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segunda-feira, 22 de agosto de 2011

LEITURA E CONSCIÊNCIA CRÍTICA: A VOZ DA NATUREZA


“A verdadeira evolução de um povo se faz ao nível da mente, ao nível da consciência de mundo que cada um vai assimilando desde a infância”.
(Nelly Novaes, 2000).


Por: Jonan de Castro Reis

Ao observar, certo dia, a ilustração de um texto de Nelly Novaes intitulado “A literatura infantil e seus caminhos”, fiquei maravilhado com a harmonia perfeita entre os animais. A mensagem era simples e clara, levando em consideração a proposta de que a evolução de um povo se faz a partir dos conhecimentos de mundo que se vão acumulando ao longo da vida. E ninguém melhor que a Natureza para repassar esses conhecimentos, uma vez que o seu Criador foi, é e sempre será um Mestre insuperável.
Já pararam para observar que os animais nunca foram à escola para aprenderem o “manual” de sobrevivência das espécies? Eles não fazem cursinho intensivo de capacitação profissional no sentido de aprenderem a nadar, a rastejar, a cantar, a construir seus ninhos, a reproduzirem e outras atividades, típicas do seu mundo. No entanto, os peixes conhecem a época propícia para subirem os rios em busca de um local adequado para a procriação, as corujas sempre encontram um buraco para se resguardarem, as precavidas águias põem seus ovos nos íngremes penhascos, as serpentes peçonhentas repousam, religiosamente com a cabeça por cima da rodilha, prontas para o ataque ou defesa; os beija-flores fazem seus ninhos de plumas e os joões-de-barro jamais perderam o projeto arquitetônico de seus palácios.
Neste sentido, a literatura infantil tem papel fundamental de agente transformador numa sociedade em constante formação. Observa-se que as crianças que desde os primeiros anos já mantêm contato com os livros têm maior capacidade analítica e espírito crítico em relação aos fatos sociais. O livro continua sendo uma ferramenta eficaz para a formação dessa consciência crítica que as propostas nelliana e lobatiana tanto evocam. Entra geração, sai geração, mas o livro está aí, cumprindo o seu papel. Fortalecendo essas palavras, Nelly Novaes (2000) afirma: “No encontro com a literatura, os homens têm a oportunidade de ampliar, transformar ou enriquecer sua própria experiência de vida, em um grau de intensidade não igualada por nenhuma outra atividade”. Assim, se a literatura é a arte de representar o mundo, a natureza é o reflexo dessa arte, pois ela reflete o que o mundo tem de belo.
Nesta perspectiva, é possível fazer um “acasalamento” perfeito entre a proposta teórica de Novaes (2000) e a obra inovadora de Monteiro Lobato. Em Novaes (2000), a autora reflete: “Na literatura para crianças ou adultos, o mágico e o absurdo irrompem na rotina cotidiana e fazem desaparecer os limites entre real e imaginário”. Da mesma forma, as personagens de Lobato são despidas das formas convencionais em prol de uma roupagem que ultrapassam os limites da imaginação das crianças. Em Lobato os animais se reúnem para discutirem temas complexos como a guerra entre os humanos, a preservação da fauna e da flora – temas que até hoje causam polêmicas dignas de convenções e congressos específicos para tratarem do assunto. No entanto, as crianças as discutem numa linguagem infantil, de um modo que elas entendem sem a necessidade da intervenção tendenciosa dos adultos.
