinha com firmeza. Sente como se estivesse andando em terra firme e, de repente, a terra desaparecesse de sob seus pés. Um vácuo. O mesmo que um patamar além do último degrau de uma escada. Ele sente um tremendo calafrio e pia em desespero. No auge na descida, ele vira duas... três... quatro cambalhotas antes de começar a bater asas desordenadamente, mas depois consegue voar, embora desengonçadamente, uns três metros adiante e capota novamente. Ele começa agora a perder altura consideravelmente, sempre dando cambalhotas. Um desespero assustador toma conta de si e ele começa a piar. Um piado agudo e desesperado. Numa de suas cambalhotas, ele olha para baixo e vê as pedras da montanha como pontas de lanças a gritar o seu nome. Sente como que um punhal a enfiar-lhe nas entranhas, ao pensar que dentro de poucos segundos pode estatelar-se nas pedras. E continua a dar cambalhotas e a perder altura.
A altívaga a tudo acompanha do seu posto de observação, movimentando as asas freneticamente, equilibrando-se no ar. Ela ouve o pedido de socorro angustiado do filho, mas ignora-o para que ele não demonstre fraqueza. Novamente o pio. O franguinho tenta olhar para cima para ver sua mãe pela última vez, mas a velocidade da descida e o forte vento cortante fazem lacrimejar os seus olhos, impedindo sua visão. No seu desespero, o frangote admite que é chegado o momento: “Companheiros, foi um imenso prazer tocar com vocês esta última música” — dizia um náufrago do Titanic. Ele ainda pia pela última vez em despedida, encomendando sua alma. Um piado curto, sem esperança. E, rendido, fecha os olhos.
 Impassível, a mãe mede a distância que o separa do filhote e a distância que falta para que ele encontre o pináculo do monte, o pináculo da morte. Ainda há tempo suficiente — avalia. Instantaneamente, ela flexiona as asas para baixo, quase encontrando uma extremidade na outra, estica o pescoço e desce grasnando, como um raio, agarrando em questão de segundos o filhote que respira descompassado devido ao grande esforço despendido. O coração bate acelerado, sem forças. A mãe compreende o seu silêncio e carrega-o majestosamente para o alto da penha.
O sol não demora a se esconder por detrás das montanhas, mas em breve a lua inundará de luz aqueles pináculos inescaláveis.


[1] REIS, Jonan de Castro. Poeta, contista e romancista. Autor de Arremedo: Contos & Lorotas (Goiânia: Kelps, 122 p) e Marcas do Infortúnio (romance) (Goiânia: Kelps, 334 p).

sábado, 26 de março de 2011

COISAS DO CORAÇÃO


(J. Castro)[1]

