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sábado, 19 de fevereiro de 2011

A MEDIDA INEXATA DE UM CONTISTA


Prof. Dr. Ravel Giordano de Lima Faria Paz
Professor de Literatura da Universidade Estadual de Goiás
Unidade de Quirinópolis – GO.
Doutor em Letras pela Universidade de São Paulo.


O título deste pequeno comentário crítico, que Jonan de Castro me pediu à guisa de apresentação de seu livro “Arremedo: Contos & Lorotas”, foi inspirado no título original de um dos contos deste volume — “A medida exata do ser humano”, afinal substituído por um singelo “Colhendo flores”. O primeiro título me parecia muito significativo porque expunha com precisão — e precisão matemática! — uma das características mais fortes, senão a mais forte, dos contos do autor: a propensão a defrontar os seres (sempre humanos, apesar de alguns deles latirem ou piarem) com situações-limite, nas quais seu verdadeiro valor deve obrigatoriamente vir à tona.
 Mas não lamento a troca: o novo título, ganhando em sutileza, demonstra uma outra propensão do contista Jonan, que é a busca de depuração de sua arte. De fato, as indicações cronológicas quanto à composição de alguns contos, que obtive do próprio autor, parecem confirmar que temos aqui o testemunho vivo de um talento em plena evolução, talvez no sentido de uma arte um pouco menos exata, mas ao mesmo tempo mais certeira: não porque vai direto ao alvo, e sim porque tira faíscas dele. Mas devagar com o andor, que o santo é de barro e o autor deste livro é, por ofício e por princípio, um iconoclasta.
 Quando J. Castro me pediu um comentário sobre seu romance ainda inédito — e do qual infelizmente não pude ler senão o início, um pouco da metade e, é claro, o final —, escrevi-lhe que ele me parecia fruto de um talento monstruoso. Eu fazia uma relação desse talento com um dos protagonistas daquele livro: o jacaré Nick, cuja bocarra eu imaginava escancarada para o leitor, ao mesmo tempo que tinha os dentes inocentemente palitados por um passarinho. É o tipo de risco com o qual o autor parece defrontar seus leitores e personagens o tempo todo; e ainda quando meramente simbólica (ou acompanhada de uma flor, como no conto a que já aludi), a dentada não é necessariamente menos doída.
 É claro que aquela “monstruosidade” toda tinha seus aspectos positivos e negativos. O fôlego narrativo-descritivo e o furor sarcástico pareciam-me por vezes fugir ao controle do escritor, chegando em alguns momentos a descambar para o gratuito. Em todo caso, seria preciso ler o romance inteiro. O que parece certo é que neste volume de contos o talento de Jonan surge mais domado, seja por uma questão relativa à forma curta ou, como já disse, pela própria evolução do artista. J. Castro tem a humildade de chamar seu volume — numa irônica associação com um de seus contos mais sérios — de Arremedo, mas a verdade é que a maior parte de suas histórias é bem amarrada. Talvez, para ser sincero, até um pouco demais, não só porque os laços da forma por vezes se estreitam muito, mas também porque com frequência eles são reforçados por um encordoamento francamente moralista; cordas estas, felizmente, muitas vezes afrouxadas pelo humor, que às vezes predomina sem peias, como na história da “primeira calça comprida”. 
 Por outro lado, o olhar moralista não deixa de ter a ver com a força de narrador e psicólogo de Jonan, capaz de surpreender detalhes sórdidos nas unhas mais lustrosas (vide, ainda, “Colhendo flores”). Se fosse indicar uma “posição simbólica” para o escritor no interior desse conjunto de narrativas, creio que a mais adequada seria ao lado daquele obscuro TDF do conto “Um enviado multifacetado”, aquele homem sem “nome, idade nem altura definidos” que sai distribuindo, um pouco como um arcanjo bíblico, a primavera ou o caos pelos cantos do planeta. Ao lado ou acima dele, ou seja, em franca associação com o chefe supremo do Testa-de-Ferro.