A autora de “A literatura infantil e seus caminhos” vê a criança como “um ser em formação, cujo potencial deve-se desenvolver em liberdade, mas orientado no sentido de alcançar total plenitude em sua realização”. Já Lobato visualizava o adulto na figura alegórica de um animal, pois as personagens criadas por ele eram “treinadas” para serem adultos conscientes de seu papel na sociedade. O mundo das imagens, das cores e da fantasia criado por Monteiro Lobato encontrou guarida nos postulados de Nelly Novaes (2000), uma vez que “o caminho para a redescoberta da literatura infantil, no século XX, foi aberto pela psicologia experimental que, revelando a inteligência como o elemento estruturador do universo que cada indivíduo constrói dentro de si, chama a atenção para os diferentes estágios de seu desenvolvimento e sua importância fundamental para a evolução e formação da personalidade do futuro adulto”.
Vale ressaltar que o posicionamento de Emília Ferreiro nesse contexto muito tem nos chamado a atenção, pelo fato de ela ilustrar com mestria fabulosa a teoria acerca desse tema: “Era uma vez uma criança... que estava em companhia de um adulto... e o adulto tinha um livro... e o adulto lia. E a criança, fascinada, escutava como a língua oral se torna língua escrita. A fascinação do lugar preciso em que o conhecido se torna desconhecido. O ponto exato para assumir o desafio de conhecer e crescer”.
Ora, não é necessário ser doutor das Letras ou da Psicologia para descobrir que não se pode mudar a personalidade de uma pessoa, haja vista que isto é trabalho para gerações futuras.
Ainda assim, os adultos jamais serão modificados. Então, em vez de “quebrar a cabeça” com os adultos, propondo-lhes uma mudança radical, Lobato fazia diferente: investia na inteligência e na capacidade de adaptação das crianças. Assim, teríamos um adulto transformado, adaptado, desenvolvido sem dores e sem radicalismo. Verifica-se que a criança é o ponto nevrálgico, é a espinha dorsal para injetar o remédio que curará as gerações futuras do fantasma que amedrontam a humanidade, quer seja o analfabetismo, quer seja o iletramento, quer seja a ignorância. Nas palavras de Ferreiro (2005): “é o ponto exato para assumir o desafio de conhecer e crescer”. E tudo isto sem dores nem pavores.
Não é utópico enfatizar que os adultos de hoje sofrem com as transformações de ordem social e cultural que ameaçam ruir o universo vivido por eles. As tecnologias são importantes para o desenvolvimento econômico, social, cultural e político de uma nação, mas são farpas que incomodam os pés cansados das pessoas adultas, acomodadas, principalmente os idosos e, podem crer – foram criadas por pessoas jovens, que gostam de incomodar e provocar. Assim, as crianças e os jovens criados nesse mundo cercado por tecnologia se adaptarão mais facilmente, ou melhor, não sofrerão as agruras das mudanças que elas provocam na vida das pessoas adultas. Da mesma forma, as crianças que crescerem em contato com as ferramentas capazes de promoverem transformações sociais e culturais, facilmente encontrarão soluções práticas para situá-las no contexto ao qual estão inseridas.
Emília Ferreiro (2005) resume: “Todas as pesquisas coincidem num fato muito simples: a criança que esteve em contato com leitores antes de entrar na escola aprendeu mais facilmente a escrever e ler do que aquelas crianças que não tiveram contato com leitores”. Essa teoria é reforçada pelas propostas de Monteiro Lobato e de Nelly Novaes que são a de investir na capacidade de adaptação da criança para se ter adultos conscientes do seu papel na sociedade.
Diante desses argumentos, não cabe a nós, escritores e poetas – ou ainda meros estudiosos traçar diretrizes fantasiosas no sentido de incentivar a consciência crítica, uma vez que a receita já está pronta há décadas. O que se deve fazer é continuar a bater na mesma tecla do piano, pois é ali, naquela tecla desgastada pelo tempo, que está situada a primeira das centenas de notas do acorde que se transformará em um grande concerto, digno do mestre sabiá. E nem assim a natureza baterá as palmas, mas pelo menos dirá: Ufa! Já não era sem tempo!