           — Até hoje não consigo entender por que Nina foi se envolver com aquele joão-ninguém, disse à sua comadre, Bella. E Beatriz abafou um suspiro.
              — O que eu não compreendo é como você vai ser vovó antes mesmo de ser mãe – insinuou Bella. Ambas riram. Realmente aquilo não fazia sentido.
            Nina era uma menina magricela, de pele cinzenta e cabeleira arrepiada que viera procurar abrigo em sua casa. Ela não se lembra de como foi parar ali, mas a verdade é que a mãe e os dois irmãos foram praticamente lançados da carroceria de uma caminhoneta — só mais tarde foi-se saber. O motorista que os trouxeram parou o veículo abruptamente e, aproximando-se do beiral da carroceria disse à mãe assustada:
         — Chispa. A mãe agarrou a filha e aconchegou-a ao peito, num instinto de proteção. Os olhos estavam fitos no homem de pé à sua frente.
             — Vamos, chispa — e tentou puxá-la pelos cabelos. Ela ameaçou-o com a mão espalmada e pagou muito caro. Subindo para a carroceria, o homem a pegara pelos cabelos e a jogara no chão. No desespero para segurar-se em algo, Nina caíra dos braços da mãe. O homem a lançara sem piedade para o chão, mas o céu intercedeu em favor da menina, pois uma moita de capim a amparou e ela sofreu apenas um leve susto. Ao contrário de seus irmãos que caíram de mau jeito e sofreram forte traumatismo. Debilitados e famintos, pouco depois os meninos eram apenas as reminiscências que flecharam o núcleo do coração da mãe, deixando Nina sozinha no mundo.
Mas a menina não tinha idade para compreender absolutamente nada disso. Ela compreendia apenas que estava com fome, por isso se punha a chorar e a andar sem rumo. Já era quase noite fechada. O destino a levara até a casa de Beatriz, na porta da qual ela gemia e chorava fracamente. Ao ouvir os gemidos, Beatriz olhou pela janela e ficou petrificada. A moça não sabia se chamava a polícia ou gritava sua mãe. Não fez nem uma coisa nem outra. Sensibilizada com o estado da garota, a moça abriu a porta e trouxe a menina para dentro. Ofereceu-lhe leite, carinho e proteção. Beatriz deu-lhe também um nome e, assim, ela passou a fazer parte da família. Agora Nina era a mascote da família. Poucos dias depois, ninguém reconheceria aquela menina esquálida que viera não-se-sabe-de-onde procurar abrigo justamente na casa de quem tinha muito amor para dar.
Nina era a sua menina, como Beatriz gostava de dizer. Dormiam no mesmo quarto, pois ela não queria perdê-la jamais. Cada manhã era saudada com entusiasmo por Beatriz porque Nina era a luz do seu amanhecer. Nina era o tênue raio de sol após um longo período de inverno. E o tempo passou rapidamente. Nina cresceu e ficou linda, com seus grandes olhos agáteos. Os cabelos agora sedosos e bem tratados escorriam em suaves cascatas pelas suas espáduas. Beatriz esquecia o queixo ao fitar a menina que, aliás, já não era mais uma menina. Tornou-se uma moça muito bonita e sensual.
Agora Nina já insinuava para os gatinhos que desfilavam na rua de sua casa. Beatriz quase morria de ciúmes da filha e comadreava com Bella que tinha de arranjar um rapaz bonito, de boa linhagem para se casar com Nina. No papel de mãe, ela não permitiria que sua princesa se amancebasse com um cafajeste qualquer. Ela queria agora um garoto à altura da beleza de Nina, para que seus netos fossem tão lindos quanto sua própria filha. Aqueles que não se enquadravam no perfil de beleza concebido por Beatriz eram sumariamente enxotados de sua casa. Até água quente servia de repelente aos mais afoitos. Lógico que ela não deixaria que sua filha sujasse o sangue com um joão-ninguém “sem lenço e sem documentos”. Até que Nina conheceu Romão.
