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sábado, 26 de março de 2011

COISAS DO CORAÇÃO


(J. Castro)[1]

           — Até hoje não consigo entender por que Nina foi se envolver com aquele joão-ninguém, disse à sua comadre, Bella. E Beatriz abafou um suspiro.
              — O que eu não compreendo é como você vai ser vovó antes mesmo de ser mãe – insinuou Bella. Ambas riram. Realmente aquilo não fazia sentido.
            Nina era uma menina magricela, de pele cinzenta e cabeleira arrepiada que viera procurar abrigo em sua casa. Ela não se lembra de como foi parar ali, mas a verdade é que a mãe e os dois irmãos foram praticamente lançados da carroceria de uma caminhoneta — só mais tarde foi-se saber. O motorista que os trouxeram parou o veículo abruptamente e, aproximando-se do beiral da carroceria disse à mãe assustada:
         — Chispa. A mãe agarrou a filha e aconchegou-a ao peito, num instinto de proteção. Os olhos estavam fitos no homem de pé à sua frente.
             — Vamos, chispa — e tentou puxá-la pelos cabelos. Ela ameaçou-o com a mão espalmada e pagou muito caro. Subindo para a carroceria, o homem a pegara pelos cabelos e a jogara no chão. No desespero para segurar-se em algo, Nina caíra dos braços da mãe. O homem a lançara sem piedade para o chão, mas o céu intercedeu em favor da menina, pois uma moita de capim a amparou e ela sofreu apenas um leve susto. Ao contrário de seus irmãos que caíram de mau jeito e sofreram forte traumatismo. Debilitados e famintos, pouco depois os meninos eram apenas as reminiscências que flecharam o núcleo do coração da mãe, deixando Nina sozinha no mundo.
Mas a menina não tinha idade para compreender absolutamente nada disso. Ela compreendia apenas que estava com fome, por isso se punha a chorar e a andar sem rumo. Já era quase noite fechada. O destino a levara até a casa de Beatriz, na porta da qual ela gemia e chorava fracamente. Ao ouvir os gemidos, Beatriz olhou pela janela e ficou petrificada. A moça não sabia se chamava a polícia ou gritava sua mãe. Não fez nem uma coisa nem outra. Sensibilizada com o estado da garota, a moça abriu a porta e trouxe a menina para dentro. Ofereceu-lhe leite, carinho e proteção. Beatriz deu-lhe também um nome e, assim, ela passou a fazer parte da família. Agora Nina era a mascote da família. Poucos dias depois, ninguém reconheceria aquela menina esquálida que viera não-se-sabe-de-onde procurar abrigo justamente na casa de quem tinha muito amor para dar.
Nina era a sua menina, como Beatriz gostava de dizer. Dormiam no mesmo quarto, pois ela não queria perdê-la jamais. Cada manhã era saudada com entusiasmo por Beatriz porque Nina era a luz do seu amanhecer. Nina era o tênue raio de sol após um longo período de inverno. E o tempo passou rapidamente. Nina cresceu e ficou linda, com seus grandes olhos agáteos. Os cabelos agora sedosos e bem tratados escorriam em suaves cascatas pelas suas espáduas. Beatriz esquecia o queixo ao fitar a menina que, aliás, já não era mais uma menina. Tornou-se uma moça muito bonita e sensual.
Agora Nina já insinuava para os gatinhos que desfilavam na rua de sua casa. Beatriz quase morria de ciúmes da filha e comadreava com Bella que tinha de arranjar um rapaz bonito, de boa linhagem para se casar com Nina. No papel de mãe, ela não permitiria que sua princesa se amancebasse com um cafajeste qualquer. Ela queria agora um garoto à altura da beleza de Nina, para que seus netos fossem tão lindos quanto sua própria filha. Aqueles que não se enquadravam no perfil de beleza concebido por Beatriz eram sumariamente enxotados de sua casa. Até água quente servia de repelente aos mais afoitos. Lógico que ela não deixaria que sua filha sujasse o sangue com um joão-ninguém “sem lenço e sem documentos”. Até que Nina conheceu Romão.