 Esse lugar de supremacia, a ironia e análise psicológica são alguns dos traços que aproximam, ainda que lateralmente, os contos de Jonan da obra do “mestre Machado” (de Assis), cuja trama em “O enfermeiro” o “discípulo” goiano retoma e corrige em “Confidências de um finado”. Aqui mesmo, aliás, a supremacia irônica do olhar de Jonan se manifesta da forma mais ousada, num atrevimento que não é só o de transformar os temas machadianos num verdadeiro samba do crioulo — ou “preto véio” — míope como o de afrontar, no mesmo compasso desse gesto, o próprio velho bruxo em um dos pontos mais polêmicos de sua obra, e que é a suposta esquiva em relação à realidade da escravidão no Brasil. E seja essa esquiva apenas suposta ou não, o fato é que em nenhum de seus grandes contos e romances, Machado — como Jonan, um homem de cores fortes — teve essa ousadia jonaniana, de emprestar a um afrodescendente a voz narrativa responsável por contar a história — e uma história, diga-se de passagem, que faria o próprio Brás Cubas revirar no túmulo.
 Mas se a ousadia de analisar e julgar o mundo, os homens e seus atos é o que empresta vigor a boa parte dos contos de Jonan — em certos momentos com inegável força dramática, como no fecho de “O preço do abandono” —, por vezes o olhar punitivo que orienta o destino dos personagens tende a transformá-los em caricaturas, pela via de um processo de superexposição que sublinha seus traços ora ridículos, mesquinhos ou grotescos. Algumas vezes a própria ação não ultrapassa o anedótico. Mas também é preciso reconhecer que algumas das “lorotas” deste volume, como a do impagável “indecifrável enigma”, ou mesmo a já citada história da calça, estão entre as suas melhores peças. Jonan transita por extremos, e caberá ao leitor avaliar com que habilidade ele opera cada um de seus saltos, sejam eles despretensiosos ou “mortais”.
 Em todo caso, é importante reconhecer que esse olhar entre sarcástico e inquisidor não impede, o mais das vezes, que aflore o talento do escritor nato, afeito ao trato com as palavras. Evitando os excessos de coloquialismos e regionalismos, o autor assume os riscos do compromisso com a correção gramatical, o que, em se tratando da nossa língua portuguesa, é quase sempre uma luta ingrata, e portanto um risco ainda maior para qualquer revisor. Mas a busca de correção não impede a apreensão, lapidada ou espontânea, da dicção e dos cacoetes populares em momentos preciosos, seja em registro cômico (“Até onde irei com o meu Poisé?”) ou dramático (“O grito do silêncio”).
 Eis aí, aliás, dois bons contos que talvez permitam uma visão de síntese dos impasses deste volume. À qualidade de textos bem estruturados — o primeiro, numa vertiginosa roda-viva de vozes e protagonistas, o segundo num insólito “triálogo”, no qual a projeção de um si-mesmo é obrigada a encarar a realidade inapelável de um outro — se soma, no final de um, o acerto de uma dúvida aflitiva que nos conduz a um tipo de “suspensão” tão irônica quanto sublime, e no de outro o desacerto (a meu ver) de um julgamento implícito que joga por terra boa parte da riqueza reflexiva a que ele poderia nos conduzir. A seriedade, aqui, mais dilui do que reforça a densidade da situação. Inversamente (pelo menos nesse caso), o humor ajuda a conjugar leveza e profundidade na história de Robson e seu Poisé.
 Com o perdão dos trocadilhos, eu diria que é quando consegue afrouxar o arremate sem fraquejar a mão que J. Castro compõe seus melhores “arremedos”. Trata-se, como disse, de um iconoclasta: sua especialidade — sua melhor especialidade, pelo menos — é destruir a imagem que os homens erigem de si mesmos ou dos outros. Mas o que sobra desse gesto? Um julgamento explícito ou implícito, ou aquele grão de imponderável na vida humana que resiste às misérias da alma e às armadilhas do destino? Esse grão é faísca da seta que apenas resvala o alvo, a medida inexata de um contista.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

A IMPARIDADE DOS PARES



J. Castro[1]

É, no mínimo, inoportuno o pensamento de que no mundo nada se cria; tudo se copia. Seria mais honroso se a humanidade admitisse que a Filosofia tivesse flertado com a Poesia, dando origem à magia do livre pensamento sabiamente proposto por Cecília Meireles: “a vida só é possível reinventada”.
