J. Castro
Poliana arrumava a sua pequena sacola, apressadamente, sob o olhar assustado de seu cãozinho, Bidu. Pelo visto, ela ia levar pouca coisa. As lágrimas puerilmente derramadas emanavam de seus pequenos olhos azuis, marcando o rosto de pele rosada com duas linhas sinuosas. As palavras, ditas no auge do desespero eram entrecortadas por soluços incontidos que indicavam que aquela garota estava, de fato, muito magoada com tudo e todos:
— Eu... não quéio mais... ficar... nesta casa... — dizia a garota ao seu amigo Bidu. Sei que... ninguém... góta mais... de mim.
— Você góta de mim, Dudu? — perguntava a garotinha ao cão. Ela assim o chamava.
— Você tem coiagem de ir emboia comigo, ou plefele ficar aqui com essa buaca? — ela fazia alusão à sua mãe. Bidu se esforçava para compreender aquela menina destemida: ora arregalava os olhos, ora aquiescia com a cabeça, girando de um lado e de outro, ora abanava o rabo, numa atitude de cumplicidade e atenção. A garota parecia muito decidida. Enrolou a sacola e jogou sobre os minúsculos ombros e saiu pelo portão, acompanhada pelo seu fiel amigo, Bidu.
Desde os cinco meses de idade, quando Poli era bem pequena, ela se mostrava muito independente. Ela se debatia tentando se levantar do berço onde Bianca, a mãe, a colocava enquanto fazia as tarefas domésticas. Bianca escondia sua incredulidade por trás de um arremedo de sorriso. — Só quero ver o que essa menina vai aprontar! — dizia a si mesma. No entanto, Poli não estava brincando. Ela se debatia até conseguir se virar de bruços, depois de gatinhas. Daí a se levantar era apenas uma questão de tempo. E Poliana não estava disposta a protelar por muito tempo, de sorte que já não podia se descuidar da menina sob o risco de ela cair da cama no momento da troca de fraldas.
— Meu Deus, que precocidade! — A mãe estava assustada com o desprendimento da garota.
Alguns dias antes de completar o sexto mês, Bianca acordou de manhã e procurou a filha para amamentar. Ela estava em pé na cabeceira da sua pequena cama. Assustada, a mãe soltou um grito, num misto de perplexidade e temor, ao que a menina caiu sentada no colchão. Mas nem sequer se deu ao luxo de chorar. A mãe se levantou rapidamente, pegou a garotinha e aconchegou-a ao peito, oferecendo o seio farto para que ela pudesse mamar e se acalmar do susto. Ao tentar introduzir o bico do seio na boca da garota, esta virou o rosto para o outro lado, numa atitude de rebeldia e repulsa.
— Você precisa mamar, meu bem! — Ficou assustadinha, não é, minha princesa? Desculpe, meu amor! Mamãe não deveria ter gritado com você. Poli se virou para o outro lado. Mas Bianca insistiu, esfregando o mamilo na boca da menina. Agora Poli abocanhou o seio e fez uma carícia com a língua e com a gengiva.
— Isto, meu bem! Bianca semicerrou os olhos, sentindo todo o prazer que aquele gesto de amor proporciona. Bianca refletia que o Ser-mãe é uma combinação perfeita de amor e doação total, já desde a concepção do ato que promove a fecundação do óvulo. Depois vem a gestação, com todo o seu desenvolvimento, as mudanças de ordem psicológicas e corporais, o aguçamento do sentimento materno, a alimentação do feto por meio do cordão umbilical. Pensa?... Não é interessante? Nove meses depois vem o parto, a amamentação, tudo. Interessante é que o mundo parece girar em torno do cuidado de uma mãe. O marido fica mais atencioso. A sociedade falta estender tapete vermelho quando uma futura mãe entra num determinado ambiente. Enquanto refletia Bianca sentia leves arrepios de prazer ao contato daquela boquinha quente em seu seio. — Isto, meu amor! Você precisa mamar para crescer e ficar forte, não é, minha linda? A mãe beijou a testa da filha carinhosamente. Sua filha, tão linda! E saber que era um pedaço de si...
Numa atitude inesperada, Poli fechou a boca abruptamente, mordendo o seio que vertia o líquido vital para sua própria sobrevivência. A mãe agora soltou um grito de dor e, num impulso jogou a menina na cama.
— Ai! Ai! — sua cadelinha! É assim que você retribui todo o meu amor? Droga! Bianca se arrependeu por ter dito esse impropério. Mas não era justo o que havia acontecido, ora! Também seria inútil tentar explicar isto à garota. Bianca se virou para pegar a garota novamente, mas ela se levantara apoiando na grade e agora estava em pé na cabeceira da cama. Ela tinha um sorriso obsceno no rosto, enquanto Bianca soluçava e massageava o bico dolorido do seio. Sua mente fervilhava de questionamentos sem respostas. Quem sabe um dia ela pudesse entender aquela atitude. Por que será que criamos os filhos com tanto carinho e eles não nos retribuem da mesma forma? Bianca temia se tornar uma mãe amarga. Ela sacudiu a cabeça para afastar os maus pensamentos, mas tomou uma séria decisão. Nem é preciso adivinhar que esta foi a última vez que ela ofereceu o seio à garota. Assim, a mãe passou a substituir o leite materno por uma alimentação mais consistente.
A menina pouco comia. Apesar de não chorar de fome, a mãe percebia que ela emagrecia dia após dia, pois ainda não tinha estrutura para outro tipo de alimento. Foi então que Bianca teve a ideia de comprar uma mamadeira e uma chupeta para Poliana. Bianca sabia que a chupeta era uma ilusão, mas primeiramente foi ela a iludida. No entanto, a chupeta foi uma bênção para ambas.