Romão era vizinho de Beatriz. Freqüentava sua cozinha, quando ela não estava em casa, pois a moça o detestava. Um dia, ele chegou ao extremo de pular pela janela e roubar os bolinhos de bacalhau que Beatriz preparara para o jantar. O infeliz era manco, gago, de fala fina e por cima, caolho. O pior era que Nina dava o maior bolão para ele, mas nunca haviam conversado, pois sua mãe sempre se opunha. Inclusive, naquele dia Nina estava de castigo por causa de suas insinuações desavergonhadas, como dizia Beatriz. Porém, num pequeno descuido Romão já estava pronto para a entrevista:
— Cumé qui você cha... a... a...ma? Ela virou os olhos para cima como a dizer “eu mereço”, e explodiu:
— Ni...i...i...i...naaaa! — e deu-lhe uma palmada na cara. Sua voz esganiçada por causa da raiva fez com que Romão se encolhesse, acovardado. Passado algum tempo, a moça compreendeu que o garoto não tinha culpa se ela estava de mau humor. A verdade é que tudo parecia conspirar contra ela. Sua mãe não a deixava mais sair na rua. Seus amigos foram enxotados de sua casa. Alguns apenas olhavam de longe, por cima do muro, mas ao verem Beatriz, saíam correndo com mil e quinhentos diabos no couro. Será que sua mãe queria que ela ficasse para titia? Com esses questionamentos tamborilando em sua cabeça, Nina deu uma risadinha à guisa de desculpas. Romão retribuiu, aceitando o pedido. A culpa fora dele, que não soubera fazer a abordagem. Beatriz estava na janela e os viu. Logo começou a rezar baixinho. — Meu Deus, tenha piedade! Oh, Deus proteja a minha menina...
Mas o destino resolveu brincar com Beatriz. Nina achou que não lhe custaria nada atar uma amizade com aquele garoto, até porque as disparidades sociais fazem o equilíbrio das almas nobres. Nina era bem criada e educada. Romão era pobre e tímido. Possuía um sotaque sulista, bem carregado no “erre”. Notava-se pela maneira esquiva que até poderia ser um larápio — Nina concedeu. Mas, o que importava? Ela precisava mostrar à sua mãe para que viera.
— E você, como se chama? — fez Nina, com trejeito.
— RRRomão! RRRomão! — gaguejou o moço, timidamente. Ela riu, mostrando duas fileiras de dentes muito bonitos.
— O rrrato rrroeu a rrroupa do rrrei RRRomão — ela brincou, imitando seu sotaque. Eles riram. Como se aquela brincadeira fosse uma senha, ambos se enlaçaram num abraço rápido e violento.
Ni... i... i...i... na! Que pensa que está fazendo? Passe já para dentro! Sua mãe gritou, tentando evitar o pior. Não, não foi aquele o marido que ela havia pedido para sua princesinha — pensou. Mas Nina não ouviu. Aliás, não queria ouvir. Saltou o muro dos fundos e ambos foram para debaixo de uma mangueira no quintal vizinho. Afinal, ela estava cansada daquela superproteção. De que lhe adiantaria ser bonita, se ela não podia ser o que ela queria? Ela precisava viver para si mesma, doesse em quem doesse. Chorando, Beatriz sucumbiu.
Agora, com a barriga quase arrastando no chão, a gata angorá dormia placidamente na cesta de vime. Parecia cansada, mas feliz. A comadre Bella forrava a cesta carinhosamente, com um acolchoado macio que ela trouxera de presente, pois em breve acomodaria os seus novos afilhados.
— Nossa, comadre! Não aguento mais de curiosidade para ver meus novos afilhados — disse Bella. Agora foi Beatriz quem retribuiu com pesar:
— Pena que o pai é um vira-lata caolho!