Reinventar a vida é recriar o próprio ser, produto da multiplicação de partículas indivisíveis do pó da terra, transformadas milagrosamente em gametas. Uma vez formado o homem, tomou-se uma fração de suas costelas e criou-se o seu par. Embora sendo um par, o homem é um ser ímpar em sua natureza e personalidade. Mas, se o homem é um ser — par ou ímpar —, consequentemente, o homem também é fruto de desejos e ambições desmedidas de seus pares. Neste sentido, uma máxima atribuída a Alexandre Herculano traduz em poucas palavras a profundidade do teor dessa verdade a respeito do relacionamento do ser humano com seus pares: “Quanto mais conheço os homens, mais admiro os animais!”.
O impacto da conotação filosófica dessa máxima teria sido o equivalente ao impacto da bomba atômica lançada sobre Hiroshima se proferida por uma mulher. Acredita-se que Herculano teria se referido precisamente à espécie humana com relação aos vícios sociais, uma vez que o homem é um ser racional; já a mulher vê o seu par com os olhos do coração. Assim, uma fêmea da espécie humana, quando ferida em seus sentimentos tende a classificar os homens, além de cafajestes, como homem-galinha, homem-cachorro, homem-macaco e, sobretudo, homem-garanhão — posto máximo na hierarquia classista dos cafajestes. Essa classificação honrosa é atribuída exclusivamente aos machos selecionados da espécie humana, responsáveis pela procriação. O chamado garanhão é uma espécie melhorada de cafajeste, um sem-vergonha de boa linhagem, robusto, de boa pinta, próprio para a continuação da espécie. Outra curiosidade relevante a respeito do ser humano é que não existe um ser idêntico entre si. Cada qual com suas semelhanças e cada qual com suas particularidades fazem do homem-cafajeste um ser único.
Não carece ir muito além para se dar conta desse interessante mistério: Mona era uma beldade loura, de lábios polpudos nascida no interior do Estado e levada para a Capital aos três anos de idade, onde passou a sua infância e a puberdade. Desde pequena um detalhe chamava a atenção dos garotos que estudavam na mesma escola que ela: o bumbum proeminente de Mona era um atributo que mais tarde iria despertar o cafajeste que havia no interior de muitos homens ao longo da vida. No entanto, Mona ainda era muito nova para se dar conta desse trunfo tão explorado no mundo dos adultos. Ela gostava do contorno de sua boca, com seus lábios suculentos, convidativos e cheios, de uma maciez arrebatadora.
Os olhos castanhos médios, ora de uma palidez mortiça denotavam que, apesar da pouca idade, Mona já tinha visto muito a respeito do comportamento dos homens insensíveis que grassam sobre a superfície da terra. O primeiro contato que Mona teve com a espécie não convencional de homens e que a marcaria para o resto de sua vida, aconteceu entre as quatro paredes de seu próprio lar. Seu pai não era o que se podia chamar de santo. Discutia muito com sua mãe em voz alta, quando pressionado por flertar com outras mulheres. Certo dia, ao chegar do colégio, Mona encontrara sua mãe chorando, soluçando penosamente, dada a profunda chaga no coração, feita pelo primeiro cafajeste da vida de Mona. Na hierarquia dos cafajestes, o personagem em destaque ocupava o posto de homem-galinha: aquele que nunca está satisfeito com o que tem no terreiro. O pai havia abandonado o lar e a família por causa do encanto de uma vizinha que lavava roupa de short curto. Mona acusou o choque, pois via no pai a figura de um herói, de um protetor. A moça agora não tinha mais a proteção do pai, mas ainda tinha chance de se recuperar do golpe. Bastava, porém, encontrar a sua alma gêmea, o seu par.
A semelhança entre o homem-galinha e o homem-garanhão era tão sutil que os próprios adeptos tinham dificuldade em diagnosticá-la. Mona teve contato com ele aos dezessete anos de idade. Ela estava carente, chorava muito devido à ausência do pai. Rob foi uma dádiva na vida de Mona. Pelo menos não iria mais andar à pé, pois Rob acabara de ganhar um carro do pai. Logo o instinto de garanhão aflorou no moço. Parecia príncipe de um plantel de donzelas, onde só ele dava assistência.
