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segunda-feira, 11 de abril de 2011

UMA VISÃO IDEOLÓGICA POR TRÁS DA LITERATURA

REIS, Jonan de Castro[1]
SOUZA, Meyre Aparecida Silva



É quase impossível para o poeta crítico evitar a ereção de seus próprios gostos, intimamente ligados ao seu próprio tirocínio, em lei geral da literatura. Mas a crítica tem de basear-se naquilo que o conjunto da literatura realmente representa.
(Northrop Frye)




A analogia que se estabelece entre os textos “Coisas do coração”, de J. Castro e “Paranóia”, de Augusta Faro é fundamentada nos valores, nos sentimentos e no comportamento dos seres. Embora os textos em análise possuam características peculiares de exposição, seu verdadeiro valor semântico deve vir à tona.
O fato de os autores utilizarem animais como figuras alegóricas não impede que as características físicas e psicológicas dos seres humanos possam ser mensuradas. Nesta perspectiva, temos aqui, mais que uma fábula de cunho moral; aliás, temos duas narrativas-conto em que os vícios e virtudes dos seres não-humanos são representados metaforicamente por meio de um jogo ideológico.
O conto de Augusta Faro, narrado em primeira pessoa, tem como personagem principal o próprio narrador contando sua história. Conforme Massaud Moisés “no foco narrativo em que a personagem principal conta a história – o narrador emprega a primeira pessoa [...] assim limitando a área da narrativa, que fica circunscrita ao narrado, pois é de sua história que se trata: a própria personagem interessada na história – visto ser o protagonista central – nem sempre é a mais indicada para contá-la, pois somente a interpretará de seu ângulo pessoal, o que implica uma visão limitadas das coisas”.
Já em Castro, o conto foi narrado em terceira pessoa, com o narrador-analítico ou onisciente contando a história. Essa posição do narrador permite um ângulo privilegiado do cenário e das personagens implicadas no conto. Assim, o narrador pode navegar livremente pelo palco, observar todos os personagens e estabelecer um julgamento imparcial sobre as suas características humanas. Ainda segundo Massaud Moisés “o narrador-onisciente torna-se verdadeiramente o demiurgo: acompanha as personagens a todos os lugares, penetra-lhes na mais recôndita intimidade; com um agudíssimo olho secreto devassa-lhes o mundo psicológico, esquadrinha-lhes os abismos inconscientes e subconscientes, conhece-lhes, enfim, as mínimas palpitações”.
O texto de Augusta Faro é um conto de ação, em que o “eu” trava uma luta de vida ou morte com um ser repulsivo e cruel que o ameaça com sua simples presença. Essa modalidade de texto é uma das mais utilizadas pelos contistas, principalmente os iniciantes, por considerá-lo de mais fácil navegação. O texto tem uma linguagem simples, permeada de adjetivos que qualificam a personagem, estabelecendo o seu perfil físico e psicológico. Os adjetivos, empregados em uma superdosagem traduzem todo o ódio que a personagem narradora tem do ser em referência. Em suma, o narrador-personagem tem no ódio a marca indelével de sua vingança contra o ser dominador, repulsivo e cruel que manipulava e amedrontava sua vítima, a ponto de fazê-la sair de casa, caminhando sem rumo só para fugir da presença dele. Vejamos: “E com isto só desejava e sonhava sua morte, com toda força de minhas urgências, de meus nervos e juntas. Todas as urgências, que eu conhecia e desconhecia e guardava dentro de mim, queriam vê-lo MORTO”. Faro faz uma associação entre uma sociedade oprimida e dominada, onde estão presentes os sentimentos sórdidos de ódio, mágoa e vingança contra o ser dominador. Inclusive, o ponto culminante da vingança é destacado com letras maiúsculas, o que demonstra a força narradora da personagem. Faro faz um retorno ao passado ao associar as características psicológicas do ser repulsivo e do professor de educação física que defrontava o “eu” narrador. Quando o professor morreu atropelado toda a turma sentiu-se aliviada. Nota-se que o ódio está presente em todos os eventos da vida da personagem.
Já o texto “Coisas do coração” é o contrário do texto de Faro em sua ideologia, uma vez que em Castro o amor é incondicional, de certa forma até super-protetor. O texto de J. Castro inicia-se num ex-abrupto, com um diálogo entre as duas comadres: “Até hoje não consigo entender por que Nina foi se envolver com aquele joão-ninguém” para depois desenvolver-se num crescendo evolutivo até o desfecho do conto, o momento em que Nina se enlaça com Romão e Beatriz dá um grito de desespero “Ni... i... i... na! Que pensa que está fazendo?”. Depois o conto descamba num monólogo, ou num discurso indireto livre em que a personagem se liberta das amarras que a prendem ao opressor. Esse grito de liberdade é caracterizado quando Nina salta o muro dos fundos e vai para debaixo da mangueira com Romão. Ela estava cansada daquela superproteção.