Romão era vizinho de Beatriz. Freqüentava sua cozinha, quando ela não estava em casa, pois a moça o detestava. Um dia, ele chegou ao extremo de pular pela janela e roubar os bolinhos de bacalhau que Beatriz preparara para o jantar. O infeliz era manco, gago, de fala fina e por cima, caolho. O pior era que Nina dava o maior bolão para ele, mas nunca haviam conversado, pois sua mãe sempre se opunha. Inclusive, naquele dia Nina estava de castigo por causa de suas insinuações desavergonhadas, como dizia Beatriz. Porém, num pequeno descuido Romão já estava pronto para a entrevista:
— Cumé qui você cha... a... a...ma? Ela virou os olhos para cima como a dizer “eu mereço”, e explodiu:
— Ni...i...i...i...naaaa! — e deu-lhe uma palmada na cara. Sua voz esganiçada por causa da raiva fez com que Romão se encolhesse, acovardado. Passado algum tempo, a moça compreendeu que o garoto não tinha culpa se ela estava de mau humor. A verdade é que tudo parecia conspirar contra ela. Sua mãe não a deixava mais sair na rua. Seus amigos foram enxotados de sua casa. Alguns apenas olhavam de longe, por cima do muro, mas ao verem Beatriz, saíam correndo com mil e quinhentos diabos no couro. Será que sua mãe queria que ela ficasse para titia? Com esses questionamentos tamborilando em sua cabeça, Nina deu uma risadinha à guisa de desculpas. Romão retribuiu, aceitando o pedido. A culpa fora dele, que não soubera fazer a abordagem. Beatriz estava na janela e os viu. Logo começou a rezar baixinho. — Meu Deus, tenha piedade! Oh, Deus proteja a minha menina...
Mas o destino resolveu brincar com Beatriz. Nina achou que não lhe custaria nada atar uma amizade com aquele garoto, até porque as disparidades sociais fazem o equilíbrio das almas nobres. Nina era bem criada e educada. Romão era pobre e tímido. Possuía um sotaque sulista, bem carregado no “erre”. Notava-se pela maneira esquiva que até poderia ser um larápio — Nina concedeu. Mas, o que importava? Ela precisava mostrar à sua mãe para que viera.
— E você, como se chama? — fez Nina, com trejeito.
— RRRomão! RRRomão! — gaguejou o moço, timidamente. Ela riu, mostrando duas fileiras de dentes muito bonitos.
— O rrrato rrroeu a rrroupa do rrrei RRRomão — ela brincou, imitando seu sotaque. Eles riram. Como se aquela brincadeira fosse uma senha, ambos se enlaçaram num abraço rápido e violento.
Ni... i... i...i... na! Que pensa que está fazendo? Passe já para dentro! Sua mãe gritou, tentando evitar o pior. Não, não foi aquele o marido que ela havia pedido para sua princesinha — pensou. Mas Nina não ouviu. Aliás, não queria ouvir. Saltou o muro dos fundos e ambos foram para debaixo de uma mangueira no quintal vizinho. Afinal, ela estava cansada daquela superproteção. De que lhe adiantaria ser bonita, se ela não podia ser o que ela queria? Ela precisava viver para si mesma, doesse em quem doesse. Chorando, Beatriz sucumbiu.
Agora, com a barriga quase arrastando no chão, a gata angorá dormia placidamente na cesta de vime. Parecia cansada, mas feliz. A comadre Bella forrava a cesta carinhosamente, com um acolchoado macio que ela trouxera de presente, pois em breve acomodaria os seus novos afilhados.
— Nossa, comadre! Não aguento mais de curiosidade para ver meus novos afilhados — disse Bella. Agora foi Beatriz quem retribuiu com pesar:
— Pena que o pai é um vira-lata caolho!


