Aquela morena alta sempre me olhava de um modo diferente. Era um olhar sugestivo, perturbador, puro e sem preconceito.
Aos domingos ela descia para a igreja com aquele seu andar felino, calculado, provocante, sapatos de saltos altos combinando com a sua estatura, cabelos castanhos longos, sempre a alisá-los, num espontâneo convite mudo. Eu podia sentir o seu inebriante perfume que fendia os ares e feria minhas narinas, num delicioso toque que entorpeciam os meus sentidos.
Mas eu era um rapaz muito tímido, apesar de recém-chegado da capital. Tão tímido que era, morria de vergonha de conversar com aquela moça. Para mim era algo inalcançável. Era como uma estrela que surgia para alumiar o meu caminho, mas eu não poderia tocá-la. Apenas admirá-la. Havia um enorme abismo entre nós. Eu estava a milhares de anos-luz daquela moça, que passara a fazer parte dos meus sonhos. Mas a timidez me consumia por dentro. Até que um dia, cingi-me de uma coragem sobrenatural e me aproximei, com o incentivo de algumas amigas que até então eu havia cultivado.
Era festa de pecuária e a cidade estava agitada. Os jovens envergavam suas vestimentas típicas para a ocasião. Ela me convidou para ir à festa, pensa?! Aceitei prontamente, com o coração acelerado. À noite, passei em sua casa e fomos à festa. Andamos juntos naquele aglomerado de pessoas que se acotovelavam e, na iminência de perdê-la de vista, segurava-lhe no braço, para logo a soltar como se tivesse tomado um choque elétrico.
Era grande a minha felicidade, embora eu estivesse muito nervoso, porque nunca tivera uma experiência antes. A timidez e o medo ainda impunham os seus limites. Ela estava esplendidamente linda, com um vestido branco que moldava seu corpo bem proporcionado ante meus olhos cintilantes de tanta admiração. Era a figura de uma deusa. Eu sentia-me orgulhoso em ter aquela garota por companhia; uma moça que era admirada e disputada por muitos rapazes mais bonitos do que eu, e socialmente melhores posicionados.
Lembro-me que um dia eu estava indo para o colégio juntamente com uma colega de sala, quando vi que aquela moça descia a avenida. Vi quando um carro passou e parou logo após a esquina para esperar por ela. Era um fã. Vi também quando ela passou para o outro lado da rua e, então, o rapaz a chamou. Lembro-me até o nome dele, mas deixa pra lá. Não gosto dele, mesmo!... Quando cruzei a avenida, olhei de relance e vi que o filho da mãe tentava puxá-la para perto de si. Ela se desvencilhou das mãos de urso que a segurava e continuou a andar. Trinquei os dentes de raiva, pedi desculpas à minha colega e fui socorrê-la. Dei a volta no quarteirão, a pé, e tornei a passar pelo local. Ele desconfiou do blefe e resolveu ir embora. Pude segui-la com o olhar até ver que o perigo havia passado. O cara era louco por ela.
No entanto, agora ela estava comigo. E eu não queria perdê-la. Não prevalece a lei do mais forte? Pois eu era um vencedor. Lutava com todas as forças que possuía, pois lutava contra mim mesmo, contra os meus próprios preconceitos e minhas incertezas.
Assistimos a um show sertanejo, passeamos pela praça do parque agropecuário, e as horas passaram rapidamente. De repente, era quase meia noite!...
— Vamos embora? — Ela convidou.
— Que pena! — suspirei.
Seu pai era um homem forte, sistemático, rosto constantemente vermelho denotando tédio, muito radical. Inclusive, na época mostrava indícios de preconceito racial e isto mexia muito com meus brios. Era um quarentão que, quando contrariado em seus caprichos, parecia um urso enjaulado. Comparando a minha estatura franzina com a sua compleição avantajada, dir-se-ia que era uma formiguinha enfrentando um elefante. Além do mais, já era tarde. Precisava mesmo levá-la em casa.
Saímos por aquelas ruas apinhadas de pessoas e de barracas de ambulantes que vieram de longe em busca da defesa do pão cotidiano e se instalaram ali. Alguns já dormiam, outros ainda apregoavam àquela massa de transeuntes as suas mercadorias. No percurso até sua casa não rendeu mais do que assuntos sem importância.
Chegamos a casa.
Seus pais já repousavam, porém não estavam dormindo até àquela hora à espera da filha. A moça entrara em casa para avisar que havia chegado inteira e voltou para junto de mim. A timidez aguçou a adrenalina que circulava pelas minhas veias, quase sopitando em minhas têmporas.
Na porta de sua casa havia uma árvore frondosa, de folhas miúdas, e debaixo da árvore, um banco de madeira rústico.
Sentamos.
Uma gostosa brisa balançava sutilmente as folhas da árvore, filtrando os escassos raios da luz do luar, suscitando reflexos dos seus cabelos castanhos e do seu vestido impecavelmente branco. Conversamos sobre assuntos banais.
A rua naquele momento estava deserta e ouvíamos apenas o trilar dos grilos e o barulho de cães que ladravam à distância. Em algum poleiro da vizinhança um galo cantou. Depois outro e mais outros. Tudo era calmo e sereno à nossa volta. Ela chegou mais perto de mim e encostou o seu rosto no meu ombro, num silencioso pedido de amparo. Seu perfume suave foi como um bálsamo. Uma doce sensação de torpor subiu pelo meu corpo, indo até o cérebro. Aspirei aquela fragrância entorpecente. Fechei os olhos.
— Meu Deus! — quase gritei.
Pensei que o meu coração fosse saltar para fora. Eu podia ouvir nitidamente as batidas fortes de um tambor dentro do peito. Ela olhou para mim, abriu os lábios e fechou os olhos. Naquela hora o mundo desabou, abalando todas as minhas estruturas. Nossas bocas se encontraram num contato alucinado, urgente, sôfrego e eletrizante. O vulcão até então abafado dentro de mim, explodiu-se numa erupção devastadora, soltando lavas de prazer por todos os poros. Era o primeiro beijo de um encontro que jamais teve fim.
Venci todas aquelas incertezas, lutei contra o preconceito e conquistei o meu espaço na família. Aquele encontro tão marcante completou vários aniversários, e aquela moça, aquela deusa que tantos sonhos me fez sonhar, é hoje a mulher que amo. É ela a mãe dos meus filhos.