O texto de Castro é interessante, pois defende a idéia do ser preso pelas amarras de uma sociedade opressora, mas de valores éticos arraigados em sua estrutura. No entanto, outra sociedade, oprimida e superprotegida se ergue em meio à prepotência dominadora e grita a sua liberdade, sem derramamento de sangue, sem violência.
Embora o texto de Castro apresente marcas de preconceito, elitismo e dominação, essa tese é derrubada pela teoria de que J. Castro transforma suas personagens em meras caricaturas para conseguir o efeito, a imagem desenhada ou idealizada por ele. Não é o elitismo idealizado por Hitler em que a raça ariana alcançaria absoluta soberania frente às raças dominadas e exterminadas. Para conseguir o efeito que a liberdade de Nina possa provocar no leitor, o autor de “Coisas do coração” tece uma personagem fragilizada e oprimida por excesso de amor. Beatriz amava Nina incondicionalmente. Ela queria para a filha um marido à altura da beleza dos netos que ela idealizou, quando do acasalamento de Nina. O autor brinca com o leitor, ao dizer que Romão era manco, gago, de fala fina, além de tudo, estrábico. Os defeitos físicos adquirem uma dose espetacular de humor quando o leitor atenta para a entrevista de Nina e Romão.
Cumé qui você cha... a... a... ma? Nina encontra em Romão sua alma gêmea. Os olhos estrábicos estão voltados para outra direção. Ela acha engraçado e vira os seus para cima como a dizer “eu mereço”, e explode: Ni... i... i... i... naaaa! Nesse grito, ela se identificou com a voz fina e esganiçada de Romão. Vemos que os defeitos vão sendo compensados pela virtude de reconhecê-los e aceitá-los como uma simples característica, não como uma marca, um estigma. Nina não era preconceituosa. Suas atitudes virtuosas caracterizam sua personalidade dócil, desprovida de vaidade em relação ao outro. Mas Romão era manco. Nina desfez essa teia por meio da brincadeira que culminou com a união dessas duas almas. A seqüência de fala imitando o sotaque de Romão sugere uma cadência: “O rrrato rrroeu a rrroupa do rrrei RRRomão” nos dá uma idéia de um galope. Nesse ritmo cadenciado, Nina quebra o preconceito contra os coxos. Ela assume a identidade do ser oprimido pelo defeito físico para torná-lo seu semelhante. A grandeza da estratégia de Castro está em utilizar as marcas do preconceito para derrubá-lo pelo poder de suas próprias marcas. Neste sentido, o Prof. Dr. Ravel teoriza: “Trata-se, como disse de um iconoclasta: sua especialidade – sua melhor especialidade, pelo menos – é destruir a imagem que os homens erigem de si mesmos ou dos outros”.
Na verdade, o texto não tem caráter preconceituoso, mas realista. Essa estratégia Machado de Assis já utilizava desde o século XIX ao traçar o perfil de suas personagens. Ela poderia ser bonita, inteligente, sedutora, mas se tivesse um defeito físico, este seria grifado. Isto não é questão de preconceito, mas de realismo. J. Castro utiliza traços realistas para mensurar os próprios vícios e virtudes do ser em exposição; neste caso, tanto pode ser humano ou não. Nesta visão, Castro utiliza traços marcantes do comportamento dos animais para determinar o comportamento dos seres humanos. É aí que as comparações e metáforas dão aos seus textos uma grande peculiaridade literária. Nas palavras da Profa. Neida Terezinha “Se o estilo é o próprio Homem, eis a razão de tanta especificidade, de detalhes que só você possui”. Castro tem estilo próprio e procura tirar proveito disso, direcionando o leitor para um determinado ponto, enquanto vai tecendo a trama por outro caminho.
Assim, o conto de Augusta Faro perde um pouco da sua visão ideológica, ao propor do início ao fim uma guerra de forças contra os opressores, sem, no entanto, apresentar uma solução inteligente para o impasse. Não adianta instituir a pena capital, é melhor conscientizar os indivíduos a se despirem dos vícios que corrompem a sociedade. Sabe-se que uma guerra se vence com inteligência e perspicácia, não com violência.
Comungando o que Northrop Frye disse na epígrafe que abre esse trabalho, realmente é difícil para o escritor crítico evitar a ereção de seus próprios gostos, pois seus textos parecem refletir a sua ideologia. Assim, o conto de J. Castro propõe uma guerra ideológica em que os opressores são vencidos pela perspicácia dos oprimidos. Beatriz chorou, esperneou, proibiu, mas sucumbiu ao grito de liberdade de Nina. Nesta perspectiva, a democracia é uma boa forma de governo, pena que alguns democratas são corruptos!


