REIS, Jonan de Castro[1]
SOUZA, Meyre Aparecida Silva
É quase impossível para o poeta crítico evitar a ereção de seus próprios gostos, intimamente ligados ao seu próprio tirocínio, em lei geral da literatura. Mas a crítica tem de basear-se naquilo que o conjunto da literatura realmente representa.
(Northrop Frye)
A analogia que se estabelece entre os textos “Coisas do coração”, de J. Castro e “Paranóia”, de Augusta Faro é fundamentada nos valores, nos sentimentos e no comportamento dos seres. Embora os textos em análise possuam características peculiares de exposição, seu verdadeiro valor semântico deve vir à tona.
O fato de os autores utilizarem animais como figuras alegóricas não impede que as características físicas e psicológicas dos seres humanos possam ser mensuradas. Nesta perspectiva, temos aqui, mais que uma fábula de cunho moral; aliás, temos duas narrativas-conto em que os vícios e virtudes dos seres não-humanos são representados metaforicamente por meio de um jogo ideológico.
O conto de Augusta Faro, narrado em primeira pessoa, tem como personagem principal o próprio narrador contando sua história. Conforme Massaud Moisés “no foco narrativo em que a personagem principal conta a história – o narrador emprega a primeira pessoa [...] assim limitando a área da narrativa, que fica circunscrita ao narrado, pois é de sua história que se trata: a própria personagem interessada na história – visto ser o protagonista central – nem sempre é a mais indicada para contá-la, pois somente a interpretará de seu ângulo pessoal, o que implica uma visão limitadas das coisas”.
Já em Castro, o conto foi narrado em terceira pessoa, com o narrador-analítico ou onisciente contando a história. Essa posição do narrador permite um ângulo privilegiado do cenário e das personagens implicadas no conto. Assim, o narrador pode navegar livremente pelo palco, observar todos os personagens e estabelecer um julgamento imparcial sobre as suas características humanas. Ainda segundo Massaud Moisés “o narrador-onisciente torna-se verdadeiramente o demiurgo: acompanha as personagens a todos os lugares, penetra-lhes na mais recôndita intimidade; com um agudíssimo olho secreto devassa-lhes o mundo psicológico, esquadrinha-lhes os abismos inconscientes e subconscientes, conhece-lhes, enfim, as mínimas palpitações”.
O texto de Augusta Faro é um conto de ação, em que o “eu” trava uma luta de vida ou morte com um ser repulsivo e cruel que o ameaça com sua simples presença. Essa modalidade de texto é uma das mais utilizadas pelos contistas, principalmente os iniciantes, por considerá-lo de mais fácil navegação. O texto tem uma linguagem simples, permeada de adjetivos que qualificam a personagem, estabelecendo o seu perfil físico e psicológico. Os adjetivos, empregados em uma superdosagem traduzem todo o ódio que a personagem narradora tem do ser em referência. Em suma, o narrador-personagem tem no ódio a marca indelével de sua vingança contra o ser dominador, repulsivo e cruel que manipulava e amedrontava sua vítima, a ponto de fazê-la sair de casa, caminhando sem rumo só para fugir da presença dele. Vejamos: “E com isto só desejava e sonhava sua morte, com toda força de minhas urgências, de meus nervos e juntas. Todas as urgências, que eu conhecia e desconhecia e guardava dentro de mim, queriam vê-lo MORTO”. Faro faz uma associação entre uma sociedade oprimida e dominada, onde estão presentes os sentimentos sórdidos de ódio, mágoa e vingança contra o ser dominador. Inclusive, o ponto culminante da vingança é destacado com letras maiúsculas, o que demonstra a força narradora da personagem. Faro faz um retorno ao passado ao associar as características psicológicas do ser repulsivo e do professor de educação física que defrontava o “eu” narrador. Quando o professor morreu atropelado toda a turma sentiu-se aliviada. Nota-se que o ódio está presente em todos os eventos da vida da personagem.
Já o texto “Coisas do coração” é o contrário do texto de Faro em sua ideologia, uma vez que em Castro o amor é incondicional, de certa forma até super-protetor. O texto de J. Castro inicia-se num ex-abrupto, com um diálogo entre as duas comadres: “Até hoje não consigo entender por que Nina foi se envolver com aquele joão-ninguém” para depois desenvolver-se num crescendo evolutivo até o desfecho do conto, o momento em que Nina se enlaça com Romão e Beatriz dá um grito de desespero “Ni... i... i... na! Que pensa que está fazendo?”. Depois o conto descamba num monólogo, ou num discurso indireto livre em que a personagem se liberta das amarras que a prendem ao opressor. Esse grito de liberdade é caracterizado quando Nina salta o muro dos fundos e vai para debaixo da mangueira com Romão. Ela estava cansada daquela superproteção.
O texto de Castro é interessante, pois defende a idéia do ser preso pelas amarras de uma sociedade opressora, mas de valores éticos arraigados em sua estrutura. No entanto, outra sociedade, oprimida e superprotegida se ergue em meio à prepotência dominadora e grita a sua liberdade, sem derramamento de sangue, sem violência.