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

CADEMARTORI, Lígia. O que é literatura infantil. 4.ed. São Paulo: Brasiliense, 1987.
COELHO, Nelly Novaes. Literatura infantil: teoria, análise, didática. São Paulo: Moderna, 2000.
FERREIRO, Emília. Passado e presente dos verbos ler e escrever. Trad. Cláudia Berliner. 2.ed. São Paulo: Cortez, 2005.

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REIS, Jonan de Castro é contista, poeta e romancista. Autor de Arremedo: Contos & Lorotas (Goiânia: Kelps, 2009, 122 pp.) e Marcas do Infortúnio (Goiânia: Kelps, 2010, 334 pp.). É membro da Academia de Letras do Brasil – ALB, membro da Academia de Letras do Extremo Sudoeste de Goiás – ALESG, membro da Associação de Poetas del Mundo e Cônsul de Poetas del Mundo, Entorno de Quirinópolis – GO.

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

A TÍTULO DE JUSTIFICATIVA


 JONAN DE CASTRO REIS. Justificativa do autor pela sabatina de Noemi de Mello Santiago por ocasião da análise crítica ao Livro Marcas do Infortúnio, Goiânia: Kelps, 2010, de minha autoria.


Sinceramente, estou até agora sem palavras pela sua valiosa contribuição ao entendimento de meu livro Marcas do Infortúnio. Não é tarefa muito fácil escrever para um público exigente e crítico, um público que já viu, ouviu, leu e viveu várias situações ao longo da vida e que, por tudo isto, conforme salienta o prof. Dr. Ravel: " é capaz de surpreender detalhes sórdidos nas unhas mais lustrosas ". Só de pensar que é a este público que me dirijo, me dá calafrios na espinha! Mas agora nada de recuar, não é mesmo?
Eu não poderia deixar de enfatizar e de rir um pouco devido ao drama pelo qual passou na frente do computador. Realmente foi bem feito pra você, porque eu quisera ter lhe enviado o livro impresso, mas não sei se você se lembra que instou, dizendo que preferia ler na telinha... Por isso, bem feito, bem feito! (rsrsrs) Além disso, eu sempre me regozijarei pelo seu depoimento de que o livro é bom, que lhe privou de se alimentar em prol da continuidade da leitura que, no seu valioso julgamento, é uma leitura interessante.
No entanto, não sei se posso concordar com você a respeito de que Deus ouvia música quando construía o mundo em que vivemos. O que a Bíblia Sagrada nos afirma é que o Universo era sem forma e vazio, a não ser pelo turbilhão de águas e que o espírito de Deus se movia sobre a face das águas. Noutra parte diz que a voz de Deus é como a voz de muitas águas. Você já ouviu o som de uma cachoeira? É uma música que a gente nunca se cansa de ouvir, pois não fere a nossa audição. Além do mais, ainda traz uma verdadeira paz interior. Neste sentido, acredito que Deus não ouvia música, mas ele era a própria música caracterizada pelo ruído das águas e pelo assobio do vento nas ondas.
Quanto aos desconfortos...
Desculpe tê-la irritado com os nomes de meus personagens. O estilo não tem nada a ver com preferência por estrangeirismos. Afinal, sou um bom brasileiro. A verdade é que gosto de nomes curtos e aqueles foram os que me vieram à mente quando da criação dos personagens. Só agora é que me dei conta de que são nomes estrangeiros. No entanto, terei maiores cuidados ao nomear outros atores de meus cenários.
Quanto aos adjetivos...
Bem... É preciso levar em consideração que o autor é ainda um artista amador das narrativas e, na intenção de agradar a uma personagem, ele a qualifica de bombom, de boneca e outros, cujos lapsos os leitores terão de desculpar como meras tentativas de ser amável.  Se me permite dizer, eu acho que nasci (enquanto escritor) pelo lado errado. Explico: eu comecei a escrever a partir dos textos mais complexos para os mais simples. É como desenvolver a estatura solo adentro. Enquanto muitos escritores iniciam-se com poemas de amor, depois os contos iniciados com "era uma vez..." e terminam em "e viveram felizes para sempre...", eu comecei a escrever enfrentando, logo de cara a narrativa longa e crítica, no caso o romance. Hoje, se fosse refazê-lo, com certeza teria outra abordagem. Na verdade, como eu o publiquei depois da coletânea de contos, eu até pensei em modificá-lo, mas eu quisera deixar essa discussão quanto ao meu crescimento para o próprio leitor avaliar. Você só foi muito feliz ao perceber essa lacuna e denunciá-la em primeira mão, o que mostra que você é uma leitora crítica e antenada. Meu livro não poderia estar em melhores mãos...