Agora, faltando pouco para completar os três anos de idade, Poliana se viu diante de outra ilusão. Acostumada a ter o que sempre queria —, naquela tarde sua mãe lhe negara uma moeda para comprar um picolé.
— Tá vendo, Dudu, é só um picoié. Essa miseiável! — Ela não queria muita coisa. No entanto, a tarde estava fria e sua mãe se preocupava com a saúde da menina. Havia um surto muito forte de gripe na cidade e Bianca não queria correr o risco de sua filha contrair um resfriado. No entanto, essa recusa foi a última gota que faltava para entornar o caldo, como dizia o ditado.
— Que méida, Dudu! — ela desabafava. Parecia que aquela decisão era muito difícil, mas necessária a tomar. Pelo visto, ela ia levar pouca coisa, até porque seria interessante ter as mãos desocupadas, pois nunca se sabe o que pode acontecer. Ela monitorava a mãe, enquanto terminava de arrumar as coisas na sacola. Poli fez o inventário: a mamadeira estava pela metade, mas bastava; cinco bolachas de coco; talvez devesse levar mais por causa do Bidu, mas a mãe havia guardado o pacote no armário. Méida! Não podia esquecer o copo plástico de canudinho, seu inseparável ursinho de pelúcia, a chupeta amarrada a uma fralda e a caixa de fósforos. Era tudo de que necessitava.
Eram quase duas da tarde. Poli decidiu: aproveitou o momento em que sua mãe saíra para os fundos da casa a fim de estender as roupas no varal. Lançou aos ombros a sacola e saiu pelo portão, acompanhada por seu pequeno cão. Subiu pela calçada rumo à avenida que levava ao centro da cidade pela esquerda e, pela direita, conduzia à saída da cidade. Ela tomou à direita, pois tinha que sair do movimento, se quisesse lograr êxito naquela aventura. Todavia, ninguém parecia notar a presença dela, o que era muito bom. Todos estavam envolvidos com seus próprios problemas. Uma menina e um cão. A mãe estaria por perto, logo atrás. E continuavam os seus afazeres. Assim Poliana chegou à rotatória da praça. Obrigatoriamente ela teria que atravessar a avenida se quisesse continuar. Os carros pareciam a ela formigas gigantes, num ir e vir constantes. Pela primeira vez Poli sentiu medo. Por sua vez, Bidu grunhia inquieto, colocando-se à frente de sua protegida, impedindo-a com a fragilidade de seu pequeno corpo. Impotente, Poliana se sentou no meio-fio. Bidu cruzou as patas dianteiras e se postou ao seu lado, respirando acelerado com a língua para fora. Parecia cansado, mas aliviado.
O vai-e-vem constante dos veículos e o movimento do olhar da garota tentando acompanhar a tudo lhe trouxeram sonolência. Bidu percebeu e grunhiu algo ininteligível. Poli se levantou e encaminhou-se para debaixo de uma árvore. Remexeu na sacola e encontrou o que precisava. Abriu a caixa de fósforos e retirou um palito. Bidu quase nem piscava agora. Ela segurou o palito pela cabeça e raspava a madeira na caixa. Nada aconteceu. Riscou novamente e o palito se quebrou ao meio. Ela apanhou outro e riscou mais uma vez. De novo. Sem êxito. Olhou para Bidu e, colocando ambas as mãos na cabeça, Poliana rogou uma praga: — Méida! Impotente, Poli devolveu os fósforos à sacola, retirou a mamadeira e o seu ursinho de pelúcia.
— Eite fio é uma méida, não é, Dudu? — desdenhou. Estendeu as bolachas a Bidu e, abraçada ao seu ursinho felpudo, Poliana sucumbiu.
Três horas mais tarde, no auge do desespero, Bianca havia procurado por toda a vizinhança. Nada. — Meu Deus! Logo seria noite. Bianca foi andando, lamentando e chorando. O que será que fizera de errado? Dedicara todo o seu amor à garota e agora o Destino lhe pregara uma peça de mau gosto. O marido tentava consolá-la só para dizer alguma coisa. Na verdade, ele estava mais desesperado do que ela, mas se continha para não perder também a esposa. Poliana era apenas uma garotinha indefesa. De repente, o marido firmou as vistas:
— Olhe lá! — Bianca olhou, mas agora os gritos emergiram do âmago de sua alma. O marido tentou ampará-la, mas ninguém a segurava, não agora que ela vira umas pequenas pernas estendidas na calçada e uma mancha de sangue já coagulado, pelo visto. Moscas voejavam ao redor do pequeno corpo da menina. Ou aquilo era uma visão provocada pelo desespero? De qualquer forma, era melhor pedir proteção.
— Meu Deus dá-me forças! Não suporto ver tudo isto!
Ao reconhecê-los Bidu grunhiu e abanou o rabinho, mas não saiu do lugar. Bianca chegou e parou estupefata. Sua língua se secou, impedindo que as palavras saíssem da boca. Poliana dormia placidamente abraçada ao seu ursinho. A chupeta jazia na boca. Um sorriso insinuava em sua boca, parecia sonhar. A sacola com os fósforos e o copo estava à sua cabeceira. O pequeno cão jazia ao lado da menina, as patinhas dianteiras cruzadas e o olhar atento ao movimento de formigas gigantes que iam e vinham.
REIS, Jonan de Castro. Romancista, contista e poeta. Membro da Academia de Letras do Brasil – ALB, membro da Academia de Letras do Extremo Sudoeste de Goiás – ALESG, membro da Associação de Poetas Del Mundo, Cônsul de Poetas Del Mundo, Entorno de Quirinópolis – GO.
