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sábado, 2 de abril de 2011

O CÉU É O LIMITE

J. Castro[1]

É nos píncaros dos montes solitários, no ponto mais elevado das íngremes montanhas que a águia põe os seus ovos. Longe das turbulências que assolam o ambiente e imune aos perigos impostos pelas outras aves de rapina, ei-la a chocar.
Enquanto a fêmea aquece o ninho, o macho sai à procura de alimentos e, depois de saciado, empoleira-se no cume de uma elevação rochosa e põe-se a vigiar, olhos atentos a qualquer movimento à sua volta. Seus olhos cintilantes a tudo observam. De repente, um grasnido rouco e autoritário se faz ouvir:
— Zé! O macho voa imediatamente para junto do ninho, enquanto a parceira se levanta, cedendo o seu lugar. É hora de render o plantão.
A fêmea reconhece o próprio poder, lança um olhar altaneiro e contempla o horizonte a perder de vistas. Ela agita as asas, exercita as pernas, grasna uma última recomendação ao parceiro:
— Cuidado com o guaxinim! — e sai em busca de sua sobrevivência. Enquanto paira no ar, as asas bem abertas quase a abraçar o mundo, os olhos flamejantes observam o grande abismo embaixo de seus pés. Como minúsculas formiguinhas, os seus vassalos se movimentam de um lado para outro, sem parar.
A vários metros de altura, ela consegue enxergar um vulto insignificante: um pequeno pontinho ou um risco que se movimenta entre as pedras e gravetos ressecados. Pode ser um camundongo, um lagarto, ou mesmo uma serpente — pensa. Ela não se faz esperar. Flexiona as asas para baixo, quase a encontrar as duas extremidades e risca o céu, cortando o espaço que a separa de sua presa. A velocidade com que desce e o contato de suas asas cortando o vento provocam um assobio característico, um chiado que inibe a tentativa de fuga das presas, que parecem hipnotizadas. E este momento de indecisão é crucial, porque em fração de segundos, ei-las nas garras daquela que domina as grandes alturas.
Ao pôr-do-sol, já de volta ao ninho, ela põe-se ao cume de uma elevação, em um local estratégico, de onde pode vigiar o ninho e proteger a si própria. Os dias se passam num martelar constante de um moinho a monjolo, enquanto os ovos vão-se aquecendo e mudando a sua cor. Sob o calor daquele aconchego outro ser vai tomando forma.
Ao tempo da vida nascem os pintainhos. Por muitos dias são alimentados no bico pelos seus pais. Aos poucos, a plumagem vai-se tornando espessa, as pernas vão-se firmando, até que os franguinhos já podem suster-se de pé. Ao cabo de mais alguns dias, um dos pintinhos arrisca uma olhadela no precipício, seguido de perto pelos pais. Movido por uma extrema curiosidade, ele estica o pequeno pescoço, vira de um lado... de outro... e volta para o ninho, piando, amedrontado.
— Credo! Credo!
Mas agora a roupagem do seu corpo já está quase coberta. As pernas não estão de todo firmes ainda, mas o franguinho já não suporta a submissão de ficar no ninho. Põe-se em cima da penha à espera do alimento trazido pelos pais. O franguinho vê ao longe sua mãe que baila majestosamente ao sabor do vento, vindo ao seu encontro. Ele já vai esperá-la fora do ninho, as asas bem abertas para manter o equilíbrio, o biquinho aberto. A mãe deposita em seu bico a ração do dia, e voa para o topo da elevação. O filhote ainda pia sem parar. O sol lança seus raios luminosos sobre suas asas e, de seus olhos rubicundos cintilam reflexos multicores, enquanto as asas são agitadas e experimentadas. Do alto de seu observatório o casal a tudo observa e lhe transmite a cada dia a lição da vida.
Então chega o grande dia.
A águia-mestra iça o frangote em suas potentes garras e leva-o ao pináculo da penha. A penha do sacrifício. Em baixo está o precipício a perder de vista. Em cima, o firmamento a sugerir a liberdade e o poder. Seus olhos brilham. Ele percebe que vai ser posto à prova, mas aceita o desafio confiante, sem vacilar. Ele sabe que pode confiar em sua mãe. Por outro lado, a águia-mãe confia no poder de suas asas e na força de suas garras.