No entanto, acredito que você levou a leitura muito a sério, pois chegou ao extremo de colocar o escritor na berlinda. Você se aproveitou de um momento de fraqueza do escritor e o analisou em primeiro plano, em detrimento da obra propriamente dita. Eu quisera ter ficado à margem desta análise, ou, em outras palavras, no mínimo em um ângulo privilegiado – o mesmo ângulo que me coloco quando escrevo os meus textos. Mas, como todo questionamento sugere uma explicação, o apelo sexual se deve ao fato da simpatia ou antipatia que o autor nutre para com suas personagens. Ao criar o perfil de uma personagem, às vezes o autor simpatiza com ela a ponto de levá-la para a cama, se me permite essa absurda metáfora. Outra vez, ele a elege para lançar sobre ela todo o desprezo que sente com relação aos eventos que maculam a humanidade, como o sexo obsessivo e brutal, a ambição, a maldade, a inveja, bem como outros vícios e virtudes que grassam na personalidade humana. A verdade é que alguém tem que pagar por isso, daí os extremos. No entanto, a minha admiração pelas mulheres é lendária, o que tem me levado a até padecer certas agruras sob a língua afiada da sociedade hostil e preconceituosa. Ossos do ofício! (rssrs).
Quanto ao lapso geográfico sobre o rio Tietê, que possivelmente cortaria a cidade do Rio de Janeiro, sinceramente eu lamento. Quando lá estive não sei por que cargas d´água ficou gravado em minha mente esse nome. Depois fiz uma pesquisa e, talvez por má interpretação do mapa ou por uma fonte não confiável, ficou registrado (na minha cabeça) como Tietê, o rio realmente poluído que empresta sua face macabra para ilustrar uma das principais vias de acesso à Cidade Maravilhosa. Prometo tirar isto a limpo quando da reedição do livro.
Chego, sozinha, a uma conclusão, mas não ouso aqui citá-la. Como gostaria de conhecer a que conclusões você chegou, mas não sou curioso, de forma alguma... mas, o que foi mesmo? Tudo bem, eu nem queria saber mesmo!... (droga! Rsrsrs!)
Cara Noemi, você tocou em um ponto muito sensível de meu livro. Vou tentar explicar: as mulheres de meus contos, do meu romance são mulheres que fazem parte de uma complexa sociedade. Não leve pelo lado pessoal. Minhas “mulheres”, como você mesma diz são parte de um emaranhado social em que as mulheres, ao se libertarem das amarras do paternalismo se lançam ao campo de trabalho de igual para igual em relação ao homem. No entanto, são seres que choram, que riem, que amam, que sofrem, que competem, que esbofeteiam, que proferem palavrões, que vivem o dia-a-dia como qualquer homem em busca do seu lugar no competitivo mercado de trabalho. O fato de elas serem mulheres não significa muito, em se tratando da conquista do seu espaço social e afetivo. Elas são seres sociais competitivos e aguerridos. São seres que exploram e são explorados, são mulheres que desejam ao mesmo tempo são desejadas. São mulheres que abandonam seus maridos em prol de seus e de suas amantes. Enfim, são seres demasiado humanos – o que torna um vício ou uma virtude social. O que faço em meus textos é apenas retratá-las de forma realista. Assim, não há traidor nem traído, não há mocinho nem vilão no caminho do autor de Marcas do Infortúnio. Eu quisera apenas que o meu livro fosse interpretado pelo que ele representa para a sociedade, sem essa especulação provocativa se o livro é uma autobiografia de quem o escreveu. Acredito que os meus leitores já superaram também essa crise de identidade entre autor e obra em prol de uma identidade maior e mais crítica: obra e sociedade.
A você, cara amiga, a minha admiração pela inteligência e perspicácia. Rendo os meus agradecimentos por você ter se dado ao trabalho de ler e comentar o meu livro. Aos leitores, o meu sincero e devido respeito, pois sei que não se pode subestimar a inteligência e a capacidade de análise crítica dos leitores. E é justamente a este público crítico que escrevo.
Percebi que você é uma leitora atenta, pois enxergou detalhes até então conhecidos apenas pelos personagens do meu livro. Acredito que muitos leitores ainda precisam deste incentivo para se posicionarem frente à tríade que patrocina a literatura crítica: autor/obra/sociedade.

Grande abraço

J. Castro