Atraída pelo cheiro característico do reprodutor alfa, Mona sentiu a libido palpitar. A sublime rendição da fêmea no cio aconteceu em uma noite enluarada de junho, como presente de aniversário. A partir daí, os dias eram terrivelmente longos para conter a espera do encontro com o cafajeste por quem Mona se apaixonara perdidamente. Dias mais tarde, sobre a areia branca do rio Araguaia e sob as estrelas luzentes da Mata Atlântica, Hipólita foi concebida. Uma bênção da natureza pousara sobre o rosto de Mona no momento em que ela atingia o ponto máximo na concepção do prazer, pois Hipólita nascera com características marcantes de uma beleza natural: a pele trigueira, os cabelos lustrosos e negros, caídos em cascata ao longo de suas espáduas  sugeriam o pêlo de um mustang bravio dos prados da Amazônia goiana. Quatro meses depois Rob assumia de vez a patente de cafajeste-garanhão. O seu papel era reproduzir, nada tinha a ver com acasalar. Ele era o macho alfa. Havia outras donzelas necessitando de seus préstimos. Estava Mona novamente sem proteção.
Mas o homem-cachorro começou a rondar o quintal de sua casa todas as noites. Insatisfeito com a porção que recebia de sua senhora, Patife saía em busca de alimentos para matar a sua fome. Mona era o cobiçado petisco e Patife, a fome personificada. Mona se questionava:
— Por que a sociedade é tão injusta? — dizia. Enquanto muitos, pouco têm, outros tantos, muito querem.  O cachorro Patife, por exemplo, não estava satisfeito com o que recebia e ficava ladrando em volta, procurando um jeito de roubar outra porção. Mona, por sua vez o enxotara para ver se ele deixava de rondar a sua casa, mas a persistência do cão levara Mona a abrir o portão de sua casa, até porque ela estava muito vulnerável, necessitando de proteção. Assim, Patife se estabeleceu justamente em cima do colchão da moça e passara a ter direito a um bife bem suculento que Mona servia generosamente. No entanto, a noite, seguindo o instinto de cão de guarda, Patife voltava para sua casa e passava o resto da noite. Patife era boa companhia, brincava com Mona. Mas, um dia sua senhora descobriu que o cão buscava comida fora e explodiu:
— Está lhe faltando comida aqui em casa, seu patife? — e esbofeteou-o sob o olhar da vizinhança. Patife não teve outro jeito senão voltar com o rabo entre as pernas para a coleira que o prendera por tantos anos. Ele ainda se lembra dos bifes suculentos que comia na casa de Mona. Ele chega a lamber os beiços e a grunhir inquieto. À moça restou a culpa de querer roubar o cão:
— Está querendo roubar o meu Patife, espertinha? — Por que não arruma outro cachorro para você? — Este aqui já tem dona, gritava a plenos pulmões.
Mona pensou em jamais arrumar  outro cão. Afinal, ela não tinha sorte com esses animais. No entanto, para cair nas graças da vizinhança novamente, Mona resolveu arrumar outro cachorro. Visitou alguns canis à procura de um cão que lhe chamasse a atenção. Num canil em Três Rios, no Rio de Janeiro, Mona encontrou um cachorrão peludo e lustroso que não saía da igreja em busca das migalhas que sobravam da mesa dos fiéis. No entanto, os fiéis eram cuidadosos e não deixavam nada escapar, de forma que aquele cão estava fadado a morrer de fome. Mona o encontrara todo pelancudo e cuidara dele, como fizera com os outros que possuíra. O infeliz se afeiçoou tanto à moça que a seguia por toda parte, como bom companheiro. Mona até pensava em trazer aquele cachorro para junto de sua família. Certo dia,  porém, enquanto Mona veio visitar sua mãe, o cão se sentiu só. Ao vir uma cadela rabicó, ele pulou o muro e se acercou dela, cheirando-a. Fanhoso abanou o rabo, ao que a cadela correspondeu, balançando os quadris, pois não possuía cauda. Em dois segundos Fanhoso estava pulando o muro de volta e não estava só. Chorando desesperada, Mona achou que um cachorro já era mais que suficiente para ela cuidar. Uma cadela já era abuso.
