— Gabriel! — chamou.
— Sim. Gabriel estava em pé, de cabeça baixa, em sinal de respeito. O ancião continuou:
— Chegou a hora. Lembra daquele pacote?
— Sim.
— Vá! Encontrará tudo o que precisa num envelope pardo por fora da caixa. Ele aquiesceu. Ao virar as costas para partir, o ancião o advertiu:
— Leve também a sua capa.
— Sim, senhor — ele respondeu e partiu.
A noite não estava de todo fria, porém chovera torrencialmente desde o anoitecer. A cidade de São Paulo sugeria a arca de Noé em proporções gigantescas, aguardando o momento certo para flutuar em sua base e deslizar serenamente rumo ao monte de Ararat. Mas agora a chuva cessara quase por completo, o bastante para que o condutor do veículo parado em frente à garagem de Emma abrisse a porta do carro e saísse. Possuía uma compleição avantajada para os seus trinta e oito anos, aproximado. A pele negra se fundia com o terno que ele usava sobre uma camisa de cor palha. A gravata de poliéster possuía listras transversais nas cores vermelha e palha que, em conjunto com a vestimenta e os sapatos transmitiam ao observador atento a segura impressão de fino gosto. O homem e a roupa formavam uma combinação de beleza e muito bom gosto na escolha dos acessórios.
Emma trabalhara até mais tarde no jornal e só agora, quase meia noite é que ela conseguia chegar à sua casa, desviando-se das ruas alagadas pela enxurrada que descia dos morros violentamente, em busca dos bueiros transbordantes de espuma e entulhos. Sua filha, Florisbela (como grande parte dos filhos das mulheres independentes), tinha ficado com a avó materna, até que ela voltasse do trabalho com um abraço de muita saudade pelo dia todo fora de casa. Era uma compensação ansiosamente esperada por ambas. Emma virara a esquina da sua casa, uma música clássica no som de seu carro. Mas, ao ver outro veículo parado do outro lado da rua ela passara direto, como medida de precaução. Aliás, esta é uma prática fundamental para sobreviver em grandes centros urbanos onde grassa a violência. Ao notar algo estranho ou alguém desconhecido em atitude suspeita, a prudência ensina a dar a volta ao quarteirão. Porém, se desconfiar de algo é melhor ligar para a polícia a correr o risco de cair em uma emboscada. A cidade de São Paulo não deixava nada a desejar em se tratando de violência.
Vendo aquele veículo parado, o primeiro pensamento que lhe viera à mente foi se sua filha estaria bem. Seria isto um mau pressentimento, ou apenas fantasia da sua cabeça? Ela admitiu que estivesse necessitando de umas férias. Pensando assim, ela dera a volta ao quarteirão e, ao chegar à mesma esquina ela viu que o homem havia descido do carro e já abria a porta traseira do furgão. O coração da moça disparou, na medida em que ela tirava o pé do acelerador, pronta para saltar. Era um negro de ombros largos, alto e forte. Algo não estava certo.
Emma ficou dividida entre passar devagarzinho espiando ou enfrentar o perigo para se certificar que sua filha não corria perigo. Mas a prudência a fez parar a uma distância segura e aguardar. Fosse o que fosse ela ainda tinha a segurança do seu carro. No entanto, como não havia mais ninguém por ali, não era sensato ficar esperando por não se sabe o quê. Ela precisava se movimentar.
Quando ela ia engrenar a marcha, algo lhe chamou a atenção. O homem ergueu em seu ombro um pequenino ataúde de madeira, revestido com uma mortalha branca. A brancura do tecido contrastava com a cor da cútis do homem que conduzia o pequeno caixão. Todos os pensamentos de Emma se voltaram agora para a cena tétrica que se descortinava ali, bem à sua frente. Na incerteza de sua própria existência, a moça especulou para quem seria aquele pequeno ataúde, se para um menino ou menina. Quem seria a mãe daquela flor ainda em tenro botão. Ela nem sequer sabia se havia alguma mulher grávida por ali. Emma deixou de lado esses questionamentos, ao constatar que em cidades grandes, como São Paulo, ninguém tinha tempo de conhecer o vizinho do mesmo lote, ou apartamento, muito menos de outra quadra. No entanto, ela se lembrou que do outro lado do campinho de futebol havia uns casebres improvisados, que ela chegara a duvidar se resistiria a mais uma chuva daquelas, ou se ainda morava alguém dentro deles. O personagem do furgão fechara a tampa traseira e saiu andando com passos firmes rumo àquele amontoado de casas, levando aos ombros o pequeno caixão. Emma correu a abraçar a sua filha e voltou a espiar pela janela. Em momento algum ela vira o homem fazer muxoxo, ou rezar algum impropério devido ao mau tempo. Ao contrário, sua boca insinuava um leve sorriso. Apesar do caixão, notava-se que ele não era agente funerário, pois muitos agentes possuem cara de coiote. A chuva havia engrossado sobremaneira, como que querendo impor sua presença, mas ele tinha um olhar determinado, como o olhar de quem tem uma missão muito importante a cumprir e o faz com o devido respeito para com aquele que o ordenou. O homem desapareceu por detrás de uma das traves do campo de futebol. Parecia que carregava nos braços musculosos um valioso presente.
A porta da casa era feita de plástico grosso para impedir a passagem do vento úmido. Era a embalagem aberta de ração para cães, pregada num portal rústico de madeira. No centro da porta de plástico havia a cara feliz de um cão, com certeza de uma família rica. O quase sorriso do cão contrastava com a miséria estampada na face dos habitantes daquele casebre. O homem estava em pé, em atitude de respeito quando a porta de plástico foi aberta para um lado. Bem vestido, o negro meneou a cabeça em cumprimento e entrou agachado naquela choça, carregando nos braços o pequeno caixão. Todos se levantaram.
Em volta de uma pequena mesa jazia o corpo minúsculo e nu de uma menina recém-nascida. A mãe tinha em volta dos olhos e nos braços as marcas da violência que sofrera do brutamonte que ela chamava de marido e que aquela menina chamaria de pai. Não fosse a fatalidade, aquela desafortunada menina não poderia jamais escapar dessa dura realidade. Por certo o tempo curaria também essa chaga.
— Posso? — perguntou o homem à guisa de permissão.
As poucas pessoas que se encontrava ali se afastaram para que o homem fizesse o seu trabalho. Do pequeno caixão, ele tirou um macaquinho cor-de-rosa, uma carapuça e um par de sapatinhos impecavelmente limpos. Vestiu a roupinha no bebê com uma perícia digna de uma supermãe e o depositou carinhosamente no pequeno caixão, como se temesse despertá-lo do sono. Passou sua enorme mão no rosto daquele pequeno anjo e sorriu, afastando-se para que os familiares pudessem se aproximar. Alguns minutos depois, o homem perguntou com muito tato:
— Já posso fechar? Os familiares assentiram. Ele colocou a tampa no pequeno ataúde e levantou-o aos ombros. A chuva caía com vigor, inundando as ruas, o campo de futebol, tudo. Gabriel não se importava. Afinal, ele havia cumprido a missão que lhe foi determinada.
Emma ainda se lembra como se fosse hoje. É só ela fechar os olhos que ela vê um anjo negro, de ombros largos e um sorriso desenhado nos lábios, segurando pela mão uma menina de cabelos cacheados que ele chamava de Rafaela.