[1] REIS, Jonan de Castro. Poeta, contista e romancista. Autor de Arremedo: Contos & Lorotas (Kelps, Goiânia, 122 p) e Marcas do Infortúnio, romance (Kelps, Goiânia, 334 p).

Obs: Este texto faz parte do livro Arremedo: Contos & Lorotas, 2009.

sábado, 5 de março de 2011

TENHO PENA DELA...

J. Castro[1]

Não é utópico afirmar que o senso de humor feminino é uma característica capaz de superar a própria beleza física. Também não é nada vergonhoso admitir que os homens adorem ver mulheres bonitas, pois os traços físicos têm o poder de neutralizar os demais órgãos dos sentidos e aguçar ainda mais o sentido da visão. Assim, para alguns homens uma mulher bonita pode dar-se ao luxo de ser chata, pois os atributos físicos amenizam o contraste devastador entre a beleza e a chatice, transformando a portadora de tamanha desventura em um ser aceitável à vista.
No entanto, para um homem inteligente o senso de humor é o principal quesito da alma feminina; é o fator determinante da grandeza de uma mulher. Aliás, fala-se à boca de trombone que o senso de humor é o diferencial que eleva as mulheres desprovidas de beleza física à categoria de igualdade e até de superioridade frente à sua competidora, a outra. Mas isto não é o caso de Marina, a Franga.
— Franga é sua avó, sua mãe, sua esposa, sua filha e suas sobrinhas — dizia a mal humorada Marina.
A autora dessa pérola genealógica (cá entre nós) é uma negra das canelas cinzentas e nariz adunco, que mora no salão fazendo química nos cabelos. O resultado da progressiva nada mais é do que uma progressiva queda nos cabelos. Todo dia de manhã e à tarde, quando chega ao escritório Marina tira o capacete e apanha o espelho. Após quase trinta minutos de escovação e votos Marina junta os fios caídos em um grande molho e os joga no lixo. É de fazer remorso olhar o cesto de papéis com o fundo repleto de cabelos de várias medidas, dando a ideia de penas. Naquele dia, por exemplo, havia penas em cima da mesa, sobre o assento das cadeiras e no teclado do computador. Até o mouse óptico perdia o contato devido ao excesso de penas, as rodas das cadeiras giratórias emperravam-se por causa das penas enroscadas nos eixos. A alcunha serviu como uma luva: Franga.
Mas, na verdade Marina nada tinha de franga, uma vez que a avaliação da autenticidade de uma franga se dá por meio das canelas e, no caso em questão, as de Marina já apresentavam as marcas indeléveis dos bons tempos de outrora. Todavia, chamá-la de galinha era por força da ética uma atitude preconceituosa. Convém admitir que num ambiente onde a palavra de ordem é o espírito jovem, não se pode cobrar certas formalidades. Assim, as brincadeiras e as alcunhas são inevitáveis para que as horas passem de forma descontraída e mais depressa.
Calcinha era o apelido de uma mulher que vivia rifando o cofrinho a quem oferecesse uma moeda de maior valor. Lulu era um rapaz de espírito inquieto e muito criativo, que vivia inventando objetos eletrônicos e fazendo experiências. Dado o espírito criativo, dizia-se que era Santos Dumont, em alusão ao inventor do avião. Com o passar dos dias, devido ao sobrenome “Santos”, o apelido evoluiu para Lulu Santos. Daí a simplesmente Lulu foi só uma questão de consenso. Narizinho era uma moça de nariz arrebitado que parecia farejar algo que nem ela mesma sabia o que era. Pantera se justificava pelo porte elegante e a pele acetinada de uma morena que não carecia vergonha de ser bonita. Ela possuía também um sorriso espontâneo para oferecer a todas as pessoas que se aproximavam dela.
Da mesma forma, Bombom era uma moça de fragilidade dócil, pele cor de caramelo e muito carinhosa que sugeria um delicioso chocolate. Não havia quem não quisesse abraçá-la e beijá-la, tal a doçura que emanava daquele ser. O autor dessas alcunhas fazia suas observações e “batizava” suas personagens com um nome à altura de suas características dominantes. A capacidade analítica de Bill era lendária, de sorte que Marina ria escandalosamente dessas analogias, admirando a capacidade criativa e espírito livre do autor. No entanto, Marina perdeu a melhor oportunidade de sua vida ao propor a Bill:
— Ponha um apelido em mim! — Quero ver com o que você vai me comparar — e ria cacarejando.
— Não é bem assim! Eu preciso de inspiração — desconversava, mas sua mente já estava em polvorosa, fazendo analogias para encontrar a resposta de que necessitava. Atentando bem para a risada de Marina, Bill teve um insight e deu uma risadinha marota ao olhar para ela.
— De que você está rindo? — Marina perguntou.
— Nem queira saber — tentou ignorar, para ver se perdia o sinal do satélite. No entanto, o satélite continuou a enviar mensagens para o seu cérebro.