[1] REIS, Jonan de Castro. Poeta, contista e romancista. Autor de Arremedo: Contos & Lorotas (Kelps, Goiânia, 122 p) e Marcas do Infortúnio, romance (Kelps, Goiânia, 334 p).

Obs: Este texto faz parte do livro Arremedo: Contos & Lorotas, 2009.

sábado, 5 de março de 2011

TENHO PENA DELA...

J. Castro[1]

Não é utópico afirmar que o senso de humor feminino é uma característica capaz de superar a própria beleza física. Também não é nada vergonhoso admitir que os homens adorem ver mulheres bonitas, pois os traços físicos têm o poder de neutralizar os demais órgãos dos sentidos e aguçar ainda mais o sentido da visão. Assim, para alguns homens uma mulher bonita pode dar-se ao luxo de ser chata, pois os atributos físicos amenizam o contraste devastador entre a beleza e a chatice, transformando a portadora de tamanha desventura em um ser aceitável à vista.
No entanto, para um homem inteligente o senso de humor é o principal quesito da alma feminina; é o fator determinante da grandeza de uma mulher. Aliás, fala-se à boca de trombone que o senso de humor é o diferencial que eleva as mulheres desprovidas de beleza física à categoria de igualdade e até de superioridade frente à sua competidora, a outra. Mas isto não é o caso de Marina, a Franga.
— Franga é sua avó, sua mãe, sua esposa, sua filha e suas sobrinhas — dizia a mal humorada Marina.
A autora dessa pérola genealógica (cá entre nós) é uma negra das canelas cinzentas e nariz adunco, que mora no salão fazendo química nos cabelos. O resultado da progressiva nada mais é do que uma progressiva queda nos cabelos. Todo dia de manhã e à tarde, quando chega ao escritório Marina tira o capacete e apanha o espelho. Após quase trinta minutos de escovação e votos Marina junta os fios caídos em um grande molho e os joga no lixo. É de fazer remorso olhar o cesto de papéis com o fundo repleto de cabelos de várias medidas, dando a ideia de penas. Naquele dia, por exemplo, havia penas em cima da mesa, sobre o assento das cadeiras e no teclado do computador. Até o mouse óptico perdia o contato devido ao excesso de penas, as rodas das cadeiras giratórias emperravam-se por causa das penas enroscadas nos eixos. A alcunha serviu como uma luva: Franga.
Mas, na verdade Marina nada tinha de franga, uma vez que a avaliação da autenticidade de uma franga se dá por meio das canelas e, no caso em questão, as de Marina já apresentavam as marcas indeléveis dos bons tempos de outrora. Todavia, chamá-la de galinha era por força da ética uma atitude preconceituosa. Convém admitir que num ambiente onde a palavra de ordem é o espírito jovem, não se pode cobrar certas formalidades. Assim, as brincadeiras e as alcunhas são inevitáveis para que as horas passem de forma descontraída e mais depressa.
Calcinha era o apelido de uma mulher que vivia rifando o cofrinho a quem oferecesse uma moeda de maior valor. Lulu era um rapaz de espírito inquieto e muito criativo, que vivia inventando objetos eletrônicos e fazendo experiências. Dado o espírito criativo, dizia-se que era Santos Dumont, em alusão ao inventor do avião. Com o passar dos dias, devido ao sobrenome “Santos”, o apelido evoluiu para Lulu Santos. Daí a simplesmente Lulu foi só uma questão de consenso. Narizinho era uma moça de nariz arrebitado que parecia farejar algo que nem ela mesma sabia o que era. Pantera se justificava pelo porte elegante e a pele acetinada de uma morena que não carecia vergonha de ser bonita. Ela possuía também um sorriso espontâneo para oferecer a todas as pessoas que se aproximavam dela.
Da mesma forma, Bombom era uma moça de fragilidade dócil, pele cor de caramelo e muito carinhosa que sugeria um delicioso chocolate. Não havia quem não quisesse abraçá-la e beijá-la, tal a doçura que emanava daquele ser. O autor dessas alcunhas fazia suas observações e “batizava” suas personagens com um nome à altura de suas características dominantes. A capacidade analítica de Bill era lendária, de sorte que Marina ria escandalosamente dessas analogias, admirando a capacidade criativa e espírito livre do autor. No entanto, Marina perdeu a melhor oportunidade de sua vida ao propor a Bill:
— Ponha um apelido em mim! — Quero ver com o que você vai me comparar — e ria cacarejando.
— Não é bem assim! Eu preciso de inspiração — desconversava, mas sua mente já estava em polvorosa, fazendo analogias para encontrar a resposta de que necessitava. Atentando bem para a risada de Marina, Bill teve um insight e deu uma risadinha marota ao olhar para ela.
— De que você está rindo? — Marina perguntou.
— Nem queira saber — tentou ignorar, para ver se perdia o sinal do satélite. No entanto, o satélite continuou a enviar mensagens para o seu cérebro.
— Está rindo da Calcinha ou da Pantera? — e cacarejou feito galinha. Num impulso fatal, Bill sentenciou:
