“A verdadeira evolução de um povo se faz ao nível da mente, ao nível da consciência de mundo que cada um vai assimilando desde a infância”.
(Nelly Novaes, 2000).
Por: Jonan de Castro Reis
Ao observar, certo dia, a ilustração de um texto de Nelly Novaes intitulado “A literatura infantil e seus caminhos”, fiquei maravilhado com a harmonia perfeita entre os animais. A mensagem era simples e clara, levando em consideração a proposta de que a evolução de um povo se faz a partir dos conhecimentos de mundo que se vão acumulando ao longo da vida. E ninguém melhor que a Natureza para repassar esses conhecimentos, uma vez que o seu Criador foi, é e sempre será um Mestre insuperável.
Já pararam para observar que os animais nunca foram à escola para aprenderem o “manual” de sobrevivência das espécies? Eles não fazem cursinho intensivo de capacitação profissional no sentido de aprenderem a nadar, a rastejar, a cantar, a construir seus ninhos, a reproduzirem e outras atividades, típicas do seu mundo. No entanto, os peixes conhecem a época propícia para subirem os rios em busca de um local adequado para a procriação, as corujas sempre encontram um buraco para se resguardarem, as precavidas águias põem seus ovos nos íngremes penhascos, as serpentes peçonhentas repousam, religiosamente com a cabeça por cima da rodilha, prontas para o ataque ou defesa; os beija-flores fazem seus ninhos de plumas e os joões-de-barro jamais perderam o projeto arquitetônico de seus palácios.
Neste sentido, a literatura infantil tem papel fundamental de agente transformador numa sociedade em constante formação. Observa-se que as crianças que desde os primeiros anos já mantêm contato com os livros têm maior capacidade analítica e espírito crítico em relação aos fatos sociais. O livro continua sendo uma ferramenta eficaz para a formação dessa consciência crítica que as propostas nelliana e lobatiana tanto evocam. Entra geração, sai geração, mas o livro está aí, cumprindo o seu papel. Fortalecendo essas palavras, Nelly Novaes (2000) afirma: “No encontro com a literatura, os homens têm a oportunidade de ampliar, transformar ou enriquecer sua própria experiência de vida, em um grau de intensidade não igualada por nenhuma outra atividade”. Assim, se a literatura é a arte de representar o mundo, a natureza é o reflexo dessa arte, pois ela reflete o que o mundo tem de belo.
Nesta perspectiva, é possível fazer um “acasalamento” perfeito entre a proposta teórica de Novaes (2000) e a obra inovadora de Monteiro Lobato. Em Novaes (2000), a autora reflete: “Na literatura para crianças ou adultos, o mágico e o absurdo irrompem na rotina cotidiana e fazem desaparecer os limites entre real e imaginário”. Da mesma forma, as personagens de Lobato são despidas das formas convencionais em prol de uma roupagem que ultrapassam os limites da imaginação das crianças. Em Lobato os animais se reúnem para discutirem temas complexos como a guerra entre os humanos, a preservação da fauna e da flora – temas que até hoje causam polêmicas dignas de convenções e congressos específicos para tratarem do assunto. No entanto, as crianças as discutem numa linguagem infantil, de um modo que elas entendem sem a necessidade da intervenção tendenciosa dos adultos.
A autora de “A literatura infantil e seus caminhos” vê a criança como “um ser em formação, cujo potencial deve-se desenvolver em liberdade, mas orientado no sentido de alcançar total plenitude em sua realização”. Já Lobato visualizava o adulto na figura alegórica de um animal, pois as personagens criadas por ele eram “treinadas” para serem adultos conscientes de seu papel na sociedade. O mundo das imagens, das cores e da fantasia criado por Monteiro Lobato encontrou guarida nos postulados de Nelly Novaes (2000), uma vez que “o caminho para a redescoberta da literatura infantil, no século XX, foi aberto pela psicologia experimental que, revelando a inteligência como o elemento estruturador do universo que cada indivíduo constrói dentro de si, chama a atenção para os diferentes estágios de seu desenvolvimento e sua importância fundamental para a evolução e formação da personalidade do futuro adulto”.
Vale ressaltar que o posicionamento de Emília Ferreiro nesse contexto muito tem nos chamado a atenção, pelo fato de ela ilustrar com mestria fabulosa a teoria acerca desse tema: “Era uma vez uma criança... que estava em companhia de um adulto... e o adulto tinha um livro... e o adulto lia. E a criança, fascinada, escutava como a língua oral se torna língua escrita. A fascinação do lugar preciso em que o conhecido se torna desconhecido. O ponto exato para assumir o desafio de conhecer e crescer”.
Ora, não é necessário ser doutor das Letras ou da Psicologia para descobrir que não se pode mudar a personalidade de uma pessoa, haja vista que isto é trabalho para gerações futuras.