[1] Análise apresentada ao prof. Dr. Ravel Giordano Paz como requisito avaliativo da disciplina Crítica Literária, referente ao Curso de Especialização Lato Sensu em Língua Portuguesa, Literatura e Alfabetização, da Universidade Estadual de Goiás, Unidade Universitária de Santa Helena, 2007.

sábado, 2 de abril de 2011

O CÉU É O LIMITE

J. Castro[1]

É nos píncaros dos montes solitários, no ponto mais elevado das íngremes montanhas que a águia põe os seus ovos. Longe das turbulências que assolam o ambiente e imune aos perigos impostos pelas outras aves de rapina, ei-la a chocar.
Enquanto a fêmea aquece o ninho, o macho sai à procura de alimentos e, depois de saciado, empoleira-se no cume de uma elevação rochosa e põe-se a vigiar, olhos atentos a qualquer movimento à sua volta. Seus olhos cintilantes a tudo observam. De repente, um grasnido rouco e autoritário se faz ouvir:
— Zé! O macho voa imediatamente para junto do ninho, enquanto a parceira se levanta, cedendo o seu lugar. É hora de render o plantão.
A fêmea reconhece o próprio poder, lança um olhar altaneiro e contempla o horizonte a perder de vistas. Ela agita as asas, exercita as pernas, grasna uma última recomendação ao parceiro:
— Cuidado com o guaxinim! — e sai em busca de sua sobrevivência. Enquanto paira no ar, as asas bem abertas quase a abraçar o mundo, os olhos flamejantes observam o grande abismo embaixo de seus pés. Como minúsculas formiguinhas, os seus vassalos se movimentam de um lado para outro, sem parar.
A vários metros de altura, ela consegue enxergar um vulto insignificante: um pequeno pontinho ou um risco que se movimenta entre as pedras e gravetos ressecados. Pode ser um camundongo, um lagarto, ou mesmo uma serpente — pensa. Ela não se faz esperar. Flexiona as asas para baixo, quase a encontrar as duas extremidades e risca o céu, cortando o espaço que a separa de sua presa. A velocidade com que desce e o contato de suas asas cortando o vento provocam um assobio característico, um chiado que inibe a tentativa de fuga das presas, que parecem hipnotizadas. E este momento de indecisão é crucial, porque em fração de segundos, ei-las nas garras daquela que domina as grandes alturas.
Ao pôr-do-sol, já de volta ao ninho, ela põe-se ao cume de uma elevação, em um local estratégico, de onde pode vigiar o ninho e proteger a si própria. Os dias se passam num martelar constante de um moinho a monjolo, enquanto os ovos vão-se aquecendo e mudando a sua cor. Sob o calor daquele aconchego outro ser vai tomando forma.
Ao tempo da vida nascem os pintainhos. Por muitos dias são alimentados no bico pelos seus pais. Aos poucos, a plumagem vai-se tornando espessa, as pernas vão-se firmando, até que os franguinhos já podem suster-se de pé. Ao cabo de mais alguns dias, um dos pintinhos arrisca uma olhadela no precipício, seguido de perto pelos pais. Movido por uma extrema curiosidade, ele estica o pequeno pescoço, vira de um lado... de outro... e volta para o ninho, piando, amedrontado.
— Credo! Credo!
Mas agora a roupagem do seu corpo já está quase coberta. As pernas não estão de todo firmes ainda, mas o franguinho já não suporta a submissão de ficar no ninho. Põe-se em cima da penha à espera do alimento trazido pelos pais. O franguinho vê ao longe sua mãe que baila majestosamente ao sabor do vento, vindo ao seu encontro. Ele já vai esperá-la fora do ninho, as asas bem abertas para manter o equilíbrio, o biquinho aberto. A mãe deposita em seu bico a ração do dia, e voa para o topo da elevação. O filhote ainda pia sem parar. O sol lança seus raios luminosos sobre suas asas e, de seus olhos rubicundos cintilam reflexos multicores, enquanto as asas são agitadas e experimentadas. Do alto de seu observatório o casal a tudo observa e lhe transmite a cada dia a lição da vida.
Então chega o grande dia.