— Está rindo da Calcinha ou da Pantera? — e cacarejou feito galinha. Num impulso fatal, Bill sentenciou:
— Franga. Uma vez alcunhado, não havia retorno, não nos casos em que Bill sentenciava. Todos aderiram. Até mesmo Marina riu. A partir daquele momento, quando se via algum fio de cabelo solto pela sala, sempre havia alguém para dizer:
— Marina, olha uma pena sua aqui! — Ela ria sem graça. Quando Marina chegava mais cedo ao trabalho, dizia-se que ela havia caído do poleiro. Se chegava atrasada, perguntavam se havia acontecido um eclipse solar, motivo pelo qual ela não havia descido do poleiro mais cedo.
Todavia, acostumados uns com os outros, quase nem se percebiam que as brincadeiras estavam saindo do domínio das quatro paredes da sala. Um dia alguém chamou Marina de Franga, ao que um terceiro perguntou:
— Franga? Por quê? Está mais para galinha velha. — Todos riram, menos ela. Bill esboçou uma ruga de preocupação ao saber do ocorrido. Aquilo não ia prestar...
Dois dias após esse incidente, houve outro de maiores proporções. Alguma coisa deu errado com Marina e ela chegou esbaforida, com as penas arrepiadas. Bill perguntou:
— O que aconteceu com você, Franga? Foi aí que ela ciscou:
— Franga é sua avó, sua mãe, sua esposa, sua filha e suas sobrinhas — e, por favor, meu nome é Marina. Obrigada! Por causa disso ela passou uns quinze dias com a crista caída. Mas todos eles precisavam uns dos outros. Afinal, não valia a pena caída de uma galinha ficar de bico uns com os outros. As pazes foram feitas num clima de desabafo, entre uma colherada de sorvete e outra. Pela primeira vez Marina ousou dizer que Bill, às vezes, possuía uma criticidade ferina, mas era justo em suas concepções. Por sua vez, Bill disse que Marina possuía um péssimo senso de humor. Já que as roupas sujas foram lavadas, estava na hora de um recomeço.
Bill se lembra até hoje de um episódio que aconteceu numa roda de amigos em que havia apenas uma garota, Carla. Era uma garota alta, bonita e destemida, que falava o que lhe vinha à boca. No entanto, Carla possuía um senso de humor fantástico que punha no tapete qualquer um que ousasse tirar casquinha dela, pensando que iria deixá-la na berlinda. Fazia muito calor e Carla disse, abanando o rosto no sentido de provocar ao menos uma tímida corrente de ar:
— Com este calor sou capaz de chupar uma melancia inteira. Bill improvisou um trocadilho:
— Mas assim você vai ficar parecendo uma melancia madura! Carla não se fez de rogada:
— Posso até ser uma melancia, Bill, mas quero ser rachada de boa. A expressão “rachada” foi proferida num tom levemente malicioso, evidenciando a sua condição de mulher, o que caracterizou o senso de humor da tirada. Bill estendeu a mão a Carla:
— Meus Parabéns! Adorei o seu senso de humor!
— Obrigada! Pode acreditar que haverá melancia rachada para todos. Desta vez as risadas foram unânimes. O senso de humor de Carla era algo desconcertante. Mas Marina era o avesso disso. Não possuía senso de humor e nem beleza. Alguns meses depois, Marina havia comprado um carro e estava se achando a todo-poderosa. No entanto, o custo de manutenção de uma mulher não é algo lá muito barato. Ainda mais em se tratando de uma mulher que queria ser ou pensava que era bonita. Ela pediu dinheiro ao marido para o salão, ao que ele perguntou:
 — De novo? — mas ela ainda tentou sair de salto alto:
— Mas você não gosta que sua mulher fique bem bonita? Mas o marido fez o que jamais um homem deve fazer com uma mulher:
— Claro! — E por que não fica? Marina arrepiou as penas e saiu ciscando tudo o que encontrava pela frente, inclusive o lençol da cama. O jeito foi o maridão ir dormir na rede por uma semana. No entanto, a abstenção sexual prejudicou ainda mais o senso de humor de Marina. Ela estava subindo pelas paredes de estresse. Ao chegar ao escritório Bill percebeu que algo errado acontecera com ela:
— O que lhe aconteceu que suas penas estão arrepiadas hoje, Franga? — Era a gota que faltava. Ela abriu as asas e partiu para cima de Bill, dando bicadas e insinuando dar até esporadas. Penas voavam para todos os lados, enquanto ela cacarejava como se estivesse protegendo uma ninhada de pintinhos de um predador implacável.
 — Xô, Franga! Parece que está vendo alguma cobra? — zombava Bill. Quanto mais Bill enxotava, mais e mais ela investia.
Não é de se admirar que a crista da Franga até hoje se encontra caída ao longo do bico. Ela passa por Bill cantando: cóoo... cóoo... cóoo... para não se sentir na obrigação de cumprimentá-lo ou mesmo se despedir. Bill não sabe se algum dia ela vai se recuperar. Pelo visto...
— É... Tenho pena dela — dizia Bill... e sacudia as roupas para tirar alguma pena que, por ironia do destino teimava em grudar em suas calças.