Embora o texto de Castro apresente marcas de preconceito, elitismo e dominação, essa tese é derrubada pela teoria de que J. Castro transforma suas personagens em meras caricaturas para conseguir o efeito, a imagem desenhada ou idealizada por ele. Não é o elitismo idealizado por Hitler em que a raça ariana alcançaria absoluta soberania frente às raças dominadas e exterminadas. Para conseguir o efeito que a liberdade de Nina possa provocar no leitor, o autor de “Coisas do coração” tece uma personagem fragilizada e oprimida por excesso de amor. Beatriz amava Nina incondicionalmente. Ela queria para a filha um marido à altura da beleza dos netos que ela idealizou, quando do acasalamento de Nina. O autor brinca com o leitor, ao dizer que Romão era manco, gago, de fala fina, além de tudo, estrábico. Os defeitos físicos adquirem uma dose espetacular de humor quando o leitor atenta para a entrevista de Nina e Romão.
Cumé qui você cha... a... a... ma? Nina encontra em Romão sua alma gêmea. Os olhos estrábicos estão voltados para outra direção. Ela acha engraçado e vira os seus para cima como a dizer “eu mereço”, e explode: Ni... i... i... i... naaaa! Nesse grito, ela se identificou com a voz fina e esganiçada de Romão. Vemos que os defeitos vão sendo compensados pela virtude de reconhecê-los e aceitá-los como uma simples característica, não como uma marca, um estigma. Nina não era preconceituosa. Suas atitudes virtuosas caracterizam sua personalidade dócil, desprovida de vaidade em relação ao outro. Mas Romão era manco. Nina desfez essa teia por meio da brincadeira que culminou com a união dessas duas almas. A seqüência de fala imitando o sotaque de Romão sugere uma cadência: “O rrrato rrroeu a rrroupa do rrrei RRRomão” nos dá uma idéia de um galope. Nesse ritmo cadenciado, Nina quebra o preconceito contra os coxos. Ela assume a identidade do ser oprimido pelo defeito físico para torná-lo seu semelhante. A grandeza da estratégia de Castro está em utilizar as marcas do preconceito para derrubá-lo pelo poder de suas próprias marcas. Neste sentido, o Prof. Dr. Ravel teoriza: “Trata-se, como disse de um iconoclasta: sua especialidade – sua melhor especialidade, pelo menos – é destruir a imagem que os homens erigem de si mesmos ou dos outros”.
Na verdade, o texto não tem caráter preconceituoso, mas realista. Essa estratégia Machado de Assis já utilizava desde o século XIX ao traçar o perfil de suas personagens. Ela poderia ser bonita, inteligente, sedutora, mas se tivesse um defeito físico, este seria grifado. Isto não é questão de preconceito, mas de realismo. J. Castro utiliza traços realistas para mensurar os próprios vícios e virtudes do ser em exposição; neste caso, tanto pode ser humano ou não. Nesta visão, Castro utiliza traços marcantes do comportamento dos animais para determinar o comportamento dos seres humanos. É aí que as comparações e metáforas dão aos seus textos uma grande peculiaridade literária. Nas palavras da Profa. Neida Terezinha “Se o estilo é o próprio Homem, eis a razão de tanta especificidade, de detalhes que só você possui”. Castro tem estilo próprio e procura tirar proveito disso, direcionando o leitor para um determinado ponto, enquanto vai tecendo a trama por outro caminho.
Assim, o conto de Augusta Faro perde um pouco da sua visão ideológica, ao propor do início ao fim uma guerra de forças contra os opressores, sem, no entanto, apresentar uma solução inteligente para o impasse. Não adianta instituir a pena capital, é melhor conscientizar os indivíduos a se despirem dos vícios que corrompem a sociedade. Sabe-se que uma guerra se vence com inteligência e perspicácia, não com violência.
Comungando o que Northrop Frye disse na epígrafe que abre esse trabalho, realmente é difícil para o escritor crítico evitar a ereção de seus próprios gostos, pois seus textos parecem refletir a sua ideologia. Assim, o conto de J. Castro propõe uma guerra ideológica em que os opressores são vencidos pela perspicácia dos oprimidos. Beatriz chorou, esperneou, proibiu, mas sucumbiu ao grito de liberdade de Nina. Nesta perspectiva, a democracia é uma boa forma de governo, pena que alguns democratas são corruptos!
[1] Análise apresentada ao prof. Dr. Ravel Giordano Paz como requisito avaliativo da disciplina Crítica Literária, referente ao Curso de Especialização Lato Sensu em Língua Portuguesa, Literatura e Alfabetização, da Universidade Estadual de Goiás, Unidade Universitária de Santa Helena, 2007.
Valeu, Jonan. Bons tempos aqueles! Éramos tão jovens... Grande abraço e bola pra frente!
ResponderExcluirÉ... ainda hoje sinto saudades... pena que o maldito relógio não retrocede nunca! Tic-tac! Tic-tac!
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