A águia-mestra iça o frangote em suas potentes garras e leva-o ao pináculo da penha. A penha do sacrifício. Em baixo está o precipício a perder de vista. Em cima, o firmamento a sugerir a liberdade e o poder. Seus olhos brilham. Ele percebe que vai ser posto à prova, mas aceita o desafio confiante, sem vacilar. Ele sabe que pode confiar em sua mãe. Por outro lado, a águia-mãe confia no poder de suas asas e na força de suas garras.
Preso às garras da mãe, o franguinho observa o precipício, os cumes dos montes, as depressões e, por último, suas vistas contemplam o horizonte, a liberdade dos dominadores. No entanto, para consegui-la é preciso ser provado no fogo — o que, na verdade — é o seu destino. Ele sabe disso.  Está com medo, mas não se debate. Sabe que sua mãe já passou por isso e que ele, mais cedo ou mais tarde teria que passar pela mesma provação.
— Vamos logo com isso — decide.
Içado para as alturas pelas pontas das asas, o frangote fecha os olhos para se concentrar no que tem a fazer, após ser solto no espaço. A águia sobe dando voltas, até atingir uma altura satisfatória. Agora ela paira no ar. O pintinho sente uma grande emoção, ao contemplar a beleza do firmamento. Ele sente o poder que flui das garras de sua mãe, como uma corrente elétrica.
A mãe-águia equilibra no ar, acaricia a cabeça do filhote e ordena-lhe que observe à sua volta, que olhe para frente, nunca olhe para baixo. O filhote pia, aquiescendo. No último momento, ela grasna uma advertência:
— Vá! O céu é o limite.
Ela solta o franguinho no espaço que o separa dos cumes das penhas e do profundo das depressões rochosas. Naquele momento ele é despojado do poder que até então compartilhava com sua mãe. É como desconectar o pino da tomada elétrica. Ele sente a ausência do apoio que o sustinha com firmeza. Sente como se estivesse andando em terra firme e, de repente, a terra desaparecesse de sob seus pés. Um vácuo. O mesmo que um patamar além do último degrau de uma escada. Ele sente um tremendo calafrio e pia em desespero. No auge na descida, ele vira duas... três... quatro cambalhotas antes de começar a bater asas desordenadamente, mas depois consegue voar, embora desengonçadamente, uns três metros adiante e capota novamente. Ele começa agora a perder altura consideravelmente, sempre dando cambalhotas. Um desespero assustador toma conta de si e ele começa a piar. Um piado agudo e desesperado. Numa de suas cambalhotas, ele olha para baixo e vê as pedras da montanha como pontas de lanças a gritar o seu nome. Sente como que um punhal a enfiar-lhe nas entranhas, ao pensar que dentro de poucos segundos pode estatelar-se nas pedras. E continua a dar cambalhotas e a perder altura.
A altívaga a tudo acompanha do seu posto de observação, movimentando as asas freneticamente, equilibrando-se no ar. Ela ouve o pedido de socorro angustiado do filho, mas ignora-o para que ele não demonstre fraqueza. Novamente o pio. O franguinho tenta olhar para cima para ver sua mãe pela última vez, mas a velocidade da descida e o forte vento cortante fazem lacrimejar os seus olhos, impedindo sua visão. No seu desespero, o frangote admite que é chegado o momento: “Companheiros, foi um imenso prazer tocar com vocês esta última música” — dizia um náufrago do Titanic. Ele ainda pia pela última vez em despedida, encomendando sua alma. Um piado curto, sem esperança. E, rendido, fecha os olhos.
 Impassível, a mãe mede a distância que o separa do filhote e a distância que falta para que ele encontre o pináculo do monte, o pináculo da morte. Ainda há tempo suficiente — avalia. Instantaneamente, ela flexiona as asas para baixo, quase encontrando uma extremidade na outra, estica o pescoço e desce grasnando, como um raio, agarrando em questão de segundos o filhote que respira descompassado devido ao grande esforço despendido. O coração bate acelerado, sem forças. A mãe compreende o seu silêncio e carrega-o majestosamente para o alto da penha.
O sol não demora a se esconder por detrás das montanhas, mas em breve a lua inundará de luz aqueles pináculos inescaláveis.


[1] REIS, Jonan de Castro. Poeta, contista e romancista. Autor de Arremedo: Contos & Lorotas (Goiânia: Kelps, 122 p) e Marcas do Infortúnio (romance) (Goiânia: Kelps, 334 p).