[1] REIS, Jonan de Castro. Poeta, contista e romancista. Autor de Arremedo: Contos & Lorotas e Marcas do Infortúnio. Membro da Academia de Letras do Extremo Sudoeste de Goiás, membro da Academia de Letras do Brasil – ALB, membro dos Poetas Del Mundo e Cônsul no Entorno de Quirinópolis – GO.

sábado, 19 de fevereiro de 2011

A MEDIDA INEXATA DE UM CONTISTA


Prof. Dr. Ravel Giordano de Lima Faria Paz
Professor de Literatura da Universidade Estadual de Goiás
Unidade de Quirinópolis – GO.
Doutor em Letras pela Universidade de São Paulo.


O título deste pequeno comentário crítico, que Jonan de Castro me pediu à guisa de apresentação de seu livro “Arremedo: Contos & Lorotas”, foi inspirado no título original de um dos contos deste volume — “A medida exata do ser humano”, afinal substituído por um singelo “Colhendo flores”. O primeiro título me parecia muito significativo porque expunha com precisão — e precisão matemática! — uma das características mais fortes, senão a mais forte, dos contos do autor: a propensão a defrontar os seres (sempre humanos, apesar de alguns deles latirem ou piarem) com situações-limite, nas quais seu verdadeiro valor deve obrigatoriamente vir à tona.
 Mas não lamento a troca: o novo título, ganhando em sutileza, demonstra uma outra propensão do contista Jonan, que é a busca de depuração de sua arte. De fato, as indicações cronológicas quanto à composição de alguns contos, que obtive do próprio autor, parecem confirmar que temos aqui o testemunho vivo de um talento em plena evolução, talvez no sentido de uma arte um pouco menos exata, mas ao mesmo tempo mais certeira: não porque vai direto ao alvo, e sim porque tira faíscas dele. Mas devagar com o andor, que o santo é de barro e o autor deste livro é, por ofício e por princípio, um iconoclasta.
 Quando J. Castro me pediu um comentário sobre seu romance ainda inédito — e do qual infelizmente não pude ler senão o início, um pouco da metade e, é claro, o final —, escrevi-lhe que ele me parecia fruto de um talento monstruoso. Eu fazia uma relação desse talento com um dos protagonistas daquele livro: o jacaré Nick, cuja bocarra eu imaginava escancarada para o leitor, ao mesmo tempo que tinha os dentes inocentemente palitados por um passarinho. É o tipo de risco com o qual o autor parece defrontar seus leitores e personagens o tempo todo; e ainda quando meramente simbólica (ou acompanhada de uma flor, como no conto a que já aludi), a dentada não é necessariamente menos doída.
 É claro que aquela “monstruosidade” toda tinha seus aspectos positivos e negativos. O fôlego narrativo-descritivo e o furor sarcástico pareciam-me por vezes fugir ao controle do escritor, chegando em alguns momentos a descambar para o gratuito. Em todo caso, seria preciso ler o romance inteiro. O que parece certo é que neste volume de contos o talento de Jonan surge mais domado, seja por uma questão relativa à forma curta ou, como já disse, pela própria evolução do artista. J. Castro tem a humildade de chamar seu volume — numa irônica associação com um de seus contos mais sérios — de Arremedo, mas a verdade é que a maior parte de suas histórias é bem amarrada. Talvez, para ser sincero, até um pouco demais, não só porque os laços da forma por vezes se estreitam muito, mas também porque com frequência eles são reforçados por um encordoamento francamente moralista; cordas estas, felizmente, muitas vezes afrouxadas pelo humor, que às vezes predomina sem peias, como na história da “primeira calça comprida”. 
 Por outro lado, o olhar moralista não deixa de ter a ver com a força de narrador e psicólogo de Jonan, capaz de surpreender detalhes sórdidos nas unhas mais lustrosas (vide, ainda, “Colhendo flores”). Se fosse indicar uma “posição simbólica” para o escritor no interior desse conjunto de narrativas, creio que a mais adequada seria ao lado daquele obscuro TDF do conto “Um enviado multifacetado”, aquele homem sem “nome, idade nem altura definidos” que sai distribuindo, um pouco como um arcanjo bíblico, a primavera ou o caos pelos cantos do planeta. Ao lado ou acima dele, ou seja, em franca associação com o chefe supremo do Testa-de-Ferro.