A solução para os problemas de Mona estava ali, bem à sua frente. Ela se cansou de cachorros e agora estava ali o mais novo protótipo da espécie de cafajeste: um homem-macaco. Era engraçado, espontâneo e trabalhava num circo. Sempre que saía com Mona ele convidava a mãe, a sogra, a filha, as irmãs e até os cunhados de Mona. Ele achava que toda noite havia espetáculo no circo, motivo pelo qual ele convocava todo o auditório. Mona se via com a calcinha molhada de xixi de tanto rir das macacadas de Simão. A macaca que fora seu par o havia traído com um rinoceronte e Simão estava meio desiludido, sem graça. Mona o adotou. A partir daí a vida da moça mudou. Vivia rindo das palhaçadas de Simão:
— Você é a estrela que brilhou em minha vida — dizia o homem-macaco. Mona ria.
— Vou trabalhar também em outro circo para poder cuidar de você, de sua filha, de sua mãe, de seu cachorro e de seu papagaio. E vou tratá-la como se fosse a minha macaca mais linda. Desta vez Mona teve que ir às pressas ao toalete para trocar a calcinha. Mona estava muito feliz. Em pouco tempo ela se esqueceu de todos os outros animais que já tivera. O homem-macaco, quando não conseguia realizar algum de seus desejos, improvisava, pois era acostumado a trabalhar de circo em circo. Um dia estava numa cidade, no outro estava em outra a quase mil quilômetros de distância. Simão vivia no trecho, em circo itinerante.
Mas agora Simão estava tendo um surto de cansaço. Já não tinha a mesma graça circense. Já não conseguia mais fazê-la rir como antigamente. Mona achou estranho ele convidá-la para uma apresentação num circo distante. Ela recusou relutante, ao que ele foi à forra:
— Mona, vamos acabar logo com isto: — Não te quero mais, não te amo mais, você não me merece, entendeu? — Não me merece. Mona achou que era apenas mais um número que Simão estava ensaiando para se apresentar no circo itinerante. Ela riu, mas Simão não assobiou, nem coçou as orelhas cheias de pulgas, coisa típica de macaco. Mona olhou para ele pensando que aquilo era mais uma brincadeira divertida, mas Simão sustentou o olhar. Mona sucumbiu.
— Não acredito que isto está acontecendo comigo de novo! Mona surtou, gritou, foi às margens da loucura:
— Falso!
— Fingido!
— Covarde!
— Macaco! — Suma da minha vida e vá procurar um zoológico com muitas macacas para você, seu piolhento! Mona conteve as lágrimas. Não ia dar a ele esse prazer de vê-la chorar. No entanto, a moça fazia um balanço de sua vida amorosa, quantos homens-cafajestes já tivera, quantas vezes ela tentara recomeçar!
— Seria isto? Recomeço? Mona sempre tivera a fraqueza de recomeçar com um cafajeste. Para ela, recriar a vida após um desacerto tinha o sinônimo de recomeço. Todavia, Mona nunca se dera conta dessa fraqueza humana. Ela acreditava demais no seu par, achando que os pares eram iguais. Mas em poucos dias todos os castelos por ela construídos se desmoronavam pedra por pedra. Apenas um questionamento martelava sua mente:
— O que está acontecendo comigo?



[1] Reis, Jonan de Castro. Poeta, contista e romancista. Autor de Arremedo: Contos & Lorotas (122 pp.) e Marcas do Infortúnio (322 pp.).

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

CONTRATO SOCIAL

J. Castro

É difícil prever as consequências de um contrato social entre pessoas que se dizem amigas, mas não no caso de Saimon e Mona: dois amantes que se conheceram em uma sala de bate papo. A amizade tomou corpus e se transformou numa louca paixão virtual. Pouco depois eles se conheceram pessoalmente e começaram a viver intensamente a sua paixão. Quatro meses de relacionamento se passaram e mais ainda a moça se encantava com Saimon. Além de formarem um bonito casal, a família da moça o acolheu com muito carinho e atenção, pois via em seu rosto o perfil de um homem honesto e trabalhador. Não se enganaram. Saimon cruzava o Brasil de Norte a Sul e de Leste a Oeste em seu bruto, como dizem na sua própria gíria. Era caminhoneiro.