Preso às garras da mãe, o franguinho observa o precipício, os cumes dos montes, as depressões e, por último, suas vistas contemplam o horizonte, a liberdade dos dominadores. No entanto, para consegui-la é preciso ser provado no fogo — o que, na verdade — é o seu destino. Ele sabe disso.  Está com medo, mas não se debate. Sabe que sua mãe já passou por isso e que ele, mais cedo ou mais tarde teria que passar pela mesma provação.
— Vamos logo com isso — decide.
Içado para as alturas pelas pontas das asas, o frangote fecha os olhos para se concentrar no que tem a fazer, após ser solto no espaço. A águia sobe dando voltas, até atingir uma altura satisfatória. Agora ela paira no ar. O pintinho sente uma grande emoção, ao contemplar a beleza do firmamento. Ele sente o poder que flui das garras de sua mãe, como uma corrente elétrica.
A mãe-águia equilibra no ar, acaricia a cabeça do filhote e ordena-lhe que observe à sua volta, que olhe para frente, nunca olhe para baixo. O filhote pia, aquiescendo. No último momento, ela grasna uma advertência:
— Vá! O céu é o limite.
Ela solta o franguinho no espaço que o separa dos cumes das penhas e do profundo das depressões rochosas. Naquele momento ele é despojado do poder que até então compartilhava com sua mãe. É como desconectar o pino da tomada elétrica. Ele sente a ausência do apoio que o sustinha com firmeza. Sente como se estivesse andando em terra firme e, de repente, a terra desaparecesse de sob seus pés. Um vácuo. O mesmo que um patamar além do último degrau de uma escada. Ele sente um tremendo calafrio e pia em desespero. No auge na descida, ele vira duas... três... quatro cambalhotas antes de começar a bater asas desordenadamente, mas depois consegue voar, embora desengonçadamente, uns três metros adiante e capota novamente. Ele começa agora a perder altura consideravelmente, sempre dando cambalhotas. Um desespero assustador toma conta de si e ele começa a piar. Um piado agudo e desesperado. Numa de suas cambalhotas, ele olha para baixo e vê as pedras da montanha como pontas de lanças a gritar o seu nome. Sente como que um punhal a enfiar-lhe nas entranhas, ao pensar que dentro de poucos segundos pode estatelar-se nas pedras. E continua a dar cambalhotas e a perder altura.
A altívaga a tudo acompanha do seu posto de observação, movimentando as asas freneticamente, equilibrando-se no ar. Ela ouve o pedido de socorro angustiado do filho, mas ignora-o para que ele não demonstre fraqueza. Novamente o pio. O franguinho tenta olhar para cima para ver sua mãe pela última vez, mas a velocidade da descida e o forte vento cortante fazem lacrimejar os seus olhos, impedindo sua visão. No seu desespero, o frangote admite que é chegado o momento: “Companheiros, foi um imenso prazer tocar com vocês esta última música” — dizia um náufrago do Titanic. Ele ainda pia pela última vez em despedida, encomendando sua alma. Um piado curto, sem esperança. E, rendido, fecha os olhos.
 Impassível, a mãe mede a distância que o separa do filhote e a distância que falta para que ele encontre o pináculo do monte, o pináculo da morte. Ainda há tempo suficiente — avalia. Instantaneamente, ela flexiona as asas para baixo, quase encontrando uma extremidade na outra, estica o pescoço e desce grasnando, como um raio, agarrando em questão de segundos o filhote que respira descompassado devido ao grande esforço despendido. O coração bate acelerado, sem forças. A mãe compreende o seu silêncio e carrega-o majestosamente para o alto da penha.
O sol não demora a se esconder por detrás das montanhas, mas em breve a lua inundará de luz aqueles pináculos inescaláveis.


[1] REIS, Jonan de Castro. Poeta, contista e romancista. Autor de Arremedo: Contos & Lorotas (Goiânia: Kelps, 122 p) e Marcas do Infortúnio (romance) (Goiânia: Kelps, 334 p).

Um comentário:

  1. Belíssimo texto. Gostei da linguagem literária, da abordagem, da sensiblidade.

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