 Esse lugar de supremacia, a ironia e análise psicológica são alguns dos traços que aproximam, ainda que lateralmente, os contos de Jonan da obra do “mestre Machado” (de Assis), cuja trama em “O enfermeiro” o “discípulo” goiano retoma e corrige em “Confidências de um finado”. Aqui mesmo, aliás, a supremacia irônica do olhar de Jonan se manifesta da forma mais ousada, num atrevimento que não é só o de transformar os temas machadianos num verdadeiro samba do crioulo — ou “preto véio” — míope como o de afrontar, no mesmo compasso desse gesto, o próprio velho bruxo em um dos pontos mais polêmicos de sua obra, e que é a suposta esquiva em relação à realidade da escravidão no Brasil. E seja essa esquiva apenas suposta ou não, o fato é que em nenhum de seus grandes contos e romances, Machado — como Jonan, um homem de cores fortes — teve essa ousadia jonaniana, de emprestar a um afrodescendente a voz narrativa responsável por contar a história — e uma história, diga-se de passagem, que faria o próprio Brás Cubas revirar no túmulo.
 Mas se a ousadia de analisar e julgar o mundo, os homens e seus atos é o que empresta vigor a boa parte dos contos de Jonan — em certos momentos com inegável força dramática, como no fecho de “O preço do abandono” —, por vezes o olhar punitivo que orienta o destino dos personagens tende a transformá-los em caricaturas, pela via de um processo de superexposição que sublinha seus traços ora ridículos, mesquinhos ou grotescos. Algumas vezes a própria ação não ultrapassa o anedótico. Mas também é preciso reconhecer que algumas das “lorotas” deste volume, como a do impagável “indecifrável enigma”, ou mesmo a já citada história da calça, estão entre as suas melhores peças. Jonan transita por extremos, e caberá ao leitor avaliar com que habilidade ele opera cada um de seus saltos, sejam eles despretensiosos ou “mortais”.
 Em todo caso, é importante reconhecer que esse olhar entre sarcástico e inquisidor não impede, o mais das vezes, que aflore o talento do escritor nato, afeito ao trato com as palavras. Evitando os excessos de coloquialismos e regionalismos, o autor assume os riscos do compromisso com a correção gramatical, o que, em se tratando da nossa língua portuguesa, é quase sempre uma luta ingrata, e portanto um risco ainda maior para qualquer revisor. Mas a busca de correção não impede a apreensão, lapidada ou espontânea, da dicção e dos cacoetes populares em momentos preciosos, seja em registro cômico (“Até onde irei com o meu Poisé?”) ou dramático (“O grito do silêncio”).
 Eis aí, aliás, dois bons contos que talvez permitam uma visão de síntese dos impasses deste volume. À qualidade de textos bem estruturados — o primeiro, numa vertiginosa roda-viva de vozes e protagonistas, o segundo num insólito “triálogo”, no qual a projeção de um si-mesmo é obrigada a encarar a realidade inapelável de um outro — se soma, no final de um, o acerto de uma dúvida aflitiva que nos conduz a um tipo de “suspensão” tão irônica quanto sublime, e no de outro o desacerto (a meu ver) de um julgamento implícito que joga por terra boa parte da riqueza reflexiva a que ele poderia nos conduzir. A seriedade, aqui, mais dilui do que reforça a densidade da situação. Inversamente (pelo menos nesse caso), o humor ajuda a conjugar leveza e profundidade na história de Robson e seu Poisé.
 Com o perdão dos trocadilhos, eu diria que é quando consegue afrouxar o arremate sem fraquejar a mão que J. Castro compõe seus melhores “arremedos”. Trata-se, como disse, de um iconoclasta: sua especialidade — sua melhor especialidade, pelo menos — é destruir a imagem que os homens erigem de si mesmos ou dos outros. Mas o que sobra desse gesto? Um julgamento explícito ou implícito, ou aquele grão de imponderável na vida humana que resiste às misérias da alma e às armadilhas do destino? Esse grão é faísca da seta que apenas resvala o alvo, a medida inexata de um contista.