Ainda assim, os adultos jamais serão modificados. Então, em vez de “quebrar a cabeça” com os adultos, propondo-lhes uma mudança radical, Lobato fazia diferente: investia na inteligência e na capacidade de adaptação das crianças. Assim, teríamos um adulto transformado, adaptado, desenvolvido sem dores e sem radicalismo. Verifica-se que a criança é o ponto nevrálgico, é a espinha dorsal para injetar o remédio que curará as gerações futuras do fantasma que amedrontam a humanidade, quer seja o analfabetismo, quer seja o iletramento, quer seja a ignorância. Nas palavras de Ferreiro (2005): “é o ponto exato para assumir o desafio de conhecer e crescer”. E tudo isto sem dores nem pavores.
Ainda assim, os adultos jamais serão modificados. Então, em vez de “quebrar a cabeça” com os adultos, propondo-lhes uma mudança radical, Lobato fazia diferente: investia na inteligência e na capacidade de adaptação das crianças. Assim, teríamos um adulto transformado, adaptado, desenvolvido sem dores e sem radicalismo. Verifica-se que a criança é o ponto nevrálgico, é a espinha dorsal para injetar o remédio que curará as gerações futuras do fantasma que amedrontam a humanidade, quer seja o analfabetismo, quer seja o iletramento, quer seja a ignorância. Nas palavras de Ferreiro (2005): “é o ponto exato para assumir o desafio de conhecer e crescer”. E tudo isto sem dores nem pavores.
Não é utópico enfatizar que os adultos de hoje sofrem com as transformações de ordem social e cultural que ameaçam ruir o universo vivido por eles. As tecnologias são importantes para o desenvolvimento econômico, social, cultural e político de uma nação, mas são farpas que incomodam os pés cansados das pessoas adultas, acomodadas, principalmente os idosos e, podem crer – foram criadas por pessoas jovens, que gostam de incomodar e provocar. Assim, as crianças e os jovens criados nesse mundo cercado por tecnologia se adaptarão mais facilmente, ou melhor, não sofrerão as agruras das mudanças que elas provocam na vida das pessoas adultas. Da mesma forma, as crianças que crescerem em contato com as ferramentas capazes de promoverem transformações sociais e culturais, facilmente encontrarão soluções práticas para situá-las no contexto ao qual estão inseridas.
Emília Ferreiro (2005) resume: “Todas as pesquisas coincidem num fato muito simples: a criança que esteve em contato com leitores antes de entrar na escola aprendeu mais facilmente a escrever e ler do que aquelas crianças que não tiveram contato com leitores”. Essa teoria é reforçada pelas propostas de Monteiro Lobato e de Nelly Novaes que são a de investir na capacidade de adaptação da criança para se ter adultos conscientes do seu papel na sociedade.
Diante desses argumentos, não cabe a nós, escritores e poetas – ou ainda meros estudiosos traçar diretrizes fantasiosas no sentido de incentivar a consciência crítica, uma vez que a receita já está pronta há décadas. O que se deve fazer é continuar a bater na mesma tecla do piano, pois é ali, naquela tecla desgastada pelo tempo, que está situada a primeira das centenas de notas do acorde que se transformará em um grande concerto, digno do mestre sabiá. E nem assim a natureza baterá as palmas, mas pelo menos dirá: Ufa! Já não era sem tempo!
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
CADEMARTORI, Lígia. O que é literatura infantil. 4.ed. São Paulo: Brasiliense, 1987.
COELHO, Nelly Novaes. Literatura infantil: teoria, análise, didática. São Paulo: Moderna, 2000.
FERREIRO, Emília. Passado e presente dos verbos ler e escrever. Trad. Cláudia Berliner. 2.ed. São Paulo: Cortez, 2005.
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REIS, Jonan de Castro é contista, poeta e romancista. Autor de Arremedo: Contos & Lorotas (Goiânia: Kelps, 2009, 122 pp.) e Marcas do Infortúnio (Goiânia: Kelps, 2010, 334 pp.). É membro da Academia de Letras do Brasil – ALB, membro da Academia de Letras do Extremo Sudoeste de Goiás – ALESG, membro da Associação de Poetas del Mundo e Cônsul de Poetas del Mundo, Entorno de Quirinópolis – GO.
AMEI SUAS REFLEXÕES...
ResponderExcluirDIGNA DE UM MESTRE MESMO...LOBATO,FERREIRA E NOVAES COM CERTTEZA, SE SENTIRIAM LISONJEADOS COM AS ASAS QUE LHE DEREM SEUS TEXTOS!
ABRAÇOS CARINHOSOS, ELISÂNGELA MARTINS
Professora Elisângela, obrigado pela visita e pelo incentivo à cultura. O Brasil precisa disso para se tornar uma grande nação.
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