Saimon era um tipo interessante de amante: era atencioso, terno e intenso. Quando não estava em viagem, o moço geralmente preparava o almoço ou o jantar para eles. Dificilmente ele chegava em casa sem ao menos uma flor para Mona, ao que ela correspondia à altura da urgência que nutriam um pelo outro. Passeavam, faziam compras e amavam. Beijavam como dois pombinhos em fase de acasalamento e amavam intensamente. Eles viviam um relacionamento perfeito.
Mona era uma moça simples e recatada. Talvez por força da condição social, uma mãe solteira é sempre um ponto de interrogação e observação frente ao binóculo de longo alcance de uma sociedade injusta e preconceituosa. Para completar as especulações, a moça trabalhava fora e morava com Hipólita, sua filha de dezesseis anos. Mas, apesar da paixão desenfreada que nutria pelo moço, Mona protegia a privacidade de sua filha. Afinal, a garota não era obrigada a presenciar cenas novelescas só porque a protagonista era sua própria mãe. Assim, Mona fazia questão de poupar a filha de certos constrangimentos. Quando em casa, Mona namorava como namorava as boas moças dos tempos dos avós. Ela jamais expunha a intimidade de uma vida a dois na presença de Hipólita, pois os valores morais estavam gravados a fogo em seu íntimo. Mas agora, Saimon a convidara para viajar com ele para o Nordeste.
— Bombom, por que não sai do seu emprego e vem comigo? É tão triste ficar noites e mais noites longe de você!...
— Ah, amor! Sabe que não posso sair do emprego agora — choramingou.
— Que nada! — Você não vai porque não gosta da minha companhia. Quer ficar livre para voar. Saimon se arrependeu ao dizer tamanha tolice. Naquela noite nada rendeu entre eles. Saimon teve que ir dormir mais cedo, ainda por cima com dores nas virilhas.
Era verdade que Mona morria de vontade de conhecer as praias do Nordeste e o namorado ia ficar quinze dias numa cidade litorânea. Ainda por cima, ela não estava se dando bem no emprego, estava muito desmotivada, mas tinha que trabalhar para cuidar de si mesma e de sua filha. Será que amar significava renunciar a si mesma? Será que valia a pena sacrificar o seu emprego por um relacionamento? O pior era que Mona amava Saimon, mas estava brigada com ele, droga!
Naquela manhã Mona estava lá embaixo. O jeito foi consultar a experiência de um amigo distante que nada sabia a respeito do relacionamento dela com Saimon. Talvez fosse o anjo que Deus havia prometido lhe enviar. Marco estava lhe chamando a atenção na tela do computador:
— Bom dia, garota sistemática! — o amigo brincou. — Ela nunca tomava a iniciativa de chamá-lo no MSN. Ele provocou:
— Está tão atarefada hoje que não pode dar um bom dia?
— Oi! Bom dia! Tenho estado muito preocupada — insinuou. Marco era atencioso e ofereceu apoio:
— Há algo que eu possa fazer por você? — ele abriu a guarda. Afinal, ele se preocupava com o bem-estar de seus amigos.
— Na verdade, estou dividida: o que você acha de uma garota abandonar o emprego que não faz mais o seu tipo para viajar com o homem que ama para o Nordeste por quinze dias? A princípio, Marco achou que fosse sua filha, mas não disse nada. Pensou por um instante e inquiriu:
 — Só para eu me situar, há quanto tempo estão casados? — perguntou.
— São namorados — respondeu honestamente.
— Tudo bem. Quanto tempo? — insistiu.
— Quatro meses. Marco estava cada vez mais alarmado. Afinal, ele também tinha filhos adolescentes e o que ele jamais gostaria de fazer era colocar sua filha em perigo nas mãos de um aproveitador.
— Qual a idade dessa garota?
— É uma adolescente. Trinta e sete anos. Marco reprimiu uma risadinha irônica, ao perceber que se tratava dela e não de sua filha.