— Franga. Uma vez alcunhado, não havia retorno, não nos casos em que Bill sentenciava. Todos aderiram. Até mesmo Marina riu. A partir daquele momento, quando se via algum fio de cabelo solto pela sala, sempre havia alguém para dizer:
— Marina, olha uma pena sua aqui! — Ela ria sem graça. Quando Marina chegava mais cedo ao trabalho, dizia-se que ela havia caído do poleiro. Se chegava atrasada, perguntavam se havia acontecido um eclipse solar, motivo pelo qual ela não havia descido do poleiro mais cedo.
Todavia, acostumados uns com os outros, quase nem se percebiam que as brincadeiras estavam saindo do domínio das quatro paredes da sala. Um dia alguém chamou Marina de Franga, ao que um terceiro perguntou:
— Franga? Por quê? Está mais para galinha velha. — Todos riram, menos ela. Bill esboçou uma ruga de preocupação ao saber do ocorrido. Aquilo não ia prestar...
Dois dias após esse incidente, houve outro de maiores proporções. Alguma coisa deu errado com Marina e ela chegou esbaforida, com as penas arrepiadas. Bill perguntou:
— O que aconteceu com você, Franga? Foi aí que ela ciscou:
— Franga é sua avó, sua mãe, sua esposa, sua filha e suas sobrinhas — e, por favor, meu nome é Marina. Obrigada! Por causa disso ela passou uns quinze dias com a crista caída. Mas todos eles precisavam uns dos outros. Afinal, não valia a pena caída de uma galinha ficar de bico uns com os outros. As pazes foram feitas num clima de desabafo, entre uma colherada de sorvete e outra. Pela primeira vez Marina ousou dizer que Bill, às vezes, possuía uma criticidade ferina, mas era justo em suas concepções. Por sua vez, Bill disse que Marina possuía um péssimo senso de humor. Já que as roupas sujas foram lavadas, estava na hora de um recomeço.
Bill se lembra até hoje de um episódio que aconteceu numa roda de amigos em que havia apenas uma garota, Carla. Era uma garota alta, bonita e destemida, que falava o que lhe vinha à boca. No entanto, Carla possuía um senso de humor fantástico que punha no tapete qualquer um que ousasse tirar casquinha dela, pensando que iria deixá-la na berlinda. Fazia muito calor e Carla disse, abanando o rosto no sentido de provocar ao menos uma tímida corrente de ar:
— Com este calor sou capaz de chupar uma melancia inteira. Bill improvisou um trocadilho:
— Mas assim você vai ficar parecendo uma melancia madura! Carla não se fez de rogada:
— Posso até ser uma melancia, Bill, mas quero ser rachada de boa. A expressão “rachada” foi proferida num tom levemente malicioso, evidenciando a sua condição de mulher, o que caracterizou o senso de humor da tirada. Bill estendeu a mão a Carla:
— Meus Parabéns! Adorei o seu senso de humor!
— Obrigada! Pode acreditar que haverá melancia rachada para todos. Desta vez as risadas foram unânimes. O senso de humor de Carla era algo desconcertante. Mas Marina era o avesso disso. Não possuía senso de humor e nem beleza. Alguns meses depois, Marina havia comprado um carro e estava se achando a todo-poderosa. No entanto, o custo de manutenção de uma mulher não é algo lá muito barato. Ainda mais em se tratando de uma mulher que queria ser ou pensava que era bonita. Ela pediu dinheiro ao marido para o salão, ao que ele perguntou:
 — De novo? — mas ela ainda tentou sair de salto alto:
— Mas você não gosta que sua mulher fique bem bonita? Mas o marido fez o que jamais um homem deve fazer com uma mulher:
— Claro! — E por que não fica? Marina arrepiou as penas e saiu ciscando tudo o que encontrava pela frente, inclusive o lençol da cama. O jeito foi o maridão ir dormir na rede por uma semana. No entanto, a abstenção sexual prejudicou ainda mais o senso de humor de Marina. Ela estava subindo pelas paredes de estresse. Ao chegar ao escritório Bill percebeu que algo errado acontecera com ela:
— O que lhe aconteceu que suas penas estão arrepiadas hoje, Franga? — Era a gota que faltava. Ela abriu as asas e partiu para cima de Bill, dando bicadas e insinuando dar até esporadas. Penas voavam para todos os lados, enquanto ela cacarejava como se estivesse protegendo uma ninhada de pintinhos de um predador implacável.
 — Xô, Franga! Parece que está vendo alguma cobra? — zombava Bill. Quanto mais Bill enxotava, mais e mais ela investia.
Não é de se admirar que a crista da Franga até hoje se encontra caída ao longo do bico. Ela passa por Bill cantando: cóoo... cóoo... cóoo... para não se sentir na obrigação de cumprimentá-lo ou mesmo se despedir. Bill não sabe se algum dia ela vai se recuperar. Pelo visto...
— É... Tenho pena dela — dizia Bill... e sacudia as roupas para tirar alguma pena que, por ironia do destino teimava em grudar em suas calças.


[1] REIS, Jonan de Castro. Poeta, contista e romancista. Autor de Arremedo: Contos & Lorotas e Marcas do Infortúnio. Membro da Academia de Letras do Extremo Sudoeste de Goiás, membro da Academia de Letras do Brasil – ALB, membro dos Poetas Del Mundo e Cônsul no Entorno de Quirinópolis – GO.