— Acho que você não é mais um brotinho para esse tipo de aventura. Por que não resiste à tentação por enquanto, faça economia ao longo deste ano e depois leve sua filha para curtir com você a praia? Além do mais, acho quatro meses pouco tempo para se arriscar de corpo e alma num relacionamento. Mona sempre fora independente, ainda mais depois que se engravidou de Hipólita. Mona sentiu um gosto amargo na boca ao pensar sobre isto. O filho da mãe do pai de sua filha era um miserável que, ao saber-se pai, em vez de assumir a paternidade, ele sumiu por toda a eternidade.  Mona teve que arcar com todas as consequências de sua imprudência. Ela procurou afastar da mente esses pensamentos, depois agradeceu ao amigo e desligou. No outro dia, logo de manhãzinha, ela o chamou:
— Muito obrigada pelas sábias palavras. — Você tirou um enorme peso de minha consciência. Acho que eu estava cega.
— Que bom! Pelo menos servi para alguma coisa — brincou.
 A espera durou dez dias.
Numa certa manhã, Marco viu que alguém lhe chamava na tela do computador. Era Mona. Ela foi logo desabafando:
— Estou me sentindo um lixo, meu amigo! — O sem-vergonha do Saimon simplesmente terminou comigo sem motivo algum. Estávamos de boa e de repente ele disse que não dava mais. Que eu não fazia o tipo dele. Pensei que o Paranaíba ia transbordar com minhas lágrimas. Não sei como fui acreditar nele.
— Veja pelo lado bom. Antes agora que vocês não têm maiores compromissos um com o outro. Já imaginou se ele resolvesse aprontar com você longe de sua casa... na praia, por exemplo?
— Não gosto nem de pensar, mas está muito difícil! Eu amava aquele desgraçado e ele fez isto comigo! — ela queria um ombro para chorar. Marco tentou consolá-la:
— Mande esse cara ir a PQP e bola pra frente. Ele não merece suas lágrimas.
— É... Eu sei que não.
— Agora, procure crescer com os erros do passado e nunca se deixe abater. Você é maior do que essa dor de cotovelo.
— Obrigada pelo carinho! — Havia sinceridade nesse agradecimento. No outro dia, preocupado, Marco enviou mensagem:
— Espero que hoje esteja melhor que ontem. Ela respondeu:
— Com certeza hoje estou bem melhor, mas fiquei sabendo pela irmã dele muitas barbaridades que ele falou de mim e de minha filha que estou indignada. Marco apenas a ouvia. Era inútil argumentar:
— No momento em que ela foi me contando as mentiras que ele fantasiou sobre nós, senti Deus tirando do meu coração todo sentimento que ainda restava: amor, saudade, angústia, paixão, tudo.
— Que bom! Fico feliz por você ter se libertado. Ela completou:
— Como fui ingênua! Mas, como você disse: agora vou procurar crescer com os meus erros. Obrigada novamente, meu anjo amigo!
E os dias se passaram...
Marco estava quase desistindo de Mona quando ela deu o ar da graça:
— Desculpe! Estava sumida, não é? Meu ex me procurou novamente e reatamos o nó de nossas vidas. Agora é pra valer. Ele me propôs uma sociedade e vamos discutir as cláusulas depois que voltarmos do Nordeste.
Dois dias depois do reatamento, lá estava ela na boléia do caminhão. A viagem foi maravilhosa: sexo, comida de carreteiro, sexo, sol, praia, comida caseira, sexo novamente, sono. No outro dia, tudo recomeçava. Saimon foi maravilhoso e Mona adorou cada momento. No entanto, a volta foi recheada de saudades dos bons momentos que passaram juntos.
Foi ao chegar em casa, quinze dias após a partida, que Saimon a convidou para sentarem juntos e estabelecerem as cláusulas do contrato. Cada um entraria com uma parte, o que já era previsto: Mona entrou com a bunda e Saimon com o pé.
— Cafajeste! — disse entredentes.

REIS, Jonan de Castro. Poeta, contista e romancista. Membro da Academia de Letras do Brasil - ALB, membro da Academia de Letras do Extremo Sudoeste de Goiás - Alesg, membro da Associação de Poetas del Mundo e Cônsul de Poetas del Mundo, Entorno de Quirinópolis - GO. Autor de Arremedo: Contos & Lorotas (122 p.) e Marcas do Infortúnio, Romance (322 pp.).